Sabrina Noivas 27
One Of a Kind Marriage

Jenny Benjamin: Confeccionista de ursinhos de pelcia. "Graas ao testamento de minha av terei de me casar... e rpido! Rafe Murphy pode ser 1 homem arrogante e rude, mas, numa emergncia, no da para escolher. Afinal, no estou mesmo a procura de 1 marido de verdade...
Rafe Murphy: Um pai encantador. "Se eu no me casar
imediatamente, corro o risco de perder a custdia da minha filha.
Jenny no  exatamente o meu tipo de garota, mas numa emergncia... 
Afinal, no estou  procurando 1 esposa de verdade...

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1995
Publio original: 1994
Gnero: Romance contemprneo
 Estado da Obra: Corrigida

Srie Casamentos Precipitados (Hasty Weddings)

Autor	Ttulo	Ebooks	Date
Jayne Addison	Temporary Groom
	Sep-1994Lauryn Chandler	Oh, Baby!
	Sep-1994Cathie Linz	One of a Kind Marriage
Sabrina Noivas 27 - Profisso Noiva	Sep-1994Kasey Michaels	Timely Matrimony
Sabrina Noivas 24 -
Um Casamento Diferente	Sep-1994Anne Peters	McCullough's Bride
	Sep-1994Carolyn Zane	Wife in Name Only
	Sep-1994


 


Captulo I

De onde vm os bebs?  Cindy, a vizinha de cinco anos de idade de Jenny Benjamim, perguntou de repente.
A garotinha estivera rondando-a e metralhando-a com perguntas, quase sempre impossveis de responder, desde que Jenny comeara a mudana para sua nova casa, naquela manh. Nova, alis, era maneira de dizer, pois a casa era bastante antiga e velha. E, aps quase um ms de espera, resolvendo os detalhes da compra do imvel, Jenny finalmente estaria dormindo sob seu prprio teto, nesta noite, em vez de ficar na casa de sua amiga Miriam.
Embora estivesse morando em North Dunway, New Hampshire, apenas por poucas semanas, Jenny j conseguira fazer alguns amigos, sendo que a mais persistente, e mais jovem, era a pequena Cindy, que vivia na casa ao lado. Todas as vezes que Jenny saa para pegar uma caixa com seus pertences, a menina estava bem ali,  sua espera. Era uma criana adorvel, de cabelos castanhos curtos e crespos e grandes olhos escuros. Porm, suas tcnicas de questionamento no fariam feio numa sesso da Inquisio Espanhola.
	Voc deveria fazer esta pergunta  sua me  Jenny respondeu, ento.
	Minha me morreu quando eu era pequena  disse a menina.
 Mas j estou grande, agora, e no sinto falta dela o tempo todo, como antes.
	Minha me tambm morreu quando eu era criana  Jenny confessou-lhe, sentando ao seu lado na escadinha da varanda.
Cindy virou-se, encarando-a com os olhos inocentes.
	 mesmo?
	E verdade.
	E voc ainda fica triste por isto, de vez em quando?  a menina indagou.
Jenny assentiu:
	Fico sim, s vezes.
	Eu tambm. E estou contente por voc ter se mudado para c. Pode ser minha amiga, se quiser  Cindy declarou.
	Pois eu gostaria muito, Cindy.
	Voc vai gostar do meu pai  a garotinha acrescentou.  Todas as moas gostam do meu pai. Ele  muito popular. Mais popular do que a Fera, da histria!
Exatamente o que ela precisava, Jenny pensou. Uma garotinha de olhos cndidos e um homem com a popularidade de uma fera. Parecia uma combinao interessante.
Porm, ela no viera para North Dunway atrs de coisas interessantes. Viera para trabalhar c no poderia dar-se ao luxo de esquecer deste fato. Empregara todas as suas economias na compra daquela casa e, embora contasse com a segurana de uma razovel soma de dinheiro que sua av lhe deixara como herana, s poderia receb-la depois que se casasse... e o casamento no fazia parte de seus planos imediatos.
Desta forma, estava por conta prpria, agora. E a mudana significava tudo ou nada, naquele estgio de sua vida.
Jenny sabia que s lhe restava rezar para que a sorte continuasse lhe sorrindo e que tudo desse certo. No momento, sua nica preocupao seria responder a ltima pergunta de Cindy: "De onde vm os bebs?".
 Perfeito!  Jenny exclamou, sentada em sua mesa de trabalho, vrias noites depois, admirando sua mais nova criao: a Ursinha Bonita.  Suas orelhas eram pequenas demais, c era isto que estava dando errado. Mas voc est muito melhor, agora.  Fez uma pausa c tocou carinhosamente o focinho marrom de Bonita.  Vocs no concordam, amigos?  indagou, dirigindo-se aos ursinhos de pelcia de diversos tamanhos, sentados num semicrculo na mesa.  Ela est perfeita, no acham? Exatamente como vocs!
Sendo uma artes premiada, graas s suas criaes de ursinhos de pelcia, Jenny sempre se cercava deles quando estava trabalhando, pois acreditava que ajudavam-na a inspirar-se. Alm disso, os bichinhos eram sua fonte de renda, um ofcio que iniciara como um hobby e que acabara se transformando num lucrativo negcio de entregas por encomendas pelo correio.
Tudo comeara quatro anos atrs, quando o Ursinho Benjamim, sua 
primeira criao de sucesso, ganhara vrios prmios numa conveno de trabalhos de artesanato, bem como o trofeu Ursinho de Ouro. Desde ento, muitos outros ursinhos se seguiram: Bertram, um bichinho maroto, de expresso alegre; o Vov-Urso, uma espcie de homenagem que ela fizera aos primeiros ursinhos de pelcia, com seu corpo de l e olhinhos de botes. Depois, iniciara a srie de ursinhos Bambino, cada um com uma personalidade prpria. Jenny os amava a todos e, a julgar pelo crescente aumento nas vendas, o pblico tambm.
Na verdade, nos ltimos tempos Jenny no conseguia dar conta de todos os pedidos que chegavam, e fora por este motivo que decidira trocar o pequeno apartamento de dois quartos onde morava em Con-necticut por aquela casa espaosa, localizada na cidade turstica de North Dunway. Com a estrada principal em frente, e as colinas e bosques atrs, a propriedade era confortvel e prtica. No ficava distante do centro a ponto de faz-la sentir-se isolada e, ao mesmo tempo, fornecia-lhe a tranquilidade do campo, que Jenny tanto precisava para seu trabalho de criao.
Em alguma poca, provavelmente h cerca de cinquenta anos, a propriedade fizera parte de uma fazenda, mas agora, a nica construo remanescente, alm da residncia, era o antigo celeiro. E fora exatamente isto que a levara a compr-la. Situado atrs da casa, o celeiro espaoso seria o local perfeito para a rpida expanso da Ursinho Benjamim e Companhia.
Por enquanto, o escritrio onde Jenny encontrava-se agora era o nico espao disponvel, mas os trabalhos de reforma j haviam se iniciado e, em mais duas semanas, estariam terminados. Ou, pelo menos, fora o que o sr. Gardner, o empreiteiro de obras que contratara, lhe garantira. Jenny esperava que ele cumprisse a promessa.
Finalmente, tudo parecia estar se resolvendo, ela pensou, inclusive o modelo perfeito para a Ursinha Bonita.
 Acho que consegui encontrar a companheira certa para voc, Benjamim  disse, colocando o prottipo de Bonita ao lado de seu primeiro ursinho de pelcia. Observou-os por um instante e assentiu, satisfeita.  Sim, vocs dois parecem ter sido feitos um para o outro. O que acha dela, Benjamim?  bonitinha, no ?  Sorriu.  Sabem de uma coisa? Ainda bem que so duas horas da madrugada e no h ningum por aqui, seno poderiam pensar que sou maluca, conversando com ursinhos de pelcia.  claro que algum que goste de ursinhos como eu gosto seria capaz de compreender facilmente, mas outras pessoas, nao-  Encolheu os ombros.  Mas quem se importa com isto?  Endireitou Bonita na mesa.  Ser que suas orelhas no ficaram grandes demais, agora?
Naquele instante, Jenny ouviu um rudo no lado de fora do celeiro. Tentou no se preocupar, imaginando que fosse o amigvel casal de quatis que ela estivera alimentando nos ltimos dias, e que provavelmente morava por ali. Porm, o rudo tornou-se mais alto, mais prximo e reconhecvel: era o som de passos... humanos!
Subitamente, ela deu-se conta do quanto sua posio era vulnervel: estava sozinha naquele celeiro, no meio da noite. Agindo por instinto, agarrou o primeiro objeto que estava  mo. S depois percebeu que era um urso de pelcia de tamanho grande.
Na escurido, surgiu o som de uma voz masculina:
	O que est planejando fazer eom isto? Obrig-lo a me abraar at que eu morra?
	Fique longe de mim!  Jenny avisou, tentando mostrar-se ameaadora.
	Ora, mas isto  maneira de receber um vizinho?  O homem deu um passo, surgindo sob a luz.  Meu nome  Rafe Murphy, sou o pai de Cindy. Ns nos conhecemos, quando voc se mudou. Moro na casa ao lado, lembra-se?
Jenny lembrava-se dele, obviamente. E como no poderia? Alto, moreno e musculoso, Rafe Murphy era do tipo inesquecvel... aquele a quem sempre se diz "sim", mesmo sabendo que deveria estar dizendo "no". Sob a fraca luz do celeiro, Jenny percebia que ele estava ciente deste seu poder, pela segurana que seus olhos emitiam.
Vendo a maneira divertida com que ele olhava para o urso que ela ainda tinha nas mos, Jenny largou-o numa cadeira, antes de perguntar, preocupada:
	Aconteceu alguma coisa? Cindy est bem?
	Cindy est tima.
	Ento, o que est fazendo aqui, a esta hora da noite?  indagou, irritada. Sabia que Rafe era o pai da menina, e que era o dono do Restaurante Murphy's, localizado ao lado de sua propriedade. Porm, nada disto explicava a presena dele ali, entrando furtivamente e quase matando-a de susto.  No me diga qu veio pedir uma xcara de acar emprestada  ironizou.
	No. Queria conversar com voc. Estava fechando o restaurante e vi as luzes acesas. Voc no costuma trabalhar at to tarde.
E como ele sabia disto?, Jenny perguntou-se, receosa. A ideia de que ele poderia estar vigiando-a a deixava perturbada. Ele a deixava perturbada.
	Como conseguiu entrar?  perguntou.  Eu tranquei a porta.
	Pois estava aberta, quando cheguei.
Ela poderia jurar que a havia trancado, mas achou melhor no comear uma discusso intil, quela hora.
	Ainda no me disse o que quer  falou.
	Disse, sim. Conversar com voc.
	Agora? Mas, sobre o qu? Escute, no gostei nem um pouco da maneira corno entrou, aterrorizando-me.
	Da prxima vez que algum assust-la, pegue o telefone e ligue para a polcia, em vez de tentar se proteger com um brinquedo de pelcia  ele avisou-a.  Isto no lhe daria qualquer proteo, se eu realmente fosse um intruso.
Aquelas palavras s serviram para deix-la ainda mais irritada.
	Agradeo muito sua lio sobre segurana, sr. Murphy. Mas, diga-me uma coisa: todos os outros vizinhos so to bons em assustar as pessoas, por aqui, ou esta  -uma especialidade sua?
Sem responder, Rafe limitou-se a ficar parado, observando-a. Jenny colocara as mos na cintura e encarava-o, com beligerante exasperao. Os cabelos castanhos caam-lhe pelos ombros, sedosos, e uma mecha cobria-lhe parte da testa. Os olhos azuis" brilhavam, os lbios cheios pareciam ter sido feitos para ser beijados, a pele clara e macia para ser tocada.
Tentando se lembrar de que fora ali com um propsito, um propsito de negcios, alis, Rafe desviou os olhos e examinou o escritrio vazio.
	Pensei ter ouvido algum conversando, quando cheguei  disse.
	Eu estava falando sozinha.
Ele ergueu a sobrancelha, curioso.
	E costuma fazer isto com frequncia?
As vezes. Mas tenho certeza de que voc no veio at aqui para discutir minhas manias pessoais.
No sei.  Por mais que quisesse, Rafe no conseguia afastar os olhos dos lbios dela.  Talvez suas manias sejam interessantes  juntou, num murmrio.
Jenny virou-se, nervosamente. Os olhos dele enviavam-lhe mensagens perturbadoras.
	Agradeo sua preocupao  disse, mas, como pode ver, estou muito bem. Pode ir, agora.
	Ah,  mesmo?  A expresso dele modificou-se, subitamente.  Sabe de uma coisa, senhorita? Ningum me d ordens.
Jenny estreitou os olhos.
	Bem, pelo menos temos algo em comum. Pois ningum me d ordens, tambm, sr. Murphy. Procure lembrar-se disto e, talvez, possamos nos entender.
	Soube que voc andou conversando com minha filha  ele declarou.
	 verdade. H alguma lei contra isto?
	Ela tem apenas cinco anos.
	E   ?
	Magoa-se com facilidade.
Ela suspirou.
	Voc veio aqui, s duas horas da manh, para me dizer que no quer que sua filha seja magoada?
	No. Vim lhe fazer uma proposta.
	Que tipo de proposta?  Jenny indagou, alerta.
Rafe emitiu um risinho irnico.
	Puxa, que mocinha desconfiada voc   disse.
Jenny endireitou os ombros e tornou a encar-lo de frente.
	Acho que precisa saber outra coisa a meu respeito, sr. Murphy, no gosto que me chamem de "mocinha".
Ele riu.
	Mas voc  mesmo esnobe, no ? Este tom gelado de voz, este ar de realeza...
	Ar de realeza?  Ela no pde evitar um sorriso, diante do absurdo daquela descrio.  Desde quando cala jeans e camisa de flanela podem ser considerados trajes reais?
	Bem, depende de quem est usando...  Rafe retrucou. Podia adivinhar as curvas que se escondiam sob a camisa larga, mas a maneira como o jeans cobria-lhe as pernas o deixava definitivamente perturbado. E a voz dela, uma combinao de fogo e gelo, tambm lhe provocava o mesmo efeito. Porm, era uma pena que fosse to temperamental e agressiva, pois ele preferia mulheres discretas, que falavam baixinho... como Susan havia sido. A lembrana da esposa morta fez surgir uma pontada de dor em seu peito.
Susan morrera quatro anos atrs. Rafe queria acreditar que j superara a dor e que acostumara-se com a ideia de sua morte, que acontecera aps uma longa luta contra um cncer. E, em alguns dias isto era mais fcil do que em outros. Percebendo a sombra de tristeza que surgiu nos olhos dele, Jenny indagou, suavemente:
	H algo errado?
Diante da pergunta, uma parede invisvel ergueu-se novamente, ocultando-lhe todas as emoes. Ou melhor, quase todas, pois havia uma impacincia evidente, quando ele faiou:
	Sim, h algo errado. Voc tem ignorado meus telefonemas. Liguei
vrias vezes, nos ltimos dias, e deixei recados naquela sua mquina infernal. Por que no me ligou de volta?
	Porque ando muito ocupada  ela respondeu.
Na verdade, o pai de Cindy, muito sexy e "popular", a deixava nervosa demais, e por isso evitara falar com ele. E, agora que estavam frente a frente, a sensao de insegurana era ainda maior.
" Est me dizendo que no teve um minuto para pegar no telefone?  ele indagou, com um ligeiro sorriso de incredulidade.  Eu liguei para lhe falar sobre negcios.
	Que tipo de negcios, sr. Murphy?
	Meu nome  Rafe. E quero lhe fazer uma proposta para compra desta sua propriedade. Como j deve ter percebido, o lugar est caindo aos pedaos. O velho Miller nunca preocupou-se com a manuteno da casa, nem do celeiro... Enfim, estou disposto a fazer uma oferta generosa, se estiver interessada em vender.
	Voc deve estar brincando! Eu acabei de me mudar para c, no vou simplesmente mudar de ideia e mudar-me outra vez!
	Ainda no ouviu minha oferta.
	Isto no importa. No estou interessada em vender, seja l qual for sua oferta  ela declarou, com firmeza. Havia tomado a deciso de mudar-se e gastara muito dinheiro com as reformas. At j mandara imprimir os catlogos com o novo endereo!  No tenho inteno de sair daqui. Estou abrindo uma empresa.
	Que tipo de empresa pretende abrir, dentro de um celeiro?
Uma empresa bastante lucrativa  ela respondeu, antes de fazer sua prpria pergunta:  H quanto tempo voc tem o restaurante? A mudana de assunto fez com que ele franzisse a testa.
	Sete anos. Por qu?
Puxa, tanto tempo?  Jenny balanou a cabea.  Fico admirada em saber que conseguiu manter um negcio por sete anos, considerando-se sua atitude anti-social.
Esta  sua maneira de dizer que me acha um sujeito rude?
Acertou em cheio!  ela exclamou, com ironia.
	Bem, talvez voc pense assim por ter vindo de um mundo diferente do meu.
	Voc no tem a menor ideia de que mundo eu vim  Jenny retrucou.  No trocamos mais que uma dzia de palavras, desde que mudei-me para c, no incio do ms. Felizmente, sua filha  mais socivel do que voc.
	O que quer dizer com isso?
	Quero dizer que j sei que voc veio de Chicago; que seu pai  um marinheiro aposentado, vive com voc e o ajuda a cuidar de Cindy. Sei que moram os trs no andar de cima do restaurante... Ah, e seu pai tem uma tatuagem de uma mulher nua, no brao direito.
	Minha filha, a fofoqueira...  ele murmurou, exasperado.  Mas, afinal, como foi que este assunto comeou?
	Eu recusei sua proposta de compra e voc passou a me insultar  Jenny respondeu, num tom gelado.
	Ora, foi voc quem me insultou primeiro!  ele retrucou.
Jenny emitiu um suspiro cansado.
	Escute, Rafe, so duas horas da manh. No quero continuar esta discusso intil. Tive um dia longo e cansativo.
	Eu tambm.
	Pois  mais uma coisa que temos em comum. Ambos temos nosso prprio negcio e trabalhamos duro.
	Voc ainda no me disse qual  seu ramo de negcios  Rafe lembrou.
	Ursinhos de pelcia.

	O qu? Est brincando comigo, no ?
Jenny balanou a cabea.
	 claro que no.

	Cindy comentou que voc tinha muitos ursinhos de pelcia, mas... como consegue ganhar a vida com isto?
	Eu j lhe disse:  um negcio bastante lucrativo  ela respondeu.
	No posso acreditar que est se recusando a vender esta propriedade porque pretende abrir uma empresa e fabricar algo to...
	Acho melhor voc pensar, antes de insultar-me novamente  Jenny interrompeu, estreitando os olhos numa expresso de ameaa. Voc realmente faz coisas como isto aqui?  Rafe indagou, apontando o urso com que ela quase o atacara.
	No, este  um produto comercial, feito numa fbrica de brinquedos. Aqueles so os meus.  Apontou para o grupo de ursinhos reunidos em sua mesa de trabalho.
Enquanto Rafe aproximava-se, ocorreu  Jenny que estar sozinha com ele, naquele celeiro vazio, no fora a melhor ideia que j tivera. Rafe era um homem rude e sensual demais, para seu gosto.
	Cuidado com o que vai dizer  avisou-o, percebendo o desprezo com que ele examinava seu trabalho.  No pense que vou ficar quieta, se tornar a ofender-me.
	Eles at que so bonitinhos  ele comentou, afinal.
	Ora, obrigada  Jenny ironizou.
Rafe virou-se e encarou-a.
	Ento pretende mesmo continuar aqui e fabricar ursinhos de pelcia  constatou.
	Exatamente.
	Neste celeiro?
	Exatamente  ela repetiu. Fez um gesto com a mo, mostrando o piso coberto de poeira e as paredes descascadas.  Pode no parecer muito, agora, mas quando a reforma estiver terminada, ficar irreconhecvel.
	E por que escolheu este lugar?
	Tem todo o espao que necessito, com o preo que pude pagar.
	Mas existem muitos outros lugares, melhores do que este, que voc poder pagar, se aceitar minha oferta. Como j lhe disse, dinheiro no ser problema. Estou disposto a oferecer-lhe o dobro do que voc pagou por esta propriedade.
	Por que est insistindo tanto?  Jenny indagou.  Qual  o seu interesse neste terreno?
	Planejo aumentar meu restaurante  ele respondeu.
Jenny s vira a manso em estilo vitoriano, que Rafe transformara em restaurante, pelo lado de fora, mas ouvira dizer que a comida que serviam era deliciosa. Obviamente, o lugar tornara-sc famoso e bem-sucedido, e a expanso dos negcios seria uma decorrncia natural.
	E o que o est impedindo?  perguntou.
	Voc  ele afirmou, sem rodeios.  Eu teria de construir uma nova ala na direo de sua propriedade, pois no h espao, nos outros trs lados da minha casa.
	Ento, por que no comprou-a logo que foi posta  venda?
	Eu bem que tentei. Na verdade, o velho Miller e eu tnhamos um acordo. At que voc apareceu.
	Voc chegou a assinar algum tipo de contrato, com ele?  Jenny quis saber, surpresa com aquela novidade.
	No  Rafe admitiu.  Mas estvamos prestes a concluir o negcio, quando voc se interessou pelo lugar.
	E eu prometi ao sr. Millcr que no derrubaria o celeiro, que pertenceu  famlia dele por vrias geraes. Com isto em mente, ele decidiu vender-me a propriedade, o que, diga-se de passagem, tinha todo o direito de fazer.
	Por que quer ficar aqui?  Rafe persistiu, sem esconder a irritao.
	Sua empresa pode ser instalada em qualquer lugar.
	Gosto daqui  ela disse, simplesmente.
A resposta pareceu deix-lo mais furioso.
	Esta no c uma explicao lgica!  exclamou.

	Pois para mim, .  Jenny encolheu os ombros, incapaz de resistir a uma pontinha de satisfao por t-lo irritado tanto quanto ele a irritara.
	Ento, no vai vender.
	E o que estou dizendo, nos ltimos quinze minutos. No vou vender.  Ela encarou-o e, percebendo sua expresso frustrada, juntou, num tom mais ameno:  Por que no aumenta seu restaurante nos fundos?
	No h espao suficiente para o salo de festas que quero acrescentar  ele respondeu.
	Sinto muito.
	No precisa sentir  ele retrucou.  Creio que nossa conversa ainda no est encerrada. Voc pode mudar de ideia, talvez acabe concluindo que no gosta tanto daqui quanto imaginava.
	Est enganado, sr. Murphy. Pensei muito, antes de vir para c. No vou mudar de ideia.
	Ser que pensou to bem como quando decidiu atacar-me com aquele brinquedo de pelcia?  ele ironizou.  Dirigir uma empresa exige um pouco mais de clareza de ideias e esperteza do que voc demonstrou. Talvez no tenha tanto sucesso quanto pensa.
	J chega, sr. Murphy!  Jenny explodiu, farta daquela discusso. 	E muito tarde, acho melhor o senhor ir embora.
Rafe fitou-a em silncio, por um instante. Jenny o enfrentava, pousando as mos na cintura novamente, chamando-lhe a ateno para as curvas suaves de seu corpo. Sorriu para si mesmo, ento, concluindo que sempre havia mais de uma maneira para fazer-com que uma mulher mudasse de ideia.
	Se j terminou o que estava fazendo, posso acompanh-la at a casa  sugeriu, num tom mais suave.
	Obrigada, mas no  necessrio.
	Sim, eu sei. S estava tentando ser gentil. Voc deveria aproveitar, pois  uma atitude rara, para mim.
Bem, neste caso...  Jenny pegou alguns ursinhos e entregou-os a ele.  Voc pode me ajudar a lev-los para casa.
	E por que no os deixa aqui?
	Porque...  Ela sorriu, diante da viso cmica que era Rafe, alto, rude e forte, segurando um punhado de ursinhos de pelcia como se fossem explosivos perigosos.  No quero que fiquem sozinhos respondeu.  Eles tm medo do escuro.
	Ah, sim,  claro. Voc fala exatamente como Cindy.
	Ela se parece muito com voc.
	No,  mais parecida com a me  disse Rafe.
	Sinto muito, sobre sua esposa...  Jenny falou baixinho, sem saber como expressar suas condolncias.
Porm, Rafe manteve-se calado, e tal atitude alertou-a a no prosseguir com o assunto.
Saram do celeiro em silncio, mas quando Jenny acabou de trancar a porta, um rudo prximo a fez virar-sc, assustada.
	O que foi isto?  perguntou.
Segundos depois, a pequena famlia de quatis surgiu da escurido, com os trs filhotes seguindo de perto a me e o pai. Ela sorriu, aliviada.
	Olhe, so os quatis  disse.  Eles no so bonitinhos?
	No. So um aborrecimento, isto sim.  Rafe lanou-lhe um olhar reprovador.  Espero que no esteja alimentando-os.
	Por que no?
	Porque so animais silvestres, e precisam acostumar-se a procurar pelo prprio alimento.
	Ora, todo mundo precisa de uma ajudazinha, de vez em quando  Jenny retrucou, em voz baixa.  At mesmo os quatis.
Estavam nos fundos da casa, agora, e Rafe franziu a testa ao reparar no estado precrio dos degraus de madeira que levavam  porta da cozinha.
	Voc deveria mandar consertar isto aqui  disse.   um milagre que ainda no tenha se acidentado.
	Isto seria uma boa desculpa para voc me convencer a vender a propriedade, no ?  Jenny sequer soube por que falou com tanta agressividade.
Porm, ele no retrucou. Passou os ursinhos de pelcia para ela, com tal descuido que a fez gritar:
	Ei, cuidado com isto!
	Se ficar aqui mais um minuto, voc  quem ter de ter cuidado  ele falou, por entre os dentes.  Minha pacincia j se esgotou!
	No me diga...  ela disse, baixinho, num tom de sarcasmo.
	Pense em minha oferta  Rafe ordenou.  E mande consertar estes degraus.
No instante seguinte, afastou-se, desaparecendo na escurido com a agilidade e rapidez de um animal acostumado a andar livremente, pela noite.
Captulo II

 Jenny no dormiu bem, naquela noite, e acordou na manh seguinte com a vaga lembrana de um sonho envolvendo um lobo... Um lobo com os olhos e o sorriso sarcstico de Rafe Murphy. Pegou-se cantando "Quem tem medo do lobo mau?", enquanto tomava banho e vestia um conjunto de tric de saia e suter azul claro.
	Preciso comear a dormir mais cedo  disse ao reflexo no espelho, quando aplicava uma maquagem leve.  Falar com ursinhos de pelcia  normal, mas sonhar com Rafe Murphy no . Portanto, no comece a imaginar coisas. Sabe que no tem sorte com os homens e, alem disso, h muito trabalho a fazer. Concentre-se no principal e no procure problemas.
Depois de completar a auto-reprovao, e a maquiagem, foi para a cozinha, esfregando os braos para aquecer-se. Havia esfriado bastante, durante a noite, e parecia que o outono chegara definitivamente. Decidiu comer um prato de mingau quente, o incio perfeito para um dia frio de outubro, como aquele.
Enquanto esperava a aveia cozinhar, em seu fogo velho e temperamental, o telefone tocou. Atendeu na extenso da cozinha.
	Al?
	V embora  uma voz masculina, abafada, falou no outro lado da linha.
	Voc deve ter ligado para o nmero errado  Jenny disse, antes de desligar.
S podia ser algum adolescente desocupado, pensou. Rafe talvez estivesse interessado em sua propriedade, porm era um membro respeitado da comunidade de North Dunway e no lanaria mo daquele tipo de expediente para assust-la. Seria mais provvel que se confrontasse diretamente com ela e tentasse dissuadi-la. Mesmo sem perspectiva de xito.
Afastando o telefonema da mente, Jenny passou as pontas dos dedos pela suave textura do suter de l. Era um de seus preferidos, no apenas pela cor, mas tambm pela suavidade do material com que fora confeccionado.
Ela sempre fora uma pessoa ttil, e desde criana gostava de sentir entre os dedos os mais diversos tipos de material, como a seda. o veludo, a camura. Aprendera a costurar com a av, uma costureira maravilhosa, e desde muito jovem ela prpria confeccionava as prprias roupas.
Este prazer pelas texturas tambm se rcfletia na escolha dos materiais com que fazia seus ursinhos. Enquanto tomava o caf, passou a examinar uma amostra de materiais que acabara de receber: tecidos importados macios e felpudos.
Estava servindo-se de uma segunda xcara de caf, quando ouviu batidas na porta dos fundos.
	Este cheirinho delicioso  real ou imaginrio?  sua assistente e amiga, Miriam Weiss, perguntou, enquanto entrava.
	 real. Sirva-se  vontade  Jenny respondeu, sorrindo.
Fora por causa de Miriam que ela acabara mudando-se para New Hampshire. As duas haviam se conhecido em Nova York, numa conveno de colecionadores de ursinhos de pelcia, cerca de... cinco anos atis!, Jenny pensou, surpresa ao perceber como o tempo passara depressa. Haviam se tornado amigas quase que instantaneamente, e tal amizade s fazia crescer, com o decorrer dos anos. O gnio de Miriam, direto e bem-humorado, era o complemento perfeito para a natureza mais reservada de Jenny.
Quando ela e o marido, Max, mudaram-se para North Dunway, no ano anterior, Miriam comeou a campanha para convencer Jenny a deixar o pequeno apartamento de Connecticut e juntar-se a eles. Falava tanto das possibilidades do lugar, da tranquilidade de viver to perto do campo e das montanhas, que Jenny decidiu lhe fazer uma visita, e acabou apaixonando-se pela cidade. Depois de uma semana, investiu todo seu dinheiro na compra da casa e, o resto, como se diz, era histria.
	Estou vendo que os pedreiros esto dando duro no celeiro  Miriam falou, servindo-se de caf.
	 mesmo?  Jenny ergueu a cabea, surpresa. No vira nenhum dos pedreiros, naquela manh.
	Ora, eu estava sendo sarcstica  Miriam retrucou.  So nove horas e no h sequer um pedreiro  vista.
	O sr. Gardner me garantiu que mandaria sua melhor equipe de trabalho um pouco mais tarde, hoje.
	eles chegam um pouco mais tarde todos os dias  Miriam resmungou.  Este  o problema.
	Ele disse que est atrasado com a construo de...
	Ele est sempre atrasado, Jenny  Miriam interrompeu.  Eu j lhe disse, voc precisa ser mais dura com este sr. Gardner. Ele est abusando de sua boa-vontade.
	Est bem  Jenny suspirou.  Se os pedreiros no chegarem at as dez horas, vou ligar para o sr. Gardner e lhe dizer umas boas verdades. O que acha?
	timo.  assim que se faz.
Levando a xcara de caf consigo, Jenny dirigiu-se para a sala de jantar, que fora temporariamente transformada em escritrio. Haviam dois computadores, uma copiadora, uma mquina de fax e algumas caixas com materiais. Decidira trabalhar ali at que o interior do celeiro estivesse totalmente terminado, e, mais do que isto, a fim de evitar receber visitas inesperadas de vizinhos atraentes, depois da meia-noite.
	Voc conseguiu localizar aquela entrega de material?  ela perguntou  Miriam.
	O fornecedor afirma que enviou a encomenda h duas semanas  Miriam respondeu.  Como no sabe o que houve, disse que mandar uma nova remessa, imediatamente.
	timo. No podemos comear a produzir sem aquele material. E quanto  documentao das novas contratadas? Voc est providenciando?
Miriam assentiu.
	Est tudo cm ordem.
	Perfeito.
Com a contratao de cinco costureiras, Jenny cm breve seria uma orgulhosa empresria, com seis funcionrias sob seu comando. Porm, apenas trs estariam trabalhando no celeiro, que seria transformado em estdio. As outras duas eram jovens mes, com crianas pequenas, que se encarregariam das costuras cm suas casas. A prpria me de Jenny fizera aquele tipo de trabalho, quando fora forada a sustentar a pequena famlia, e ela se sentia feliz em poder proporcionar o mesmo a outras mulheres, agora.
E aquelas encomendas que...  Jenny comeou, mas foi interrompida pelas batidas na porta da frente.
Est esperando algum?  Miriam indagou.
Ela balanou a cabea.
	Talvez seja o entregador, com as encomendas que desapareceram  sugeriu.
	No  o entregador  disse Miriam, inclinando-se na cadeira o suficiente para espiar pela janela.  A no ser que ele tenha encolhido, desde a ltima vez que o vi.
Jenny abriu a porta e deparou com Cindy, que trazia nos braos um ursinho de pelcia todo estropiado.
	Bruiser precisa de conserto  a menina falou, ofegante.  O recheio dele est saindo para fora.
	, estou vendo  disse Jenny.
	O vov ia jog-lo no lixo, mas eu o salvei. Ser que voc consegue consert-lo?
	Bem, acho que posso tentar.
	Puxa, que bom.  Segurando o ursinho cuidadosamente com uma das mos, Cindy colocou a outra no bolso da cala jeans e retirou um punhado de moedas.  Este  todo o dinheiro que tenho, agora disse.  E o bastante para o conserto de Bruiser?
	No vou lhe cobrar nada por isso, Cindy  Jenny falou, com um sorriso, cobrindo a mozinha da menina com a sua.  Pode guardar seu dinheiro.
	Quem 6 que temos aqui?  Miriam perguntou, juntando-se a Jenny na soleira da porta.
	Bruiser  a garotinha respondeu.  E eu sou Cindy.

	Este ursinho  seu?  Miriam indagou.
Cindy balanou a cabea.
	Era de papai, uns cem anos atrs... quando ele era beb.

	Cem anos atrs? Ouvi o que voc disse, mocinha  Rafe resmungou, aproximando-se da filha.  O que est fazendo aqui, incomodando a srta. Benjamim to cedo? Acho que lhe disse para ficar em casa.
	Eu sei, papai. Mas isto foi antes do vov encontrar o Bruiser na caixa do sto. Ele estava procurando o "niforme".
	O qu?  Rafe perguntou, confuso.
	O "niforme" que ele usava nos navios  a menina explicou.
	Ah, o uniforme  Rafe finalmente traduziu.
Cindy fez que sim.
	Isso mesmo. Mas ele no conseguiu encontrar. S achou o Bruiser. E ia jog-lo fora, s porque o recheio dele est saindo. O Bruiser me pediu para ajud-lo, ento eu o trouxe para Jenny consertar.
	Srta. Benjamim  Rafe corrigiu-a.
	Eu disse  Cindy para me chamar pelo primeiro nome  Jenny intercedeu.
	E o meu pai pode cham-la de Jenny, tambm?  Cindy quis saber.
	Creio que sim.
	Ento voc o chama de Rafe  a menina declarou. Inclinando-se um pouco para frente, confidenciou:  Este  o nome dele, sabia?
Houve um instante de silncio, enquanto Jenny olhava para Rafe, que usava jeans e um suter grosso. Ela percebeu que seus cabelos estavam midos e penteados para trs, como se ele tivesse acabado de sair do banho. Como resultado, as faces angulosas ficavam mais evidentes, com a sombra escura da barba por fazer.
Como se pudesse ler seus pensamentos, Rafe passou a mo pelo rosto.
	Desculpe minha aparncia  disse.  Cindy desapareceu antes que eu tivesse chance de me barbear.  Virando-se para a filha, juntou:
 Voc desobedeceu minhas ordens, mocinha.
	Mas foi s porque Bruiser estava precisando de uma cirurgia de emergncia  Cindy respondeu, enftica.  Eu no queria que ele morresse, como a mame morreu.
Jenny viu um lampejo de dor atravessar a expresso de Rafe. Embora ele se apressasse em disfarar, ficara claro que as palavras da menina tocaram uma ferida profunda.
	Fiz alguma coisa errada, papai?  Cindy prosseguiu, diante de seu silncio.  Voc est bravo comigo?
Ele abaixou-se e abraou-a.
	No, no estou bravo por voc ter tentado salvar Bruiser. Mas no devia ter me desobedecido, quando lhe disse para ficar em casa. E no deveria ter vindo incomodar Jenny.
	Ela no estava me incomodando  Jenny assegurou-lhe.  Miriam e eu estvamos apenas nos preparando para iniciar o trabalho.
	Onde voc trabalha?  Cindy indagou, com a curiosidade natural de seus cinco anos.
	Por enquanto, na sala de jantar  Jenny respondeu.  Mas vamos nos mudar para o celeiro, assim que estiver pronto.
	Para fazer ursinhos de pelcia, no ?  Cindy perguntou.

	Isso mesmo  Jenny confirmou.
A menina virou-se para Rafe.
	Jenny faz ursinhos de pelcia, papai.
	Sim, foi o que ela me disse, ontem  noite  ele respondeu.
	Voc e papai tiveram um encontro, ontem  noite?  A voz de Cindy continha um misto de surpresa e alegria, enquanto olhava de Jenny para o pai.
	No, no tivemos um encontro  Jenny apressou-se em dizer, reparando no olhar de curiosidade que Miriam lhe enviava. Conhecendo a amiga, sabia que ela iria exigir-lhe explicaes, mais tarde.
	Por que no?  Cindy insistiu.
	Porque...  Jenny deixou a frase no ar, sem saber o que dizer.
	Sim?  Rafe prontificou-a, parecendo divertir-se com o dilema em que ela se encontrava.
Jenny lanou-lhe um olhar irritado.
	Voc diz a ela  desafiou-o.
	Bem, ns ainda no tivemos um encontro  ele falou, ento. Mas teremos, em breve. 
	Que bom!  Cindy sorriu, aprovando.  Eu gosto muito de Jenny, papai. E voc?
	Tambm gosto, benzinho.

	Ento, quando vocs vo sair juntos?  a menina perguntou.
Rafe dirigiu a pergunta da filha dirctamente para Jenny:
	Quando vamos sair juntos?
	Talvez no ano 2000  ela resmungou.

	Ah, mas vai demorar muito. J vou estar velha, no ano 2000  Cindy retrucou.  Voc e papai, ento, j estaro antigos!
	Ora, muito obrigado!  Rafe exclamou, fingindo-se ofendido, mas rindo divertido. Trocou um rpido olhar com Jenny e, percebendo um instante de fraqueza, no sorriso estampado em seu rosto, aproveitou a oportunidade:  O que acha de fazer um piquenique, comigo e com Cindy, na segunda-feira? O restaurante estar fechado e Cindy no ter aula, pois  dia de reunio de professores. Podemos fazer um passeio at o Monte Washington. O que me diz?
Jenny deveria ter dito no, firme e educadamente. E era o que pretendia, at ver o brilho de ansiosa expectativa nos olhinhos de Cindy. Segunda-feira seria um dia de trabalho, para ela. mas ultimamente vinha trabalhando  noite c nos fins de semana, e talvez pudesse dar-se ao luxo de uma tarde de folga.
Cindy comeou a ficar impaciente com a demora de Jenny em responder, e puxou-lhe a mo, chamando sua ateno.
	Voc no gosta do meu pai, Jenny?  perguntou.
Que outra coisa ela poderia dizer, seno:
	 claro que sim...
	timo  Rafe tirou vantagem de sua hesitao, dizendo rapidamente:  Ento ns viremos busc-la s onze e meia, na segunda-feira. No se preocupe com a comida, fica por nossa conta. Vamos, garota, est na hora de ir para casa. At l, Jenny.
Cindy mal teve tempo de passar Bruise para as mos de Jenny, antes de ser levada pelo pai. Parada na porta, Jenny pensava em como acabara concordando com o passeio, at concluir que no havia concordado, mas que, tambm, no impedira Rafe de chegar at onde ele pretendia.
	Ento, quem era o "mascarado"?  Miriam perguntou, com um sorriso maroto.
	Meu vizinho.  Jenny fechou a porta e, com todo cuidado, deixou Bruise sobre o aparador do vestbulo.
	Que pena que no existam vizinhos assim, l no meu bairro  Miriam comentou, com um suspiro.
	No deixe que Max a oua falando estas coisas  Jenny avisou-a, referindo-se ao marido de Miriam.
	Ora, eu sou uma mulher casada h quase trinta anos e muito feliz, mas no estou morta  a amiga brincou.  E s estando morta para no reparar num homem como aquele...
	Miriam...
	Admita, Jenny, ele  muito atraente. E  capaz de preencher um par de jeans com perfeio. E o rosto, anguloso, com a sombra escura da barba...? D uma impresso de... selvageria, no acha?
	No comece a ter ideias, Miriam. Para mini, Rafe  apenas o pai de Cindy.
	H quanto tempo ele perdeu a esposa?
	Ela morreu quando Cindy era beb.
	Pobre homem.  O olhar de compaixo de Miriam logo foi substitudo por um de especulao.  Ento o seu vizinho  um atraente vivo, com uma filha pequena. Vejo grandes possibilidades, aqui.

	Ele s est interessado em minha propriedade  Jenny afirmou.
Miriam piscou, confusa.
	O que est dizendo?

	Voc ouviu muito bem. Ele apareceu aqui, ontem  noite, fazendo uma oferta para comprar o meu terreno, para que possa expandir o restaurante. 
	E o que voc respondeu?
	Que no estava interessada.
	Bem, ele parece interessado. Em voc.
	Pois aposto que isto  apenas uma manobra para tentar me convencer a vender-lhe as terras  Jenny retrucou.
	Se  o que pensa, ento por que concordou em acompanh-lo ao piquenique?
Jenny encolheu os ombros, desconfortvel.
	Eu no concordei, exatainentc  disse.
	Mas tambm no recusou.
	No quis deixar Cindy magoada.
	Humm... Uma atitude muito nobre  Miriam ironizou.
	Estava tentando ser gentil  Jenny insistiu.
	 claro. Voc c uma pessoa muito gentil, Jenny. E nobre, tambm.
	Ora, pare com isso.  Jenny balanou a cabea, sorrindo para a amiga.  Vamos voltar ao trabalho.
A segunda-feira chegou depressa demais, ao menos para Jenny. Durante todo o fim de semana, estivera tentada a ligar para o restaurante de Rafe e deixar um recado, cancelando o passeio. Porm, quando lembrava-se do brilho nos olhos de Cindy, acabava desistindo. No tinha coragem de desapontar a menina.
Seria apenas por uma tarde, dizia a si mesma, tentando se convencer. Que mal haveria nisto? Alm do mais, bem que estava precisando de um descanso. Passara o fim de semana criando novos modelos, desenhando um novo Ursinho Bambino, e tambm iniciara o conserto em Bruiser, o ursinho de Rafe.
Enquanto costurava uma das orelhas de Bruiser. naquela manh, tentou imaginar que tipo de criana Rafe teria sido. Cheio de energia, sem dvida. Teria nascido com aquela aura de auto-confiana que carregava at hoje? Teria crescido em companhia de irmos e irms? Ou seria filho nico, como cia?
Mas no devia estar to curiosa a respeito daquele vizinho atraente, recriminou-se. Quase esperara que o dia amanhecesse chuvoso, o que tornaria o piquenique impossvel, mas o cu estava claro e o sol brilhava, radiante.
Por volta das dez e meia, achou melhor parar com o trabalho e tratar de vestir-se para o passeio. Ficou um longo tempo parada diante do armrio, em dvida, at decidir-se por calas compridas pretas e um suter de gola alta, de l salpicada cm tons de azul e preto, que lhe caa solto, cobrindo-lhe os quadris. Calou um confortvel par de botas pretas, completando o traje.
Depois de vrias tentativas de fazer alguma coisa diferente com os cabelos, desde prende-los com uma fivela, at um rabo-de-cavalo, terminou puxando-os para trs, impedindo que lhe cassem pela testa com uma tiara de couro preto.
Ficou pronta na hora marcada. Porm, j passavam das onze e meia, e nada de Rafe e Cindy aparecerem.
Tentou convencer-se de que estava aliviada. Talvez o atraso significasse que o passeio seria cancelado. Mesmo assim, olhava no relgio a cada dois minutos e, precisamente s onze e quarenta e cinco, a campainha tocou.
	Desculpe-nos pelo atraso  Rafe foi logo dizendo.
	Foi por causa da Botinha  Cindy explicou.
	Botinha?  Jenny repetiu, baixando os olhos para os ps da menina e reparando que ela usava um par de tnis, juntamente com a cala jeans e o suter de l.
	Botinha  o nome da gata de Cindy  Rafe esclareceu.  Ela sumiu, hoje cedo.
	Mas ns a encontramos  a menina completou.  Ela  muito boa em brincar de esconde-esconde.
	Boa demais, at  Rafe opinou, secamente.
	Fiquei com medo de que ela tivesse fugido, mas estava dormindo atrs das cortinas. Voc pode ir l em casa conhec-la, Jenny. Ela no gosta de vir para fora. Dentro de casa  mais qentinho.
	Sim, ela sabe o que  bom  Rafe acrescentou. Virou-se para Jenny e perguntou:  Podemos ir? Voc est pronta?
Ela assentiu. No ficou surpresa ao descobrir que ele possua um jipe, o tipo de veculo que combinava perfeitamente com seu estilo. Porm, o que realmente a surpreendeu foi o sbito calor que a invadiu, quando ele a tocou, ajudando-a a subir no jipe. Um arrepio passou-lhe pela espinha, at a nuca, quando as mos dele seguraram as suas, por uma frao de segundo.
Acomodando-se no assento, evitou seu olhar, temendo que ele pudesse perceber a perturbao que a assaltara. Rafe sentou-se atrs do volante e, depois de certificar-se de que Cindy colocara o cinto de segurana, ligou o motor.
	Como vai Bruiser?  a menina perguntou.  J est pronto?
	Quase. Talvez possa voltar para casa amanh.  Jenny virou-se para Rafe.  Voc teve sorte por Cindy ter salvo o ursinho do lixo  disse.
	Por qu?
	Aquele  um ursinho Steiff ela respondeu.
	Ser que pode repetir?  Rafe pediu, confuso.
	 um ursinho Steijf, h uma etiqueta na orelha dele, para provar.
	E o que isto quer dizer? Quando eu era criana, meu pai dizia que a etiqueta era a identificao de Bruiser. Ele comprou-o quando estava num porto da Alemanha.
	Ento eu estava certa. Os ursinhos Steiff realmente foram feitos na Alemanha. Depois que ele estiver devidamente consertado, voc deve guard-lo com cuidado.
	Est tentando me dizer que aquele ursinho de pelcia tem algum valor?
	Tem muito valor  Jenny respondeu, enftica.  No apenas monetrio, embora esta seja a preocupao principal das pessoas, hoje em dia. Voc j deve ter ouvido aquela frase de Oscar Wilde: "Atualmente as pessoas sabem o preo de tudo, e o valor de nada".
	E, exatamente, qual seria o valor monetrio a que voc est se referindo?  Rafe quis saber.
	Alguns dos primeiros ursinhos Steiff chegam a valer cerca de sete mil dlares, em leiles de colecionadores  ela respondeu.
Rafe assoviou.
	Mas estes devem estar em perfeito estado, naturalmente, e ser mais antigos do que o seu  Jenny acrescentou.
	De acordo com Cindy,  difcil encontrar algum mais antigo do que eu ou Bruiser  ele brincou. Porm, no fundo, ressentia-se da de monstrao de cultura geral que Jenny, mesmo involuntariamente, lhe fazia.
Era bvio que ela havia estudado, pensou, talvez tivesse at cursado uma faculdade. Uma vida bem diferente da dele que, embora tivesse feito alguns cursos de comrcio na escola tcnica local, nunca chegara a terminar o segundo grau. Porm, nunca tivera tempo ou dinheiro suficientes para continuar os estudos e, mesmo se tivesse conseguido uma bolsa, a verdade era que se sentia inquieto, quando fechado numa sala de aula.
Rafe achava que aprendera muito mais nos dois anos em que viajara pelo mundo, do que em qualquer livro. Depois, quando retornara, comeara a batalhar a fim de juntar dinheiro para abrir seu restaurante. Fora garom num navio de cruzeiro na Flrida, gerente de um restaurante em Nova York, at conseguir seu prprio negcio, o objetivo que perseguira desde a adolescncia.
Todos os seus sonhos para o futuro haviam includo Susan, naquela poca. Porm, Susan morrera antes mesmo que Cindy completasse um ano. E seus sonhos desapareceram com ela.
No que a me de Susan, Althea, alguma vez desse crdito a algum de seus sonhos. Na verdade, sua sogra nunca o considerara bom o suficiente para a "filha de ouro", e at hoje o culpava pela morte de Susan, como se ele fosse o responsvel pelo cncer que a consumira. Althea no aprovava nada do que ele fizesse, e jamais aprovaria, principalmente a maneira como estava criando Cindy.
	Papai, quanto falta para chegarmos?  a garotinha interrompeu-lhe os pensamentos.
	Ainda nem tomamos a estrada  ele respondeu.
	Eu sei. Mas quanto falta?
	Por falar nisto  Jenny intercedeu,  eu nem mesmo sei para onde vamos.
	Pensei que podamos subir o Monte Washington primeiro, para abrir o apetite  Rafe explicou.
	Eu gosto de l  Cindy falou, animada.  Fica no topo do mundo! 
Embora Jenny j tivesse ouvido falar das montanhas, no sabia de sua localizao exata.
	 muito longe daqui?  perguntou.
Rafe balanou a cabea, em negativa.
	S um pouco. Sempre me esqueo de que voc no  desta regio.
	Pois achei que estivesse evidente  ela disse.
	Apenas o seu sotaque  diferente  ele comentou.  
	Sou de Connecticut.
	Ah...
	O que isto quer dizer?  Jenny indagou, intrigada.
	Existem muitas famlias ricas, em Connecticut  ele respondeu.
	 verdade. Infelizmente, a minha no estava includa entre elas.
	No?
	Com toda certeza. Meu pai nos abandonou quando eu tinha seis anos, e mame viu-se obrigada a voltar para a casa dos pais e a trabalhar fora, a fim de nos sustentar. Morreu quando eu estava com nove anos, e fui criada pelos meus avs.  Jenny calou-se por um instante, dando-se conta do quanto falara sobre si mesma. No que fizesse segredo de sua infncia, mas no tinha o costume de fazer confidncias a estranhos. E, para ela, Rafe ainda era um estranho, mesmo sendo seu vizinho. Sentindo-se desconfortvel, mudou de assunto:  Fale-me mais sobre o Monte Washington.
	Bem, em primeiro lugar no precisa preocupar-se em fazer esforo fsico. Ns vamos subir com o jipe.
	Mas existe uma estrada, no ?
	E claro que sim.
	Ainda bem.
	Mas, naturalmente, depois de viajar pelas montanhas, voc merece ganhar um adesivo para o carro, dizendo: "Eu subi o Monte Washington e sobrevivi".  Ele riu.  Espero que no tenha medo de altura.
	No sei  Jenny admitiu, encolhendo os ombros.
Ele tornou a sorrir.
	Vamos acabar descobrindo  disse, num tom misterioso.
E Jenny teve a impresso de que ainda faria muitas descobertas, no decorrer daquela tarde.

Captulo III

J houve quem disse que este... . Rafe indicou a vista do topo do Monte Washington com um gesto largo.  ... o maior espetculo da Terra.
Jenny tentou, sem sucesso, concentrar-se na vista das montanhas, e no nas mos fortes e esguias de Rafe. Mos masculinas eram a fraqueza de Jenny, especialmente se fossem bonitas e artsticas como as dele.
Durante a subida pela estrada de cascalho, construda em 1860, ela descobrira que no tinha medo de altura. Fora uma boa descoberta, pois haviam trechos em que no existia nenhuma proteo entre a estrada ngreme e os desfiladeiros, profundos o suficiente para amedrontar pessoas muito mais corajosas do que ela.
Porm, algo que a deixou mais do que ligeiramente apreensiva foi a percepo de uma nova e desconhecida sensualidade, que surgia dentro de si sempre que estava perto de Rafe. Ela no era do tipo que se impressionava facilmente com a presena de um homem... embora tivesse certeza de que nunca antes encontrara um homem to atraente como ele.
	Vista isto  ele disse, entregando-lhe a jaqueta que levara, ao perceber que ela estremecia.  Faz muito frio, aqui em cima, mesmo no vero.
	E este vento  o pior de tudo  Jenny comentou, tremendo, enquanto ele a ajudava a vestir a jaqueta, como se ela no fosse muito mais velha do que sua filha. O olhar que enviou-lhe, no entanto, era definitivamente maduro, forte e exigente.
Jenny realmente sentia-se pequena, dentro da jaqueta enorme, cujas mangas cobriam-lhe as mos. Num gesto espontneo, Rafe afastou-lhe os cabelos que o vento levara ao seu rosto, roando os dedos em sua pele fria e deixando uma trilha de calor ardente.
Ela prendeu o flego por um instante, hipnotizada por aquele toque. Ento, o som do riso infantil de Cindy a levou de volta para a realidade.
Percebendo que sequer prestara ateno  paisagem, Jenny o fez agora, observando-a intensamente, como se fosse passar por um teste, depois. Do ponto onde estavam, bem acima da linha das rvores, haviam apenas rochedos, sem qualquer vegetao que suavizasse as pedras ngremes. Em contraste, as montanhas em torno pareciam suaves ondas azuladas, estendendo-se  distncia como os contornos da espinha dorsal da terra.
	Estar aqui cm cima sempre faz com que eu coloque as coisas em sua devida perspectiva, sabia?  Rafe murmurou, calmamente.  Faz-me perceber que existe um mundo enorme diante de ns, mesmo que nem sempre o sentimos.
Jenny desviou os olhos da paisagem e fixou-os no rosto dele. Sua expresso era quase triste, meditativa... e totalmente fascinante. Haviam profundezas ocultas, naquele homem, mas ela seria tola, se pensasse que pudesse alcan-las sem se machucar. Ele era... intenso. Como um vulco, sempre prestes a explodir.
Dando-se conta de que voltara a divagar, indicou um cartaz, perto de onde estavam, e comentou:
	Bem que eu me queixei do vento. Aqui diz que a maior velocidade do vento j registrada foi neste local, quando atingiu duzentas e trinta e uma milhas por hora. Um recorde mundial.
	Como algum pode medir o vento?  Rafe perguntou, sorrindo. Ora, pode-se sentir as cofcas, mesmo que elas sejam invisveis. 	Como a fora que a impelia para ele, Jenny acrescentou, mentalmente. Invisvel e potente.
	Podemos passear no trem, papai?
Mais uma vez, Jenny foi interrompida por Cindy, e ficou grata por isto. Precisava de tempo para recobrar-se do poder do olhar de Rafe.
	No, meu bem, o trem no est funcionando hoje.
	Eu no fazia ideia de que havia uma estrada de ferro, por aqui 	Jenny observou.
	Foi uma das primeiras a ser construda, no pas  disse Rafe.
	E ainda funciona? Puxa, estou impressionada. No se constrem mais coisas assim, atualmente.
	As coisas raramente duram muito tempo, atualmente  Rafe confirmou, os olhos enevoando-se.
Jenny imaginou se ele estaria pensando na esposa, e no pouco tempo que sua felicidade durara. E, ento, descobriu-se pensando em como seria ser amada por algum como ele.
Perturbada com tais pensamentos, correu em direo da escada de madeira que descia para o estacionamento. No sabia por que, talvez fosse a altitude, talvez um pouco de fome, mas a verdade era que se sentia zonza... muito zonza.
Segurando-a pelo brao, Rafe amparou-a.
	Epa! Cuidado com os degraus.  Jenny apoiou-se nele, que balanou a cabea, sorrindo.  Voc  um pouco desajeitada, quando se trata de escadas, no ?
E em quase tudo, em sua vida, ela pensou, com uma ponta de amarga ironia. Outras mulheres eram "fascinantes". Ela era "desajeitada". Nunca fora o tipo sensual, que excita os homens, levando-os a cometer atos de loucura. Pelo contrrio, representava muito mais a amiga, a simptica "garota da casa ao lado". Ao menos fora esta a opinio sobre si mesma que ouvira, durante toda sua vida, expressada desde seu dentista, at pelo seu ltimo namorado.
No, no era do tipo de chamar a ateno dos homens... E, por isso, sabia que as tentativas de Rafe em interess-la tinham apenas um ob-jetivo: a compra de seu terreno. Toda a ateno que ele lhe dirigia era uma forma de convenc-la a vender. Mas ela no iria cair nesta armadilha.
Recuperando o equilbrio, afastou-se dele.
	No comi nada, de manh  explicou.  Acho que foi por isso que fiquei um pouco tonta. Ns vamos comer aqui mesmo?
	No. Estou pensando num lugajr mais agradvel.
Retornaram  rodovia principal e Rafe parou sob um grupo de rvores, num recanto afastado da estrada. As folhas coloridas de amarelo-avermclhado cobriam o cho, onde ele estendeu uma velha manta xadrez. Jenny respirou fundo, olhando em volta. O outono era a estao do ano de que mais gostava.
Quando Rafe e Cindy sentaram lado a lado, as cabeas unidas enquanto examinavam a grande cesta de vime que haviam levado, Jenny foi atingida pelo quadro que formavam. Sentiu uma pontada no peito, como sempre acontecia quando assistia a uma cena de pai e filha juntos. Porm, j lera livros de psicologia e auto-ajuda o suficiente para saber que tal sensao era causada pela sua prpria experincia de nunca ter tido um pai.
Seu av havia sido um homem distante e um tanto frio, fechado a qualquer tipo de demonstrao de carinho, embora nunca lhe deixasse faltar nada.
Rafe, no entanto, demonstrava ser amoroso com Cindy. O carinho que sentia por ela estava estampado em seu rosto, o amor e orgulho brilhavam em seus olhos. Era evidente que adorava ser pai.
	Ah, papai, olhe aqui! Hugo colocou aquele queijo que eu no gosto!  Cindy torceu o nariz, afastando o rosto.
	Hugo  o chef do meu restaurante  Rafe explicou.  E no acredita que uma refeio esteja completa se no incluir algo da cozinha francesa. Mesmo para um piquenique, ele achou que seria necessrio um queijo Brie, po francs e vinho. Um bom sanduche de rosbife e uma cerveja j teriam me deixado satisfeito.
	E voc j pensou em lhe dizer isto?  Jenny sugeriu.
	Penso nisto o tempo todo, mas sempre me calo a tempo  ele respondeu.  Hugo  um pouco sensvel, entende? E  o melhor chef desta regio. No posso me dar ao luxo de perd-lo.
	Ainda bem que Spud fez a salada de batata  disse Cindy, ainda retirando os pratos da cesta.   a minha comida preferida!
Jenny lembrou-se que a garota j lhe falara sobre Spud, um velho amigo de seu av que servira como cozinheiro na Marinha, e que reunira-se  famlia depois de aposentar-se.
	Spud e Hugo brigam o tempo todo  Cindy continuou dizendo.
 E os rostos deles ficam vermelhos como um tomate!  ela riu, gostosamente.  Spud tambm tem uma tatuagem, mas no  to grande
quanto a de vov.  apenas uma cobra. Eu gosto mais da mulher nua que vov tem no brao, porque s vezes ele brinca de faz-la danar, mexendo o brao deste jeito.  Ergueu o antebrao e fez um movimento, rindo.  Voc devia ver, Jenny!
	Parece muito interessante  ela comentou, sorrindo.
	O que quer dizer isto?  Cindy perguntou.
	Bem, quer dizer algo bom, que nos interessa  Jenny explicou.
	Pois eu acho que voc  interessante  disse a menina, parecendo gostar da nova palavra que aprendera.  Voc no acha, papai?
	Sem dvida.
Porm, Jenny sabia que, se havia algo "interessante" ali, era o efeito que Rafe lhe provocava. Mesmo sentado um pouco distante dela, era capaz de faz-la sentir-se quente, protegida, excitada. E, quando respondeu  pergunta de Cindy, fitou-a dentro dos olhos, de uma maneira como ela nunca fora olhada, antes.
	Voc no est comendo nada, papai. Est sem fome?
	Estou faminto  ele respondeu, sem desviar os olhos dos de Jenny, num tom sedutoramente suave e rouco.
	Pois eu no estou no cardpio  ela sussurrou, como um aviso, para que apenas ele escutasse.
	Nunca pensei que estivesse  ele retrucou.
	No, mas est olhando para mim como se eu fosse sua ltima refeio.
	Voc tem uma imaginao frtil  Rafe tornou.  Deve ser til, para seu tipo de trabalho.
	Posso ter uma imaginao frtil, mas tambm tenho os ps bem plantados no cho. No costumo encantar-me  toa.
	No mesmo? Pois talvez ainda no tenha encontrado o homem certo. Prefere temperado ou normal?
Jenny piscou. Que tipo de pergunta era aquela?
	O qu?
	O rosbife  ele esclareceu.  Prefere temperado ou normal?
	Ah, normal. Eu acho.
	Foi o que pensei. Temos po de forma e po francs.
	Po francs  ela escolheu.
	Ah, muito bem. Hugo ficaria feliz com sua escolha. Quer maionese e mostarda?
	Sim, obrigada. E tomate e alface, tambm.
Depois que o sanduche estava pronto, estendeu a mo para pegar o prato que Rafe lhe entregava.
	O que aconteceu com seu dedo?  ele indagou, franzindo a testa ao perceber uma ferida avermelhada no indicador de Jenny.
	Acidente de trabalho  ela respondeu.  Machuquei com uma agulha, enquanto costurava.
Antes que ela pudesse adivinhar-lhe a inteno, Rafe levou-lhe o dedo at os lbios e beijou-o. A sensao dos lbios dele em sua pele fez com que cada nervo em seu corpo vibrasse.
	Igualzinho  Bela Adormecida  Cindy declarou, com um largo sorriso iluminando-lhe o rosto.  Ela machucou o dedo, tambm, e o Prncipe lhe deu um beijo.
Por um breve instante, Jenny esquecera-se da presena da menina. Retirando a mo rapidamente, reparou que a ponta do dedo parecia latejar, onde ele beijara.
Tinha de se lembrar quais eram as verdadeiras intenes dele, disse a si mesma, o que ele realmente queria. E, certamente, no era ela, e sim sua propriedade. Enquanto tivesse isto em mente, poderia aproveitar o momento de descanso e lazer, recostando-se na rvore e observando as manobras que ele fazia para seduzi-la.
Entretanto, por alguma razo, desconfiava que Rafe no tinha o hbito de usar de expedientes como aquele para atingir seus objetivos. Era direto e impaciente demais, para isto. Porm, era tambm um homem para quem os fins justificam os meios, que sabia o que queria e lutava para consegui-lo.
Assim, quando voltaram para a cidade, no fim da tarde, no ficou surpresa por terem parado primeiro na casa dele, nem com o convite que ele lhe fez para entrar.
	No, obrigada  ela disse.  Pretendo trabalhar um pouco, ainda hoje.
	Tem certeza?
	Tenho, sim.
	Bem, ento vou acompanh-la. Voc vai para dentro, Cindy  falou, virando-se para a menina.  V mostrar ao vov as folhas bonitas que encontrou.
Uma boa manobra, Jenny pensou.
	Voc est sorrindo  ele reparou, passando a ponta do dedo, gentilmente, sobre seus lbios.
Como resultado, um arrepio perpassou-lhe a espinha, de cima a baixo.
	Estou?
Ele assentiu.
	Bem, pelo menos estava. Agora, est parecendo um coelhinho assustado.
	Ora, obrigada.  Jenny franziu a testa, enviando-lhe um olhar  de desprazer.  Algum j lhe disse que voc tem muito jeito com as palavras?  ironizou.
	No. Mas uma garota com fogo nos olhos e um grande urso de pelcia nas mos j me acusou de ser anti-social.
	Voc possui o dom de fazer com que as pessoas ajam da maneira como voc deseja. Como fez com que eu fosse a este piquenique, hoje  ela lembrou-o, enquanto subia as escadas da sua varanda.
	Ora, no foi to ruim assim, foi?
	No. No foi ruim.
	E isto tambm no ser...  Rafe segurou-lhe o rosto com as mos e inclinou-se para beij-la.
Jenny imaginara que aquilo acabaria acontecendo, at calculara que Rafe deixara Cindy em casa, primeiro, precisamente com tal inteno. Estivera preparada, portanto, mas ao sentir os lbios sobre os seus, suaves, sedutores...
Percebeu, de repente, que nunca fora realmente beijada, antes. Pois, se um beijo significa msica para a alma, ela jamais a ouvira... at agora, quando uma melodia celestial ressoava em cada fibra de seu ser.
A sensao era diferente, assustadora. Era isto que transformava homens comuns em poetas... Era incrivelmente sensual e excitante! Era s um beijo, mas...ah, que beijo!
Rafe afastou-se, o suficiente para que ela percebesse o brilho de triunfo nos olhos dele, embora mesclado com uma leve surpresa. E isto foi o bastante para que ela recuperasse a razo, em tempo recorde.
	Voc pode beijar-me quanto quiser, mas no conseguir fazer com que eu mude de ideia quanto  venda das terras  disse, encarando-o.
	Humm... Posso beij-la quanto quiser, no ?  ele murmurou, a respirao quente contra seus lbios.  Pois aceito o desafio.
	No foi um...
O resto da frase perdeu-sc, sob o calor de um novo beijo. Jenny entreabriu os lbios, permitindo que Rafe o aprofundasse, mudando o nvel da seduo. Ele tornara-se mais atrevido, agora, excitando-a com os movimentos da lngua em sua boca e, a cada beijo sucessivo, explorava um novo territrio: os cantos, as curvas e salincias de seus lbios, sempre provocando-a para que correspondesse.
	Ainda no est tentada?  ele perguntou, num murmrio rouco, depois do quinto beijo.
E ela estava, sim, sem dvida. Tentada a beij-lo novamente, e no a vender as terras.
	No  respondeu, ento, com um ar de desafio.  Boa noite, Rafe.
	Pois saiba que eu ainda no desisti  ele avisou-a, antes que Jenny fechasse a porta.
Desistir de qu?, ela perguntou-se. De tentar convenc-la a vender a propriedade, ou de continuar seduzindo-a?
	Ento, como foi o seu encontro com a garota, filho?  perguntou o pai de Rafe, Chuck, assim que ele entrou no apartamento que ocupavam, no andar de cima do restaurante.
	Tudo bem  ele respondeu, brevemente.
	Voc est com o rosto manchado de batom.
	No tenho mais dezessete anos, pai  Rafe retrucou, irritado.
	Sei muito bem que no. Voc tambm  pai, agora, com uma filha que faz mais perguntas do que qualquer outra coisa. Ela andou me questionando sobre de onde vm os bebs, outra vez.
Rafe gemeu, baixinho.
	E o que voc lhe disse?
	Tentei distrai-la, contei uma anedota. Muito boa, por sinal. Sobre aquele sujeito no bar, que... Bem, de qualquer forma, funcionou. Ao menos por enquanto. Mas se ela ver este batom e perceber que voc esteve beijando nossa adorvel vizinha, vai recomear com as perguntas. E, talvez, voc no esteja disposto a responder.
Rafe tinha sua prpria quota de perguntas que no estava disposto a responder. Como, por exemplo, por que beijara Jenny daquela maneira...? Ou, por que ela o deixava to intrigado e inquieto? Por que sentia-se incapaz de resistir ao desafio de seus olhos azuis?
De incio, justificara suas aes com a lembrana de como o velho Miller desistira do acordo que haviam feito, em favor de Jenny. Era evidente que sabia que no bastaria beij-la, para que ela concordasse em vender-lhe a propriedade, mas imaginara que, se a conhecesse um pouco melhor, acabaria encontrando uma maneira de convenc-la. Afinal, ela poderia fazer ursinhos de pelcia em qualquer lugar, enquanto que seu restaurante s poderia ser expandido naquele terreno.
Parecia, entretanto, que Jenny era capaz de ver atravs dele, o que, sem dvida, explicava os sorrisos divertidos que ela lhe enviara, durante toda a tarde.
A verdade era que Jenny despertara algo, em seu ntimo, que Rafe imaginara que havia morrido junto com Susan. No era amor, e nem podia ser, mas ainda assim ele sentia-se estimulado com o desafio e o confronto de vontades e opinies.
	Ela  muito voluntariosa, e mais teimosa do que eu pensava  murmurou, consigo mesmo.
	Quem?  seu pai perguntou.
	Nossa adorvel vizinha.
	Quer dizer que est tendo trabalho em lidar com ela?  Chuck deu uma risadinha.  Bem, seria a primeira vez que voc no consegue logo o que quer. No que algum dia tivesse recebido seus desejos numa bandeja de prata, eu bem sei. Mas criei-o para lutar pelos seus objetivos, e foi o que voc fez. E sempre conseguiu.

	Nem sempre  Rafe lembrou, num tom amargo.  Eu no queria que Susan morresse.
	Eu sei. E voc batalhou muito para que ela tivesse o melhor tratamento possvel, a despeito do que diz aquela maluca da me dela. Por falar nisto, a mulher tornou a ligar, quando voc estava fora.
	E o que voc disse?
	Que voc havia sado com sua filha. Ela tentou me fazer mais uma daquelas prelees, sobre como cuidar de uma criana, mas eu no lhe dei ouvidos.  Chuck fez um gesto brusco com a mo.  Susan s conseguiu ser a pessoa maravilhosa que era porque foi criada por uma bab, e no por aquela bruxa.
- Concordo plenamente.
	Porm, por mais maravilhosa que fosse, Susan no est mais conosco. J faz quatro anos que se foi, e  hora de voc prosseguir com sua vida, filho. Foi por isso que fiquei to contente por voc ter sado com aquela jovem. Quem sabe encontrou algum que possa...  Chuck calou-se, diante do olhar grave que Rafe lhe enviou.
	A morte de Susan quase me destruiu, pai  ele disse.  No vou arriscar-me novamente.
	Mas as chances de voc perder outra mulher que amar so...
	Voc no entende  Rafe interrompeu-o.  No haver outra mulher, nunca. No pode haver. Este assunto est encerrado.
	Mas onde foram parar aqueles desenhos?  Jenny murmurava, enquanto vasculhava a mesa pela terceira vez.
Sentindo-se nervosa e inquieta, depois dos beijos que trocara com Rafe, decidira canalizar suas energias para o trabalho. Porem, quando sentou-se  mesa de desenho, percebeu que os esboos que fizera de manh, e que deixara empilhados ali, estavam com a ordem trocada, e alguns haviam desaparecido.
	No podem ter criado pernas e sumido sozinhos  resmungou.
A busca foi interrompida pelo som do telefone. E a voz refictia toda sua impacincia, quando atendeu. ,   V embora  a voz abafada de um homem falou.
	Arrume o que fazer!  ela disparou, em troca, antes de desligar com fora.  Adolescentes estpidos  murmurou, voltando para a mesa.  No posso acreditar que perdi aqueles papis. Devem estar em algum lugar!
Mas no estavam. Jenny procurou por toda a sala de jantar, onde o escritrio estava temporariamente montado, antes de passar para os outros cmodos do andar de baixo. E, desde que ainda no desempacotara todos os seus pertences, e tinha pouca moblia, a busca no demorou muito tempo.
Em seguida, foi para o andar de cima e procurou em seu quarto-, imaginando que os levara consigo sem perceber. Mas no havia nem sinal dos desenhos que fizera do novo Ursinho Bambino.
Na maioria das vezes, Jenny trabalhava diretamente com o material, executando os modelos de ursinhos como se fossem esculturas,  medida que os criava. Mas, outras vezes, fazia esboos de suas ideias, desenhando at encontrar a forma desejada, antes de iniciar a confeco.
Felizmente os desenhos que desapareceram no tinham muita importncia, pois ela j idealizara um outro prottipo para o Ursinho Bambino. Mesmo assim, era desconcertante o fato de algo ter sumido, de maneira to inexplicvel.
Quase to desconcertante quanto os beijos de Rafe, pensou, de repente. Ela nunca imaginara que um beijo pudesse deix-la to perturbada, tremendo at a alma.
Talvez fossem os hormnios, ou a lua cheia. Tentou encontrar uma desculpa, qualquer coisa que explicasse sua reao. Afinal, Rafe no fora o primeiro homem que a beijara... mas fora o primeiro a atingir todos os seus sentidos, deixando-a fora de si. Os outros, em comparao, haviam sido... plidos, fugazes. Em contraste, a sensao dos lbios de Rafe permanecia nos seus, como uma lembrana ardente.
"Eu ainda no desisti", ele a avisara, e cumprira a palavra. Nos dias que se seguiram, apareceu vrias vezes para v-la, ou ento telefonava.
Jenny sempre pretendia devolver-lhe Bruiser, o ursinho que j estava complctamente restaurado, mas sempre se esquecia. Isto devia ter algum significado psicolgico, disse a si mesma, enquanto remexia-se na cama, inquieta. Enquanto mantivesse o ursinho perto de si, era como se estivesse com o prprio Rafe. Todas as noites jurava que iria livrar-se do brinquedo, e todas as manhs esquecia-se completamente da promessa. Desculpava-se, dizendo que andava muito ocupada. E isto, pelo menos, era verdade.
Como se os problemas envolvendo Rafe no lhe bastassem, Jenny enfrentava alguns tambm em seu trabalho. Era.como se nada mais pudesse dar errado: duas novas encomendas de material haviam sido extraviadas e, agora, parecia-lhe que apenas um milagre faria com que a reforma do celeiro ficasse pronta na data marcada.
	Tem certeza de que conseguir terminar no prazo?  Jenny per guntou ao empreiteiro, pela quinta vez naquela semana.
	Tenho, sim  o sr. Gardner respondeu, lacnico.
	Mas foi isto que disse cinco dias atrs, e no vi muitos progressos, desde ento.
O homem limitou-se a encolher os ombros.
	No posso controlar o tempo.
	Tem feito sol todos os dias, desde a semana passada, sr. Gardner.
	Sim, mas h previso de chuvas. Vinte por cento de chances.
	Escute, sr. Gardner, vamos esclarecer uma coisa: ou o senhor entrega a obra no prazo que combinamos, ou no ver a cor do meu dinheiro.
Ele franziu a testa.
	Agora a senhorita est me chantageando  disse.  Fique sabendo que eu j construa casas antes mesmo de voc nascer.
	E, provavelmente, ainda no conseguiu terminar nenhuma!  Jenny explodiu.
	Se no gosta da maneira como fao meu trabalho,  livre para contratar outra pessoa.
Jenny j previra que ele iria ameaar largar o servio pela metade, e contava com uma carta na manga.
	Se no tem condies determinar a reforma, eu posso chamar o sr. Fadden  disse, calmamente.
Depois de algumas investigaes, Jenny descobrira que o cunhado do sr. Gardner abrira sua prpria firma de construes, criando uma rivalidade entre os dois. Conhecendo a natureza humana, ela podia apostar que o sr. Gardner no permitiria que o cunhado lhe tomasse o trabalho. E estava certa.
	Isto no ser necessrio  o homem apressou-se em dizer, num tom conciliatrio.  Posso reunir uma equipe de trabalho em quinze minutos. Esta reforma ficar pronta no prazo, ou no me chamo Herbert Gardner.
Jenny estreitou os olhos, desconfiada.
	Pensei que seu primeiro nome fosse Henry...
	Eh... Sim, eu quis dizer Henry.
	A partir de hoje, no quero mais saber de desculpas, nem atrasos, sr. Gardner  ela disse.  E no vou mais avis-lo com antecedncia, apenas contratarei seu cunhado. Est claro?
	Claro como gua.
	Otimo. Fico satisfeita por termos entrado num acordo.
De fato, quinze minutos depois, o celeiro estremecia com o rudo dos operrios, martelando, serrando e lixando. Jenny voltou para a casa, onde Mriam a esperava, aplaudindo.
	Muito bem!  a amiga exclamou.  Finalmente voc decidiu dar um basta naquele momzerl Nunca confiei nele, como sabe.
	Voc ter de traduzir esta palavra para mim, Miriam  Jenny talou. Entendia o sentido da maioria das palavras em diche da amiga, mas esta era nova.
	 Digamos que ele no  um mensch.
Jenny sabia que mensch  uma pessoa honrada e digna de confiana.
	O oposto de seu vizinho  Miriam continuou.  Voc sabe, o bonito. Ele sim,  um mensch. E tem aparecido bastante por aqui, ultimamente, no ?
	Miriam, eu j lhe disse que ele...
	J sei: est interessado apenas em sua... propriedade.
	Por que tenho a impresso de que voc no est falando sobre a mesma coisa que eu?
	Porque vi a maneira como ele olha para voc  Miriam respondeu.
	E da?
	E porque ele tem vindo aqui quase todos os dias  a amiga completou.
	Ele faz isto para me enlouquecer.
	Exatamentc.
	Para obrigar-me a ceder.
	Sim, sem dvida.
	Miriam!
	Desculpe  a amiga falou, sorrindo.  No consigo evitar.
	Pois eu no quero mais falar sobre Rafe!  Jenny declarou, passando a mo pela testa.  Estou com dor de cabea.
	Com todo este barulho l fora, qualquer um ficaria com dor de cabea.
	Mas, pelo menos, eles esto trabalhando. S espero que consigam terminar ainda neste sculo.
	Tenha pacincia, Jenny  Miriam tentou tranquiliz-la, dando uma palmadinha em seus ombros.  Voc conseguiu dar um bom susto no sr. Gardner. Ele no vai mais sair da linha.
	Posse ser dura, quando  necessrio  Jenny proclamou.  No vou permitir que nenhum homem idiota e teimoso fique atrasando minha vida!
	E uma reunio feminista, ou ser que qualquer um pode entrar?
 Rafe perguntou, na soleira da porta da frente.  Eu bati, mas parece que ningum ouviu.
	E quem pode ouvir alguma coisa, com todo este barulho?  Miriam intercedeu.  Vou buscar uma aspirina para voc, Jenny. Volto daqui a pouco.
E, assim, Jenny viu-se sozinha com Rafe novamente.
	No precisa ficar to apreensiva  ele disse.  No pense que vou atac-la.
	No estou apreensiva.
	 claro que est.  Rafe segurou-a pelos ombros e a fez virar-se
para o espelho do vestbulo.  Olhe s para este rosto.
	Prefiro no olhar.
	Por que no? E um rosto bonito.
Bonito, ela pensou, franzindo o nariz. timo. isto era o que toda mulher sonhava ouvir.
	Cuidado, ou seus elogios vo subir-me  cabea  ironizou.
	E seus lbios...  Postado atrs dela, Rafe observava-a atentamente, atravs do espelho.  Quando est zangada, voc faz uma coisa com seu lbio inferior... Est fazendo agora, viu s?
O que Jenny realmente via era o reflexo dele, tocando-lhe a boca com a ponta dos dedos, suavemente. Obrigou o prprio corao a diminuir as batidas enlouquecidas, mas sem sucesso. Sua respirao estava rpida, ofegante, e cada vez que aspirava o ar, suas costas tocavam o peito dele.
Rafe ergueu a sobrancelha, insistindo na pergunta:
	Est vendo?
	 claro que sim.
	E por que est zangada?
	No estou. Apenas entendo muito bem o que voc est tentando fazer.
	E o que ?
	Seduzir-me.
	E estou conseguindo?
	No. Absolutamente.
	E por que no? H algo errado com minha tcnica?
	Sua tcnica  perfeita, e voc sabe disto  ela respondeu, afastando o dedo que continuava acariciando-lhe o rosto.
	Ento por que no est funcionando com voc?
Ela jamais admitiria que, pelo contrrio, estava funcionando muito bem. Bem demais, at.
	No vou lhe vender minha propriedade, Rafe  disse.  No importa quantas vezes voc tente me convencer com esta fala macia.
	No vou chegar a lugar algum, hein?
	No.
A mo dele deslizou para o pescoo de Jenny.
	E o motivo de seu corao estar batendo to rpido ...
	Raiva  ela completou.
	Ah, raiva. Uma emoo forte. Como o desejo...
	Estou interrompendo alguma coisa?  Miriam perguntou, surgindo na sala.
	No,  claro que no  Jenny assegurou-lhe, afastando-se de Rafe rapidamente.
	Eu estava ensinando Jenny a compreender as prprias emoes  disse Rafe, com um sorriso enigmtico.
	E conseguiu?  Miriam indagou.
	Isto s o tempo poder dizer  ele respondeu.
O domingo deveria ser um dia de descanso, mas Jenny achava difcil relaxar, quando tantas coisas a preocupavam: Rafe, suas reaes a ele. as dificuldades que no paravam de surgir, na montagem de sua pequena empresa. Ela preferia concentrar-se em resolver os problemas do trabalho, porm no podia evitar de pensar que, talvez, houvesse uma conexo entre Rafe e o surgimento de tais problemas.
Pois no era possvel que tantas coisas dessem errado, ao mesmo tempo: entregas extraviadas, desenhos que desapareciam, atrasos na reforma do celeiro... Tudo levava a uma suspeita de sabotagem. Com isto em mente, Jenny saiu da casa, descendo com cuidado a escada de madeira dos fundos, que o sr. Gardner ficara de consertar, mas que, at agora, no tivera tempo.
	Pensei ter-lhe dito para arrumar estes degraus  Rafe comentou.
Jenny deu um pulo de susto.
	Gostaria que voc parasse de fazer isto!  exclamou, colocando a mo no peito, onde o corao disparava.
	Fazer o qu?
	Chegar de mansinho e assustar-me desta maneira! E o que est fazendo acordado, a esta hora da manh? Achei que dormiria at tarde, depois da noite agitada que teve no restaurante, ontem.
	Dormir at tarde?  bvio que voc nunca morou com uma criana de cinco anos. Elas simplesmente no entendem o que isto quer dizer.
	Ento, o que est fazendo aqui?
	Puxa, voc acordou de mau-humor, hein?
	Voc tambm estaria de mau-humor, se tivesse de enfrentar os meus problemas  ela retrucou.
	Que tipo de problemas?
	Ora, no se faa de desentendido...  Jenny virou-se para encar-lo.  Ou ser que no tem ideia de quem anda tentando me sabotar?
Algum que esteja querendo assustar-me, para que eu desista de tudo e venda a propriedade?
Rafe no gostou daquelas insinuaes, ela percebeu imediatamente. Pior para ele, pensou. Ela tambm no gostava nem um pouco do que estava acontecendo.
	No, no fao ideia  ele respondeu, num tom irado.  E no  do meu feitio prejudicar ou assustar mulheres indefesas.
	No? E o que voc faz, com mulheres indefesas?  Jcnny provocou-o.
	Quando so teimosas e impossveis, como voc, eu fao isto...  Sem acrescentar mais nada, Rafe tomou-a nos braos e beijou-a.

Captulo IV
Jenny estava atnita. Como aquilo acontecera? Como terminara envolta nos braos dele? E por que no protestara? Porque acontecera depressa demais: os lbios dele a silenciaram, antes que pudesse pronunciar qualquer palavra.
Seus prprios lbios se entreabriram, com um arquejo de surpresa, quando ele a abraou. E, agora, descobriu-se correspondendo"ao beijo, entregando-se cegamente  fora poderosa e apaixonada com que ele a beijava.
Sentia-se livre, solta, como se estivesse no topo de uma montanha, com o vento atingindo-lhe todo o corpo. As mos de Rafe acariciavam-lhe os cabelos, enquanto as dela pousavam em seu peito, numa tentativa frustrada de afast-lo. Porm, em vez de empurr-lo para longe, ela agora prendia o tecido de sua camisa entre os dedos, como se quisesse mant-lo consigo para sempre. E quando ele puxou-a mais para si, suas mos deslizaram, abraando-o pelas costas.
Seus corpos estavam colados, presos um ao outro por uma fora invisvel, e os beijos tornavam-se mais ardentes e apaixonados.
Jenny pensou que no podia ceder, tinha de parar com aquilo. Com um protesto ofegante, finalmente afastou-se dele e virou-se, furiosa com a prpria fraqueza.
Comeou a correr em direo do celeiro, parando apenas para destrancar a porta, murmurando ameaas veladas contra aquele homem envolvente e atraente demais. Escancarou a porta e ficou imvel, olhando em torno, esttica. O lugar estava imerso numa confuso total!
Havia gua por toda parte: cobrindo o piso, pingando das mesas de trabalho, encharcando as caixas, escorrendo pelas paredes. Uma das divisrias, que fora instalada no dia anterior, antes to branca e nova, agora tinha manchas escuras de umidade, de cima a baixo.
Muda pelo choque, Jenny congelou-se onde estava, observando o caos sem conseguir compreender o que havia acontecido. Sentiu uma presena atrs de si e girou o corpo de repente, deparando com a expresso de Rafe, to atnita e confusa quanto a sua. S que ele agiu rpido.
	Onde est a torneira do registro?  perguntou.
A voz dele arrancou-a do estado de choque.
	A gua ainda no foi ligada  respondeu.
	E quanto  eletricidade?
	O eletricista deveria vir amanh, para fazer as instalaes. No existe nenhuma ligao eltrica, ainda. Os pedreiros estavam usando uma extenso, puxando eletricidade da casa. No consigo entender...
De onde surgiu toda esta gua?
Rafe olhou para cima, antes de responder:
	Do teto.
	Do teto?  ela repetiu, tolamente.
	H uma abertura no telhado.  Ele apontou uma fresta, de onde podiam enxergar a luz do sol.  Com a chuva forte de ontem  noite, a gua entrou direto.
	Mas o sr. Gardner nunca mencionou qualquer problema com o telhado...
Sem dar ateno ao seu comentrio, Rafe aproximou-se de uma das mesas.
	Ajude-me a tir-la daqui  comandou.  Vamos lev-la para o canto, antes que tambm fique molhada.
Jenny obedeceu, enquanto tentava computar os estragos. No sabia o que salvar primeiro. Muitas caixas com material estavam completamente destrudas.
	No est to ruim quanto parece  ouviu Rafe dizer.
	No. Est pior  murmurou, sentindo uma raiva profunda crescer dentro de si. Como aquilo podia ter acontecido? O celeiro devia estar sendo reformado, e no destrudo!  J chega!  exclamou, ento.  Vou pedir reforos!
	Onde vai?  ele perguntou, ao v-la sair do celeiro com passos duros.
	Fazer uma coisa que deveria ter feito h dias: chamar o sr. Fadden e entregar-lhe a obra.
Jenny voltou cinco minutos depois.
	Ele disse que vir o mais rpido possvel  informou.  Liguei para Miriam, tambm. Ela e Max j esto  caminho.
Percebeu que Rafe removera algumas caixas, que ainda estavam secas, para lugares altos, enquanto ela fora telefonar.
	Tenho um aspirador de gua, que posso emprestar-lhe para secar o piso  ele disse.  A gua no est muito alta, mas espalhou-se por uma grande rea. E posso chamar Spud para ajud-la, tambm.
	No precisa fazer nada disto...  Jenny falou, calando-se quando ele a segurou pelos ombros, obrigando-a a encar-lo.
	Voc no est pensando que tenho algo a ver com isto, no ?  Rafe indagou, srio.
O olhar perdido que ela enviou-lhe foi como um soco em seu estmago. E estava to plida... Sentiu-se um canalha, por t-la beijado da maneira como fizera, minutos antes, tomando-a nos braos sem dar-lhe chance de protestar. Entretanto, no planejara aquele beijo. Simplesmente, acontecera...
Na verdade, admitiu a si mesmo, beijara-a porque sentia-se infernalmente atrado por ela. No sabia muito bem o que Jenny possua, que o deixava quase fora de si: o tom de voz enrouquecido, a maneira apaixonada com que encarava a vida, os lbios tentadores... Porm, ela no confiava nele.
Tinha de dizer alguma coisa que fosse capaz de afastar a angstia que via estampada em seus olhos azuis.
	Jenny...
Foram interrompidos com a chegada da nova equipe de trabalho. Enquanto o sr. Fadden dava instrues aos seus homens, Rafe foi para sua casa buscar o aspirador de gua. Quando voltou, Miriam e o marido estavam ali, ajudando Jenny a salvar o que fosse possvel, nas caixas molhadas.
Infelizmente, Rafe no conseguiu mais ficar a ss com ela, pelo resto do dia. Em pouco tempo o celeiro foi se enchendo de gente, voluntrios que apareciam para ajudar. Spud foi um deles, mas teve de sair depois de duas horas, a fim de cuidar de seu servio no restaurante, no horrio do almoo. Rafe, entretanto, permaneceu ali mesmo, onde achava que seria mais til.
Mas o que est pensando?, perguntou-se j no final da tarde, enquanto enfileirava alguns ventiladores contra uma das paredes secas. Que s pelo fato de t-la ajudado, Jenny iria encar-lo com outros olhos? Conhecendo-a, era mais provvel que imaginasse que ele estava agindo com segundas intenes, ou, pior ainda, que provocara o desastre apenas para poder resgat-la, depois. E, ento, ela ficaria to grata que faria tudo o que ele quisesse...
Jenny realmente o julgava to desonesto?, pensou, franzindo a testa. De repente, lembrou-se de que ela no lhe respondera, quando lhe perguntara se o considerava responsvel pelo que acontecera no celeiro.
Comeava a escurecer e a maioria dos voluntrios j havia voltado para casa. Os estragos mais graves haviam sido reparados e limpos, e o telhado consertado pelo sr. Fadden e seus homens. O piso de madeira talvez no pudesse ser totalmente recuperado, mas Jenny tivera a presena de esprito de tirar fotografias do local, antes que a operao de limpeza se iniciasse, e possua provas para exibir  companhia de seguros, que ficara de mandar um representante na manh seguinte.
Depois do choque inicial, ela se mostrara calma, fria e circunspecta, durante todo o dia. Um pouco demais, at, Rafe pensava. E o esforo que fizera para manter-se assim comeava a transparecer: havia uma fragilidade evidente em seu olhar, cm seu tom de voz. A fadiga tirara toda a cor de seu rosto, deixando-a plida, como uma sombra de si mesma.
	J chega  Rafe falou, de repente, tirando um pano molhado de suas mos.  No h mais nada que possamos fazer, esta noite. Vamos trancar a porta e voc vem jantar comigo em meu restaurante. No comeu nada o dia inteiro, e parece prestes a ter ura colapso.
- A vem voc novamente, enchendo-me de elogios...  ela tentou brincar.
- Muito engraado. Vamos.  Rafe tomou-a pelo brao, mas Jenny no se moveu.
	No estou com disposio de me arrumar para jantar, Rafe  disse.  Francamente, estou exausta.
	Mas quem disse que precisa arrumar-se? Ser um jantar ntimo.  Quando ela enviou-lhe um olhar desconfiado, Rafe acrescentou:  Meu pai e Cindy estaro l.  Vendo que ela ainda hesitava, atirou a cartada decisiva:  Hugo preparou presunto assado, com aspargos frescos e batatas na manteiga. E, de sobremesa, torta de abacaxi.
	No posso... Veja s como estou!  Jenny fez um gesto indicando desde os cabelos at a cala jeans, que continuava enrolada na altura dos tornozelos desde aquela manh.

	Voc pode lavar-se no restaurante  ele sugeriu.
Ela balanou a cabea.
	No quero que as pessoas me vejam deste jeito.
	Ento, tenho uma ideia: ns entramos pelos fundos e voc usa o vestirio dos empregados para se arrumar. Satisfeita?
Jenny no tinha foras para continuar discutindo e, alm disso, estava quase morrendo de fome.
	Voc precisa de algum que cuide de voc, sabia?  Rafe acrescentou, diante de seu silncio.
Por fim, passou o brao em seus ombros e levou-a para fora de celeiro, trancando a porta em seguida.
Quando chegaram no restaurante, pela entrada dos fundos, como ele prometera, cercou-a de tantos cuidados que quase faltou encarregar-se de lav-la pessoalmente, at que Jcnny expulsou-o para fora do vestirio.
Depois de lavar o rosto, as mos, pentear os cabelos e ajeitar as roupas, ela olhou-se no espelho, admitindo que, de fato, sentia-se bem melhor. Mesmo sendo difcil de admitir, um doce prazer a envolvia, por ter algum como Rafe cuidando de seu bem-estar. Os outros homens que haviam passado por sua vida nunca foram muito protetores, incluindo a o seu av, que no tinha pacincia com qualquer tipo de fragilidade.
Mesmo sabendo que no poderia, e nem deveria, acostumar-se a isto, por alguns instantes permitiu-se desfrutar da novidade.
Ao sair do vestirio, foi recebida por uma nuvem aromtica: presunto assado, abacaxi c temperos que sequer saberia identificar. Entreabriu a porta da cozinha e ficou impressionada com os cromados reluzentes e a limpeza das bancadas e pias, bem como com o equipamento sofisticado.
Tudo ali dava a impresso de um caos organizado, que caracteriza os melhores restaurantes. Os garons, vestidos com camisa branca e calas pretas, entravam e saam carregando bandejas, por uma porta que, obviamente, dava para o salo de refeies.
	Ah, a est voc  Rafe falou, levando-a at um homem com um enorme chapu de cozinheiro, parado diante do fogo. Este tinha o rosto arredondado e vermelho que, no momento, estava inclinado, examinando uma das panelas.  Este  Hugo  apresentou.  E esta  a cozinha de Hugo.
Jenny hesitou um pouco, sem saber o que dizer. Deveria agradecer ao cozinheiro, por ele permitir sua entrada na cozinha? Acabou dizendo apenas:
	Seja l o que for que voc esteja cozinhando, Hugo, parece delicioso.
E disse a coisa certa, aparentemente, pois o homem ergueu o rosto e sorriu, como um professor que v o aluno passar num teste. Ento, ficou srio e respondeu:
	Fao o que posso, neste lugar apertado.
	E voc j conhece Spud, no ?  Rafe acrescentou, com um gesto na direo do homem mais velho.
Parado junto  uma bancada, descascando batatas, Spud cumprimentou-a com um largo sorriso, que Jenny retribuiu.
	Voc deixou restos de cascas nestas batatas  Hugo reclamou, de seu posto no fogo, apontando para uma tigela.
	Ora, Huguinho, no seja to exigente  disse o velho cozinheiro.
	O mundo no  um lugar perfeito, sabia? Alm disso, a vida com algumas "casquinhas" fica bem mais interessante.
	Voc parece um campons idiota!  Hugo declarou, com desprezo.
	 melhor do que parecer uma velha solteirona  Spud retrucou, num tom divertido.
A batalha verbal foi interrompida pela chegada de Cindy.
	Voc est aqui!  a garotinha exclamou, avistando Jenny. Parecia to feliz que, instintivamente, Jenny ajelhou-se para abra-la.  Venha...  pediu, puxando-a pela mo.  Quero lhe mostrar o meu quarto e todos os meus brinquedos.
	Depois do jantar, Cindy  Rafe intercedeu.  J .lavou as mos?
	Sim, papai.  Estendeu as mozinhas, provando.  Pai, voc j perguntou a ela?
	O qu?  Jenny quis saber.
	Ser que voc pinta as minhas unhas, mais tarde?  disse a menina, num s flego.  Aqui em casa ningum sabe, e eu tenho o esmalte, e todas as outras coisas.
	Cindy ganhou um estojo de manicure da av  Rafe admitiu. 	E est me levando  loucura com esta histria de pintar as unhas.
	Voc pinta, Jenny?  Cindy insistiu, quase implorando.
	E claro que sim  Jenny respondeu.
	Depois do jantar  Rafe repetiu, vendo o brilho de alegria nos olhos da filha.
	Mas eu poderia comer melhor, se minhas unhas estivessem pintadas, papai  ela declarou, com um ar de cmica sofisticao.
Rafe balanou a cabea, aturdido. No fazia ideia de onde a filha aprendera aquela expresso to tipicamente feminina, piscando os olhos e inclinando a cabecinha para o lado. Certamente no fora atravs das companhias masculinas, que a cercavam na maior parte do tempo.
	Foi uma boa tentativa  ele disse, torcendo-lhe o nariz de leve c sorrindo.  Pena que no funcionou.
	Ento voc  a misteriosa nova vizinha!  a voz ressoante fez com que Jenny se virasse, deparando com um homem de cabelos brancos e olhos muito azuis, que reuniu-se a eles.  Eu sou Chuck, o pai de Rafe  aprcsentou-se.  Fico feliz em conhec-la.  Tomou-lhe a mo e cumprimcntou-a vigorosamente.  Ouvi falar muito a seu respeito.
	Eu tambm ouvi falar sobre o senhor  disse Jenny.
	Pois no acredite numa s palavra  Chuck retrucou.
Ela riu.
	Foram apenas coisas boas  assegurou-lhe.
	Pior ainda. No acredite.

	Meu pai possui um senso de humor muito particular  Rafe intercedeu, secamente.
	O vov sabe uma poro de anedotas!  disse Cindy.  Conte para Jenny aquela sobre a garota nua, vov!
	Numa outra hora, princesnha  Chuck respondeu, passando as mos calejadas pelos cabelos revoltos.
	Mas eu sei de memria  a menina proclamou, com orgulho. 	J ouviu aquela da garota nua que...
Rafe apressou-se cm tapar a boca da menina com a mo, antes que ela pudesse entrar em detalhes. Para distrai-la, pegou-a no colo, dizendo:
	Vamos comer, agora. Seu pai est com tanta fome que  capaz de engolir voc inteirinha!
	Tanta agitao no faz bem para a digesto  Hugo declarou, com expresso desaprovadora.
	No se preocupe, Huguinho  Spud falou, com uma palmadinha nas costas do cozinheiro.  A menina tem um estmago de ferro.
Hugo no retrucou, limitando-se a encolher os ombros, com desdm.
	No se assuste com ele  Spud tornou a falar, agora para Jenny. 	Hugo sempre se queixa de alguma coisa.
Jenny tentou esconder um sorriso, enquanto seguia Rafe para um cmodo ao lado da cozinha.
	Esta costumava ser a cozinha original da casa  ele explicou, fazendo-a sentar-sc  mesa.  Quando reformamos o lugar, mandamos construir uma nova cozinha para o restaurante e mantivemos este espao para fazermos nossas refeies. Fica mais fcil, assim.
Jenny assentiu, apreciando as vantagens de se viver logo acima de um restaurante. Se Rafe no tivesse insistido, ela terminaria o dia comendo um prato de comida congelada.
	Sabe de uma coisa, vov? Jenny faz ursinhos de pelcia  Cindy falou, sentando-se no outro lado da mesa.
Hugo deu mostras de seu total desagrado, enquanto colocava uma terrina de sopa da mesa.
	Potage  disse, antes de voltar para a cozinha com o nariz empinado.
	 a maneira elegante de ele dizer que isto  "sopa"  Spud informou, comeando a servi-los.  Parece esquisito, mas o gosto  bom, como a maioria dos pratos que Huguinho prepara.
Durante a refeio, a conversa transcorreu tranquila, sem que Jenny se visse obrigada a participar, pelo que ficou muito grata. Estava to cansada que precisou de toda sua energia para concentrar-se em comer. No tinha certeza se seria capaz de formar uma sentena coerente, quela altura.
Porm, depois do lauto jantar, coroado com uma fatia de deliciosa torta de abacaxi, sentiu-se renovada. Felizmente, pensou, enquanto Cindy a puxava para o andar de cima, ansiosa em lhe mostrar seu quarto e seus tesouros, isto sem mencionar a atrao principal, que seria ter as unhas pintadas.
A garotinha tagarelava sem parar e movia-se pelo quarto como um pequeno furaco. E era um quarto perfeito para uma menina, com a cama de cabeceira alta pintada de branco e rosa, estantes cheias de brinquedos c livros de histria. Depois de completar a demonstrao, Cindy pegou o estojo de manicure e ambas sentaram-se na cama.
	Coloque a mo em minha perna  disse Jenny, imaginando que seria mais fcil pintar um alvo que no se movesse a todo instante. E agora fique bem quietinha, seno o esmalte fica feio, est bem?
Cindy assentiu, mordendo o lbio com ansiedade, observando os movimentos de Jenny com a mesma concentrao de um mdico que assiste a uma cirurgia de crebro. Quando a mo direita ficou pronta, com o esmalte rosado, Jenny passou para a outra. Sentiu um n na garganta quando a menina descansou a cabea em seu peito, num misto de carinho e confiana.
	Voc vai dormir aqui?  Cindy perguntou.  Podemos armar uma cama em meu quarto e conversar a noite inteira.
	Seria divertido, mas preciso ir para casa.
	Por qu?
	Porque meus ursinhos de pelcia ficariam muito sozinhos, se eu no aparecesse  Jenny respondeu, aliviada por ter uma boa resposta.
Se lhe dissesse que no ficaria por causa da maneira como Rafe a olhava, a menina jamais iria entender.
Como se fosse levado pela fora de seu pensamento, Rafe apareceu na porta.
	Vocs duas ainda esto a? Est na hora do seu banho, Cindy. E, depois, direto para a cama.
	Veja, papai! : Cindy exclamou, correndo at ele para mostrar as unhas rosadas.  No est... interessante?
Rafe sorriu, ao ouvir a nova palavra favorita da filha.
	Muito interessante, princesa.
	Voc pode ficar at a hora que eu for para a cama?  Cindy virou-sc, perguntando  Jenny, que concordou.
O banheiro ficava perto do quarto o suficiente para Jenny ouvir os risos da menina, enquanto tomava banho. Em pouco tempo, ela e o pai retornavam, Cindy de pijama florido e Rafe ligeiramente molhado. A menina correu para a cama e deitou-se ao lado de Jenny.
	Onde est meu livro de histrias, papai?  perguntou.
	Na sala.  Rafe suspirou, cansado.  Vamos ler outro livro hoje, est bem?
	No, eu quero a "Bela Adormecida"  Cindy insistiu.  No gosto da histria de peixes, do vov.
	Moby Dick  Rafe disse para Jenny.  Est bem, princesa. Espere um pouco de vou buscar seu livro.
	Quer escovar meus cabelos?  Cindy indagou, logo que Rafe saiu.
Jenny fez que sim, pegando a escova na mesa de cabeceira.
	Queria que meus cabelos fossem bonitos como o seu  a menina continuou falando.
	Ora, Cindy, seus cabelos so muito bonitos, assim crespinhos.
	Eles formam ns, e ficam difceis de escovar. Da, o vov fica zangado. s vezes ele me d dez centavos, para eu mesma escov-los.
	Os homens no so muito bons, para estas coisas.
	O meu pai . Quase to bom quanto voc.
	Voc tem sorte em ter um pai to bom  disse Jenny.
	Ele  o melhor pai do mundo!
Engolindo em seco, Jessy concordou, em silncio. Naquele instante, Rafe entrou no quarto, trazendo o livro, e sentou-se na beirada da cama. Comeou a ler a histria que, na verdade, j sabia de memria. Cindy ia olhando as figuras, com um ar sonhador.
	Voc no vai acordar a Jenny com um beijo, papai?  a menina perguntou, de repente.
Jenny sentiu-se gelar. Depois do dia que tivera, todas as suas defesas a haviam abandonado.
	Hoje no, princesa  Rafe apressou-se em responder.  A Bela Adormecida parece muito cansada. E j  hora de apagar a luz.
Depois de acomodar a menina e trocarem beijos de boa-noite, Jenny e Rafe saram do quarto.
	Fiz um pouco de caf  cie disse.  Gostaria de uma xcara?
	Sim, seria bom.
	Importa-se de se servir?  Rafe fez. um gesto em direo de sua esquerda.  A cozinha fica bem ali, e as xcaras esto em cima do balco. Preciso descer para checar algumas coisas, pois ouvi Hugo e Spud gritando um com o outro, h pouco. No vou demorar.
A ausncia dele permitiu que Jenny se sentisse mais  vontade para observar a sala de estar. As paredes c tapetes eram em tons de bege, a neutralidade quebrada pelo azul das almofadas, que combinavam com uma pintura a leo, representando uma paisagem marinha, colocada sobre a lareira.
Foi para a cozinha, um cmodo no muito grande, mas eficiente, onde encontrou o caf pronto, na cafeteira eltrica. Serviu-se de uma xcara, voltou para a sala e acomodou-se numa poltrona, a fim de esperar que Rafe voltasse.
Mal havia se sentado, uma gata malhada de branco, e cinza pulou para seu colo.
	Voc deve ser Botinha  Jenny disse, baixinho, deixando a xcara numa mesa de canto e afagando-lhe o pelo macio.
	Parece que voc encontrou uma amiga  Rafe comentou, momentos depois, ao entrar na sala.
	Foi ela quem me encontrou  Jenny respondeu, sentindo um n na garganta. Suas emoes pareciam estar  flor da pele, naquela noite.
S podia ser resultado do cansao, concluiu. Afinal, era estupidez estar ali, com os olhos cheios de lgrimas, apenas porque uma gata decidira dormir em seu colo... algo que ela sempre desejara, desde criana.
Percebendo sua expresso, Rafe falou:
	Se a gatinha a estiver incomodando, basta coloc-la no cho.
	No, est tudo bem. Eu estava s pensando... Lembrando-me do quanto queria ter um gato, quando era menina. Mas eu morava com meus avs, e vov detestava gatos.
	E agora? Voc mora sozinha, pode ter quantos gatos quiser.
	Eu sei.  Jenny suspirou.  E  o que pretendo, assim que as coisas se ajeitarem.
	Bem, at l, se sentir falta de companhia felina, pode vir aqui e fazer carinhos em Botinha,  qualquer hora.
	Obrigada.
	E  claro que nem preciso dizer que pode vir passar algum tempo comigo, tambm, se quiser. Eu tambm gosto de carinhos.
	 muita generosidade sua  Jenny retrucou, no mesmo tom de brincadeira que ele usara.
	Ento, Jenny, me conte... O que a levou a escolher ursinhos de pelcia, como meio de vida?
Ela sorriu, aliviada por ele mudado para um assunto menos ntimo. E a pergunta era fcil de responder.
	Sempre adorei ursinhos de pelcia, desde criana. Minha av ensinou-me a costurar, para que eu pudesse fazer as roupinhas para o meu ursinho, com retalhos de tecidos. Quando tinha dez anos, decidi fazer um ursinho novo, para mim, mas foi uma tentativa desastrosa.
No desisti e, com o passar do tempo, fui melhorando e adquirindo prtica. Comecei a pesquisar o assunto, procurando novos modelos e materiais e, na minha adolescncia, j ganhava um dinheirinho extra, fazendo ursinhos por encomenda. Seis anos atrs, li um artigo numa revista especializada e percebi que poderia haver um bom mercado para o meu talento. Estava na faculdade, na poca, fazendo um curso de Administrao de Empresas. Depois que me formei, trabalhei dois anos numa companhia de seguros, mas sempre fazendo os ursinhos, nas horas vagas.  Bebeu um gole de caf, antes de prosseguir.  Eu tambm fazia muitas pesquisas, na biblioteca, sempre procurando aperfeioar minha tcnica e buscando novos modelos. Foi ento que descobri que, neste pas, os ursinhos de pelcia ocupam o terceiro lugar, na preferncia dos colecionadores. Apenas as colees de selos e moedas esto  sua frente. Assim, tomei uma deciso e, h quatro anos, deixei meu emprego e passei a dedicar-me exclusivamente  confeco dos ursinhos. E nunca me arrependi.  Percebendo que falara demais, juntou:  Pronto, chega de falar sobre mim. E quanto a voc?
	Eu?
	Voc tem muito jeito para lidar com Cindy  ela comentou.
	Bem, minha sogra no concordaria com voc  Rafe retrucou.  Ela no perde uma chance de verbalizar seu descontentamento pela maneira como estou criando a menina.
	Mas o que ela desaprova?
	A falta de influencia feminina, por exemplo. E, pelo menos nisto, acho que tem razo. Cindy vive cercada de homens, nesta casa. Voc mesma viu como ficou excitada, apenas por voc ter lhe pintado as unhas.
	Mas a prpria Cindy me disse que tem o melhor pai do mundo, e devo dizer que concordo com ela.
	Obrigado.
	Por nada.
Seus olhos encontraram-se e Jenny sentiu nos dele, pela primeira vez, o calor da amizade, sem a menor conotao sensual que sempre existira, antes. Foi como se um novo lao surgisse entre eles, algo muito especial, lindo e novo. Porm, a magia foi quebrada quando a gatinha pulou do colo de Jenny.
Ela desviou os olhos, murmurando:
	Est ficando tarde. Preciso ir embora.
	Vou acompanh-la.
Para sua surpresa, quando chegaram  casa dela, Rafe limitou-se a beij-la castamente no rosto, antes de virar-sc para sair, deixando-lhe instrues para que fechasse bem as portas. Porm, Jenny tocou-lhe a mo, fazendo-o parar.
	Espere um pouco. Faz tempo que quero lhe dar uma coisa...  disse.
	E mesmo?  Os olhos dele brilharam, na escurido, e a voz denunciava sua antecipao.
Jenny entrou e, segundos depois, retornou com Bruiser, o ursinho de pelcia.
	Aqui est  falou, entregando-lhe o brinquedo.  Espero que no se importe por eu ter colocado um sueter nele. Mas havia uma emenda nas costas, impossvel de disfarar. O que acha?
	Acho que nunca devo tirar concluses apressadas, no que se refere a voc  ele respondeu, com um sorriso frustrado.  Boa noite, Jenny.
Na manh de segunda-feira, bem cedo, Jenny recebeu um telefonema da companhia de seguros. Mal acabara de desligar, o telefone tocou novamente.
	Al?
	V embora  disse a voz masculina, abafada.
Ela bateu o fone, imediatamente. J no acreditava que estivessem apenas brincando com ela: agora, levava a srio o recado que algum estava lhe enviando. Mas a pergunta era: quem?
O telefone tornou a tocar. E, desta vez, era o sr. Friendall, o gerente do banco.
	Voc poderia passar em meu escritrio, ainda hoje?  ele perguntou.  Precisamos discutir alguns assuntos, em particular.
Jenny concordou prontamente, combinando um horrio para aquela mesma manh. Todas as outras preocupaes foram afastadas, diante do novo problema que surgira. Que assuntos to urgentes o gerente do banco teria a discutir? Ligou para Mriam, antes de sair, que prometeu receber o representante da companhia de seguros, enquanto ela ia ao banco.
O sr. Friendall foi direto ao assunto, sem rodeios: o banco sofrera uma mudana de diretoria que, depois de rever o emprstimo concedido  Jenny, o considerara "arriscado", e decidira interromper sua linha de credito.
A semana havia comeado bem, ela pensou, quase histrica, ao sair do banco. Primeirc?, a sabotagem. Depois, a enchente no celeiro e, agora, isto! Algum estava firmemente determinado a impedir que ela iniciasse a Urso Benjamim e Companhia. E, embora fosse conveniente colocar toda a culpa em Rafe, no fundo ela sabia que no fora ele. Vira a expresso de seu rosto, quando a seguira at o celeiro, no dia anterior, e sabia que ficara to chocado quanto ela.
No... Havia algo muito errado, ali, e ela iria descobrir o que era. Seu primeiro passo foi ir  biblioteca, onde descobriu quem ocupara a nova diretoria do banco.
 Bingo!  exclamou.
Ali estava, preto no branco: o mesmo conglomerado de empresas que comprara as aes do banco tambm possua a MegaToys, a fbrica de brinquedos que vinha insistindo h tempos para que ela lhes vendesse seus desenhos e modelos. E a quem ela recusara, terminantemente.
Tudo se encaixava, de repente. Os telefonemas annimos, os desenhos perdidos, as encomendas extraviadas, o vazamento misterioso no telhado que, o sr. Fadden lhe dissera, talvez tivesse sido feito de propsito. Tudo levava diretmente  concluso de que a MegaToys estava por trs das ocorrncias.
Agora, vendo-se sem dinheiro, Jenny pensou na herana que a av lhe deixara. Aqueles setenta mil dlares viriam a calhar, no momento. Na verdade, seriam imprescindveis.
O problema, nfl entanto, era que a av deixara expresso, cm seu testamento, que Jenny s poderia receber a herana depois que estivesse casada. Mas Jenny tinha certeza de que, se a av soubesse do aperto em que encontrava-se agora, no faria qualquer restrio para que ela recebesse o dinheiro.
Assim pensando, o passo seguinte de Jenny foi ligar para sua advogada.
	Escute, Miranda, quero lhe falar sobre o testamento de minha av.
	O que foi?
	Quanto tempo levaria para derrubarmos a clusula que diz que s posso receber o dinheiro depois de casada?
 Algumas semanas, no mnimo  Miranda respondeu.  Por qu? Pensei que voc estivesse satisfeita em deixar o dinheiro rendendo juros.
	O banco interrompeu minha linha de crdito  Jenny explicou, contando rapidamente o que acontecera no escritrio do sr. Friedall, e como, depois, ela descobrira quem eram os novos acionistas m ajoritrios do banco.
	A mesma fbrica de brinquedos que estava interessada em seus modelos?  Miranda indagou, surpresa.
	Interessada demais, at!  Jenny exclamou.  Parece que ficaram muito ofendidos, quando me recusei a vender-lhes os direitos   sobre minhas criaes. Na ocasio, expliquei-lhes que queria que os ursinhos fossem bem feitos, e que a fbrica deles tinha a reputao de ser descuidada, na manufatura de brinquedos. Usam material de m qualidade e no tm a menor preocupao com o acabamento.
	Detesto decepcion-la, Jenny  a advogada falou, ento. se conseguirmos derrubar a clusula sobre o casamento, voc ainda ter de pensar naquela que a impede de receber o dinheiro antes de completar trinta anos. Lembre-se que o testamento diz que a herana ser liberada se voc se casar, ou se tiver trinta anos. O que acontecer primeiro-Jenny suspirou, desanimada.
	Quer dizer que no h a menor possibilidade de eu conseguir este dinheiro?  perguntou.
	No. A no ser que voc se case. E o testamento tambm a impede de usar a herana como garantia para um emprstimo.
	Eu sei. E foi por isso que procurei o banco. No incio, eles foram timos. S que, agora, tudo se complicou.
 Sinto muito, Jenny. Para quando voc precisa do dinheiro?
	Para ontem  ela respondeu, numa tentativa de humor. - E se eu me casar?  arriscou.  Quanto tempo demoraria para receber?
	Apenas alguns dias, o suficiente para legalizarmos tudo. Por qu? Est planejando "amarrar-se" a algum?
	Parece que vou ter de tentar  ela murmurou.  Queira ou no queira. 
	Um apartamento no andar de cima de um bar no  o lugar ideal para se criar uma menina  Althea Layton, a sogra de Rafe, proclamou no telefone.
Rafe poderia ter lhe dito que o Murphy's no era um bar, mas sim um restaurante fino e conceituado, mas Althea j sabia disto. E, para ela, no fazia a menor diferena, pois sua desaprovao no tinha limites. Assim, disse apenas:
J discutimos isto antes, Althea.
Sim, tem razo  a mulher respondeu, num tom gelado.  Voc acredita que Cindy veio me contar uma anedota picante, hoje?  desta forma que quer criar sua filha? Acha que Susan ficaria feliz, em ver o que est fazendo com a menina?
	Escute  Rafe falou, tentando conter a raiva,  voc nunca incomodou-se com Cindy, at ela estar com trs anos.
	Fiquei abalada demais com a morte da minha filha.
	Ah! Estava era ocupada demais consigo mesma, para pensar em Cindy!
	No comece a me ofender novamente!  Althea quase gritou, no outro lado da linha.  Eu disse a Susan para no se casar com voc, e veja s como tudo terminou. Ela est morta, agora!
	No foi por minha culpa  Rafe retrucou, por entre os dentes.  Susan morreu de leucemia.
	Se ela no estivesse to esgotada, por ajud-lo a montar este seu bar, no teria ficado doente.
Aquele era um outro eterno motivo de discusso. Mais antigo, ainda, do que seus mtodos de criar Cindy.
	J basta, Althea  ele afirmou.  Esta conversa est encerrada.
	Est mesmo. A prxima vez que nos comunicarmos ser atravs do meu advogado.
	Advogado?
	Exatamente. Vou entrar com um processo para conseguir a cus tdia de minha neta.  E, com esta notcia, Althea desligou.
	Parece que voc est se sentindo do mesmo jeito que eu  Rafe disse  Jenny, sentado num dos degraus da varanda da casa dela.
	E como voc est se sentindo?
	Arrasado.
	L vem voc, com seus elogios...  ela brincou, mas havia uma pontinha de tristeza em sua voz, quando sentou-se ao lado dele.
	...  Rafe parecia to deprimido quanto ela.
	Tive um dia horrvel, hoje  ela falou.  E voc?
	Minha sogra fez mais uma ameaa de tirar Cindy de mim  ele respondeu.  S que, agora, ela parece estar falando srio.
Jenny ficou to surpresa que, por um instante, esqueceu os prprios problemas.
	Voc deve estar brincando... Por que ela iria querer tirar Cindy de voc?
	Lembra-se da conversa que tivemos, na outra noite?  ele disse.  Sobre minha preocupao com Cindy, por estar sendo privada de uma influncia feminina?
Jenny assentiu, e ele continuou:
	Pois bem, minha sogra acredita que ela prpria seja a melhor influncia feminina que Cindy poderia ter. E ameaou entrar com um processo para conseguir a custdia da minha filha.
	E acha que ela conseguiria? Certamente nenhum juiz concordar em separar Cindy de voc!
	No posso correr o risco, Jenny. E, de maneira alguma, permitirei que minha filha seja alvo de uma batalha judicial. Alm disso, a me de Susan tem muito dinheiro, pode pagar os melhores advogados e, provavelmente, acabaria ganhando a causa.
	Ento... O que pretende fazer?
	Estive pensando e conclu que preciso de uma esposa, para poder ficar com minha filha. E quanto mais rpido, melhor. Ser que voc estaria interessada em ocupar este cargo?
	Sabe de uma coisa, Rafe? Pode parecer mentira, mas acontece que eu tambm estou precisando de um marido. Imediatamente!

Captulo V

	Ser que pode repetir?  Rafe pediu, sem  acreditar no que ouvira.
	Eu preciso de um marido.
	Por qu?
	Por motivos de negcios  disse Jenny, achando que tal resposta soaria melhor do que se dissesse: "Pelo dinheiro".
	Importa-se de explicar melhor?  ele inquiriu.
	Minha av deixou-me uma quantia substancial de dinheiro que, infelizmente, s posso usar quando tiver trinta anos... ou se me casar, primeiro.
	Mas voc disse que sua famlia no era rica...
	E no era, mesmo. Vov recebeu este dinheiro como indenizao do hospital onde meu av morreu, pois houve negligncia por parte dos mdicos. Ela ficou muito abalada, na poca, e recusou-se a tocar num centavo. Em vez disto, investiu o dinheiro numa poupana e deixou-o de herana para mim.
	Mas com algumas condies.
Ela assentiu.
	Poucas coisas, na vida, nos so dadas sem quaisquer condies  afirmou.
	E voc j consultou um advogado, sobre este assunto?
Jenny contou-lhe a conversa que tivera com Miranda, concluindo:
	Por tudo o que ela disse, levaria um longo tempo at que eu conseguisse derrubar as duas clusulas que me impedem de receber a herana. E eu no posso dar-me ao luxo de esperar.
	Por qu?
	A fbrica de brinquedos MegaToys est interessada em meus modelos  Jenny explicou.  Quando recusei-me a vend-los, decidiram dificultar minha vida. Posso apostar que so eles que esto por trs dos atrasos na entrega do material e dos outros atos de sabotagem, incluindo aquela enchente no celeiro. O sr. Fadden afirmou que suspeitava de que algum abrira a fresta no telhado de propsito.
	E por que voc no me falou sobre isto ontem  noite? Achava que eu era o culpado?
	No  ela respondeu, convicta.  Depois que vi que sua surpresa era to grande quanto a minha, ao encontrar o celeiro inundado, tive certeza de que no era voc. E no toquei neste assunto, ontem, porque estava cansada demais.

	Ainda parece cansada  Rafe reparou, preocupado.
Jenny deu-lhe um tapinha no brao.
	J chega de elogios, por hoje  brincou.
Ele sorriu e, por um instante, Jenny sentiu como se o sol estivesse surgindo de trs das nuvens sombrias. Porm, no momento seguinte, o ceticismo dele tornou a nublar o seu cu.
	Acredita mesmo que uma fbrica de brinquedos to conhecida chegaria a tais extremos, apenas para ter os modelos de alguns ursinhos de pelcia?  Rafe indagou.
	Voc no faz ideia dos bilhes de dlares que os negcios com ursinhos de pelcia movimentam  ela retrucou.  Seja por colecionadores de antiguidades, seja pela manufatura de novos modelos...  um comrcio internacional. E eu realmente acredito que a MegaToys esteja chegando a extremos, sim. Pois Petcr Vanborne, o presidente da empresa, tem a reputao de fazer qualquer coisa para conseguir o que deseja.
	Eu tambm tenho. Mas, da a tomar atitudes fora da lei...  Rafe deixou a frase no ar.
	Vanborne no tem os mesmos escrpulos  Jenny afirmou.  Todos sabem de seus mtodos escusos, mas como ganha muito dinheiro, parece que ningum se incomoda muito.  um trapaceiro, ou um gonif, como Miriam diria. Aposto que  ele quem est por trs dos telefonemas annimos que tenho recebido, sem mencionar que teve a coragem de mandar algum entrar em minha casa e vasculhar minhas coisas...
	Ei, espere um pouco!  Rafe interrompeu.  Que histria  esta? Quando foi que entraram em sua casa?
	Lembra-se daquele dia do piquenique?  ela perguntou.
Rafe assentiu. E como poderia ter esquecido da primeira vez que a beijara, da primeira vez que soubera, com certeza, que algo novo surgira dentro de si?
Rapidamente, Jenny contou-lhe o que acontecera, quando chegara em casa e descobrira que os desenhos que fizera para o modelo do Ursinho Bambino haviam desaparecido.
	J chega  disse Rafe. totalmente convencido, agora.  Voc precisa de proteo, a comear por um sistema de alarme, tanto para sua casa como para o celeiro. E se tivesse chegado em casa mais cedo e apanhado os invasores em flagrante? Devia ter chamado a polcia, no mesmo instante.
	E dizer o qu? Que alguns desenhos de ursinhos haviam desaparecido?  cia retrucou. 
	Bem, de qualquer forma, se estes canalhas tentarem mais alguma coisa, tero de se ver comigo. De agora em diante, voc tem algum para cuidar de voc.
Um sinal de aviso ressoou na mente de Jenny. Ela j ouvira esta promessa antes, de outros homens, que nunca ficaram ao seu lado por tempo suficiente para cumpri-la. A comear por seu pai que, em vez de cri-la, sara de casa quando ela tinha apenas seis anos. Secretamente, sempre nutrira a esperana de rev-lo, mas alguns anos atrs descobrira que ele formara uma outra famlia, na Flrida, e morrera de um ataque cardaco, aos cinquenta anos. E fora o fim da histria.
Porm, a moral que retirara dela era que os homens diziam coisas que no tinham inteno de cumprir. E tambm sabia que s contava consigo mesma, para proteger-se.
	No estou querendo um marido de verdade  disse, ento, retomando o assunto inicial.
	E nem eu quero uma esposa de verdade  ele concordou.  Seria um acordo prtico.
	Para mim tambm  Jcnny apressou-se em dizer.
	Voc tem... algum, em sua vida?  Rafe perguntou, ligeiramente hesitante.
	Acha que concordaria com esta ideia, se tivesse?  ela retrucou, exasperada.  Escute, voc ama sua filha, eu amo minha empresa. Estou disposta a lutar para proteg-la, da mesma forma que voc quer manter Cindy ao seu lado.
	Mas no posso arriscar-me num acordo de curto prazo  ele avisou-a.  No quero que Cindy fique traumatizada, se voc abandon-la daqui a um ms, ou um ano.
	Eu nunca faria nada que pudesse magoar Cindy.
	Ento vamos estipular um prazo mnimo de cinco anos, que poder ser renovado com a concordncia de ambos  Rafe sugeriu.
Jenny pensou em quo depressa os ltimos cinco anos haviam se passado. Estivera ocupada em estabelecer-se em seu ramo de negcios, em criar uma empresa. E, no futuro, se dedicaria a expandir, e teria de trabalhar muito mais. Cinco anos poderiam parecer muito tempo, para algumas pessoas, mas para ela no seria tanto assim.
Alm disso, importava-se com Cindy e no faria a garotinha sofrer, por nada neste mundo.
Como se lesse seus pensamentos, Rafe murmurou:
	Voc seria uma boa me para Cindy.
	E, para voc, isto no traria problemas? Isto , eu nem sonharia em tomar o lugar da me de Cindy, e nem seria capaz disto. Quero dizer...  Jenny calou-se, sem saber como expressar-se.
	Sei muito bem o que quer dizer  Rafe assegurou-lhe.
Respirando fundo, ela prosseguiu:
	Se vamos mesmo entrar num acordo, existem alguns detalhes que quero deixar claro. Humm... No sei como dizer.
	Apenas diga.
	Quero certificar-me de que isto no seja um plano elaborado para que voc coloque as mos em minha propriedade  ela desabafou, num s flego.  Bem... Voc no escondeu o interesse que tem neste terreno, para expandir seu restaurante...
Rafe enrijeceu, a expresso tornando-se fria e impaciente.
	Minha filha  muito mais importante do que uma centena de restaurantes!  disparou.  Mas, para tranquiliz-la, farei com que meu advogado redija um contrato, estabelecendo que esta propriedade continue sendo apenas sua, haja o que houver.
	No precisa ficar to irritado  Jenny defendeu-se.  Creio que foi uma pergunta justa, nas circunstncias.
	E tem mais alguma pergunta?
	Se quer saber, tenho, sim. Sua proposta  para um casamento apenas no nome?  ela indagou, o nervosismo tornando-a mais direta do que normalmente seria.
	No necessariamente.
	Mas acabou de dizer que no queria uma esposa de verdade  Jenny lembrou-o, sem saber se ficava triste ou exultante.
	Estava me referindo a uma esposa no sentido tradicional  ele esclareceu.  Afinal, no estamos fazendo um acordo muito convencional, aqui. Ambos tentamos proteger aquilo que nos  mais importante, e que est sendo ameaado.
	Tem razo.
	Porm, isto no significa que sejamos obrigados a negar a atrao que existe entre ns  ele completou.
	Ento, qual  sua ideia?  Jenny perguntou, cautelosa.
	Creio que devemos deixar este assunto em aberto  Rafe respondeu.
 Cinco anos c muito tempo para nos privarmos de um relacionamento fsico, e eu no concordo com qualquer relao, fora do casamento.
	Nem eu, tampouco  Jenny apressou-se em dizer.
	Est vendo como temos muitas coisas em comum? Compartilha mos do mesmo humor, dos mesmos valores morais. J somos amigos e, no h como negar que existe uma forte atrao sexual entre ns. Tudo isto reunido, poderia formar a base para um bom relacionamento.
Jenny percebeu que Rafe evitara, cuidadosamente, usar a palavra amor. E no poderia culp-lo por isso. Afinal, ele fora casado com uma mulher que, parecia bvio, amara profundamente. No era sua culpa, se procurasse algo diferente, desta vez.
E ela tambm no estava  procura de amor, tentou convencer-se. Sempre que um homem dizia que a amava, desaparecia em seguida, comeando pelo seu prprio pai. Desde muito cedo, aprendera que no podia confiar nos homens, e as experincias que tivera no decorrer de sua vida serviram apenas para confirmar esta crena.
Mesmo sabendo que nem todos os homens eram como seu pai, que nem todos abandonavam suas famlias, l no fundo imaginava se haveria algo de errado com ela, que os fazia partir. Assim, antes mesmo de iniciar um relacionamento, ela j esperava, secretamente, o seu desfecho.
E era por isso que este casamento de convenincia com Rafe fazia algum sentido, para ela. Teria um tempo determinado para existir , assim, evitaria o sofrimento futuro da separao. Rafe no estava lhe oferecendo amor, mas propunha-se a receb-la em sua famlia, permitindo que ela participasse da criao de sua filha. E, em troca, ela teria o que desejava: o dinheiro necessrio para montar sua empresa. No era a soluo ideal, certamente, mas um acordo razovel, com o qual seria fcil conviver.
Porm, ela teria de tomar muito cuidado para no se iludir, nem criar falsas expectativas. Rafe deixara claro que no a amava e que, talvez, nunca mais fosse capaz de amar algum.
	Posso prometer-lhe que no farei nada que voc no queira que eu faa  ele disse, quebrando o silncio que se instalara.
	Mas voc  um homem que sempre vai atrs do que deseja  Jenny lembrou-o.
		Tem razo. Porm, por mais que eu a deseje, minha preocupao maior  dar um lar estvel para minha filha.
Ali estava: Rafe no poderia ter sido mais claro. E, ao sentir um vcuo em seu peito, Jenny tentou enganar-se, dizendo a si mesma que estava com fome.
	Ento, o que me diz?  ele indagou.
	Digo que sim.
Como scios fechando um negcio, apertaram-se as mos. Para Jenny, era a coisa certa a fazer, embora no estivesse to segura de qual seria o motivo do intenso calor que brotava dentro de si, com aquele simples toque. S esperava ser capaz de cumprir sua parte no acordo, mantendo o distanciamento que Rafe delimitara.
Retirando a mo bruscamente, ela indagou:
	Bem, e quando vamos nos casar?
	Quanto mais depressa, melhor  ele respondeu.
	Concordo plenamente.
	timo. O que acha de marcarmos para daqui a dez dias? Teremos uma semana para fazer os exames mdicos necessrios e reunir a documentao. E, tambm, para tomar as outras providncias.
	Que tipo de providncias?  ela perguntou.
	Convidar os padrinhos, planejar uma pequena recepo, para depois da cerimnia, estas coisas. No queremos que as pessoas pensem que estamos casando s pressas, pois isto poder levantar suspeitas. Tem de parecer um casamento verdadeiro, ou todo o plano cair por terra. Se Althea, a minha sogra, desconfiar de alguma coisa, no hesitar nem um segundo em entrar com o processo de custdia.
	Isto no vai acontecer  Jenny assegurou-lhe.  Acha que devemos convid-la para o casamento?
	No. Posso mandar-lhe uma comunicao, depois que tudo estiver concludo. Do contrrio,  bem provvel que arme uma cena.
	Puxa, j estou antipatizando com esta mulher, sem ao menos conhec-la.
Rafe assentiu.
	 difcil acreditar que ela tenha tido uma filha to doce como Susan  disse, baixinho.
Jenny sentiu um n na garganta, ao ver aquela mesma melancolia surgir nos olhos dele, como sempre acontecia quando mencionava a esposa. E era algo que ela desejava ter o poder de apagar.
	Ento  disse, com falsa animao,  quando vamos comear a espalhar a novidade?
	Agora mesmo. Vamos para minha casa, contar  Cindy e ao meu pai.
	Agoral
	Por que no?
	Bem...  que conheci seu pai apenas ontem. Espero que ele no ache um tanto estranho anunciarmos nosso noivado to de repente.
	No h nada de estranho nisto  Rafe tranquilizou-a.  Acredite, meu pai ficar encantado. Ele gostou muito de voc.
	E quanto  Cindy?
	Ela ir adorar. Disse que queria que voc fosse morar conosco, ontem  noite, enquanto tomava banho.
	Talvez ela esteja apenas entusiasmada com o fato de eu ser a nova vizinha que faz ursinhos de pelcia  Jenny retrucou, hesitante.   Se eu de fato mudar-me para sua casa, pode ser que ela no goste tanto assim.
	E por que no gostaria?
Ela limitou-se a encolher os ombros.
	Seu pai caprichou mesmo com sua auto-estima, hein?  Rafe comentou, num leve tom de ironia.
	Mal me lembro do meu pai  ela respondeu.

	Mas aposto que se lembra muito bem da dor que ele lhe causou.
Encolhendo os ombros novamente, Jenny desviou o rosto.
	Estou acostumada a abrir meus caminhos sozinha  murmurou.

	Isto  muito bom  ele disse.  Mas, a partir de hoje, voc no estar mais sozinha, Jenny.
	No pense que estou  procura de uma figura paterna  ela falou, defensiva, erguendo o rosto para encar-lo.
	E voc tambm, no pense que meus sentimentos a seu respeito tenham qualquer conotao paternal.  Rafe sorriu.  Por isso, levante-se da e venha comigo.
Jenny obedeceu, olhando para ele. Sim, pensou, passar cinco anos ao lado daquele homem maravilhoso iria exigir muita determinao e auto-controle. Um trabalho duro, na verdade. Mas ela iria conseguir.
Tomada a deciso, Jenny retribuiu-lhe o sorriso e estendeu-lhe a mo.
Depois que os risos provocados pelo ltimo comentrio malicioso de Spud morreram, Hugo expressou sua franca desaprovao:
	Voc no passa mesmo de um campons rude!
	Eu sei, j ouvi isto mil vezes, s hoje.  Spud retrucou, dando uma palmada no ombro do cozinheiro com tal fora, que ele quase dobrou-se.  Voc precisa virar o disco, Huguinho. Pense num outro insulto, use a imaginao!
Furioso, Hugo girou bruscamente e bateu numa pilha de suas preciosas panelas de cobre, fazendo com que cassem ao cho, com um rudo ensurdecedor.
	Veja s que que me fez fazer!  gritou, vermelho de raiva.  No h espao nesta cozinha! Um artista precisa de espao!
	Escutem, vocs dois, isto era para ser uma comemorao, e no uma guerra entre dois cozinheiros  Rafe intercedeu, tentando restabelecer a ordem.
Hugo, que abaixara-se para recolher as panelas, endireitou o corpo, arrumando o enorme chapu branco como se fosse uma coroa real.
	Existe apenas um cozinheiro, nesta cozinha!  proclamou.
	Exatamente  Spud concordou, com um risinho sarcstico.  E voc est olhando para ele.
	Vocs vo acabar fazendo com que Jenny se arrependa da deciso de ser parte de nossa famlia  disse Rafe.
	Voc no vai mudar de ideia, no , Jenny?  Cindy perguntou, preocupada.
	 claro que no, querida  Jenny respondeu, acrescentando mais um abrao, para assegur-la.
	Ainda bem.  Cindy suspirou, aliviada.  Ento voc pode morar aqui e pintar minhas unhas a toda hora.
	Tenho certeza de que Jenny est ansiosa por isto  Chuck brincou. 	Mas no podemos ficar perdendo tempo com conversas. Precisamos fazer uma lista de convidados, planejar o cardpio...
	Espere um pouco, pai  disse Rafe.  Queremos uma cerimnia simples no cartrio, e uma recepo ntima. Por isso, procure no exagerar.
	Exagerar, eu?  Chuck encarou-o, com ar de inocncia.  Ora, meu filho, at parece que voc no me conhece...
	O que aconteceu com a "cerimnia simples no cartrio"?  Jenny perguntou  Miriam, dez dias depois, sentada no banco traseiro de uma limusine branca.
	Ora, Jenny, eu j lhe expliquei mil vezes: Max c o juiz so amigos h anos. E, j que voc recusou-se a casar na igreja, ele insistiu em fazer a cerimnia nos sales da Corte de Justia. Nada mais justo.
	Miriam riu do prprio trocadilho.  Para dizer a verdade, no entendi por que voc no quis a igreja.
Jenny manteve-se em silncio. No podia dizer  amiga que, sabendo que Rafe casara-se com Susan na igreja local, com toda a pompa e circunstncia, no quisera faz-lo passar pela mesma experincia novamente. No fundo, sabia a dor que isto lhe causaria.
E outra coisa que preferira no contar  Miriam fora sobre a natureza prtica daquele casamento. No porque no confiasse nela, pois Miriam era sua melhor amiga. Porm, achara melhor que o segredo permanecesse apenas entre ela e Rafe.
Num impulso sbito, Jenny abraou-a.
	Obrigada por ser uma amiga to maravilhosa, Miriam  disse, sentindo lgrimas nos olhos.  E por concordar em ser minha madrinha, pela pacincia que tem comigo... Nem sei o que seria de mim, sem voc.
Piscando os olhos para afastar as lgrimas, Miriam tentou disfarar a emoo.
	Ora, Jenny, pare com isso. Vai amassar o meu chapu. A propsito, gostou dele?
	 lindo. Adorei todas estas flores e o arco-ris.
	Max no gostou muito,  primeira vista. Mas depois que eu lhe disse: "Como algum que no consegue combinar a gravata com a camisa pode dar alguma opinio sobre um chapu?", ele decidiu que, afinal, achava-o muito bonito.
Jenny riu.
	Sim, Max  um homem esperto.
	Foi por isso que casei com ele  Miriam falou, rindo tambm. Voc sabia que dei alguns conselhos para Rafe?
	 mesmo?
	Sim, fiz questo de ensinar-lhe umas poucas regras para um casamento perfeito, que eu prpria deixo pregadas na porta da geladeira, para que Max nunca esquea. Regra nmero um: A mulher sempre faz as regras. Regra nmero dois: As regras podem ser mudadas a qualquer momento, sem aviso prvio. E, regra nmero trs: os maridos nunca conhecero todas as regras. Porm, a minha preferida  a nmero cinco, que diz: A esposa nunca est errada.
Jenny chorava, agora, mas de rir.
	E o que ele disse?  perguntou, ofegante.
	Nada. Fez como voc: apenas riu. Eu lhe disse que ele era um mensch. E vocs foram feitos um para o outro.
A limusine parou diante da Corte de Justia naquele instante. Tremendo ligeiramente, Jenny deparou com Rafe  sua espera, na escadaria, usando um temo azul escuro, camisa branca e gravata cor de vinho.
Imaginou o que ele acharia da roupa que ela prpria escolhera: um conjunto de saia e casaquinho branco, com uma blusa de seda azul-celeste por baixo. Prendera os cabelos num coque alto e fizera uma maquiagem suave, pintando os lbios com uma batom rosado. Esperava que ele gostasse do efeito final.
Porm, ao receb-la, tudo o que ele disse foi:
	Puxa, graas a Deus que chegou. Cindy est nos enlouquecendo com as perguntas, querendo saber se voc no viria mais.
Era melhor esquecer os elogios..., Jenny pensou, com ironia.
	Onde ela est?  indagou.
	L dentro, com papai. Acho que ele est ensinando-a a jogar pquer.
	Ser que voc no vai fazer nenhum comentrio sobre a aparncia da noiva?  Miriam intercedeu, claramente desapontada com a troca de palavras que acabara de ouvir.
	Tem toda razo, Miriam. Eu sou mesmo um sujeito rude e desajeitado. Voc est linda, Jenny.  Rafe tornou-lhe a mo e beijou-a.
	Humm... Assim est melhor  Miriam resmungou.
	Tenho um presente para lhe dar  ele acrescentou, fitando-a com tal intensidade que, por um instante, Jenny acreditou que aquele era um casamento de verdade.
Encarou-o, confusa, vendo-o pegar um estojo de jias de dentro do bolso.
	Pensei que iramos trocar as alianas durante a cerimnia  falou.
	E vamos. Mas isto no  uma aliana,  um presente de casamento.
Ela cobriu os lbios, envergonhada.
	Mas eu no lhe comprei nada!
	No faz mal. Abra.
Jenny obedeceu e retirou da caixinha uma fina corrente de ouro, onde um pingente de topzio azul-claro, finamente lapidado, reluzia como se tivesse vida prpria.
	Fez-me lembrar da cor de seus olhos  Rafe disse, baixinho. Espero que goste.
	Eu adorei  ela sussurrou.  Obrigada, Rafe,  lindo.
Rafe prendeu a corrente em seu pescoo e deu um passo para trs, a fim de admirar o efeito.
	Ficou perfeito em voc  disse.
	Muito bem, vocs dois, chega de namorar na calada!  Miriam anunciou, com um sorriso.  Est na hora do casamento!
Rafe ofereceu-lhe o brao e, respirando fundo, Jenny acompanhou-o para dentro.
A hora seguinte passou-se como um sonho confuso. Jenny lembra-va-se de cenas esparsas, como Cindy reluzindo de alegria, num vestido florido; o pai de Rafe, todo empertigado em seu terno e sorrindo-lhe com orgulho e confiana; Miriam, enxugando os olhos com um lencinho de rendas... E, ento, tudo estava terminado. Ela dissera sim, Rafe tambm. Chegara o momento de selarem os votos com um beijo.
E esta parte deixou-a nervosa. Sua voz no tremera, antes, mas agora sentia um frio na espinha, um tremor indisfarvel nas mos. Mas tudo aconteceu rpido demais: Rafe segurou-a pelos ombros, e o beijo terminou, antes mesmo de ter comeado. Logo estava sendo abraada efusivamente por Chuck, Spud, e sua querida amiga Miriam.
Porm, no teve tempo de pensar no breve beijo que recebera. Encerrada a cerimnia, seguiram na limusine para o Restaurante Murphy's, onde vrios amigos e convidados esperavam para cumpriment-los.
Uma das convidadas era Miranda e, mais tarde, quando a agitao inicial diminura, finalmente tiveram a chance de conversarem particular.
	Queria lhe dizer que j dei entrada nos documentos para que sua herana seja liberada  Miranda falou.  Voc ter acesso ao dinheiro muito em breve.
	timo. Obrigada, Miranda. Sei que a MegaToys no ficar muito contente, mas eu estou.
	Eles lhe causaram mais algum aborrecimento?
	No, ultimamente as coisas andam calmas. Mas, no dia seguinte que conversei com voc, recebi um telefonema do "chefo" em pessoa, Peter Vanborne.
	E o que ele queria?
	Saber se, por acaso, eu havia mudado de ideia.
	E voc...?
	Disse-lhe que no mudei, nem mudarei. Vanborne no pareceu muito satisfeito.
	Voc no lhe falou nada, a respeito de suas suspeitas, no ?
	No  Jenny respondeu.  Afinal, no possuo qualquer prova.
	Pois agiu muito bem.
	Espero que sim  Jenny murmurou, lanando um olhar para seu marido e rezando para que, naquele caso, tambm tivesse agido corretamente.
Momentos depois, sentada ao lado dele na mesa onde estava sendo servido o bolo, ela perguntou, sorrindo:
	Voc se lembra de ter dito algo a respeito de uma recepo ntima?
Rafe assentiu, com ar desanimado.
	Para meu pai, isto aqui  ntimo  respondeu.  No momento em que ele encarregou-se da lista de convidados, no houve como voltar atrs.
Ela imaginou se Rafe cogitara de voltar atrs.
	E voc se incomoda?  indagou.
	No. Por que deveria?
Porque, Jenny respondeu mentalmente, ele j fora casado uma vez, com uma mulher a quem realmente amava. E, este, era apenas um casamento de convenincia.
Mais uma vez, Miriam salvou-a da melancolia que ameaava assalt-la, chamando o casal para danar a valsa. Jenny mal teve tempo de perceber o que acontecia, e Rafe a tomava em seus braos, levando-a para o centro do salo.
Era a primeira vez que danavam juntos, ela deu-se conta, ligeiramente chocada. Casara-se com um homem com quem sequer danara, antes. Porm, aquele no era um casamento comum; Rafe no era um homem comum...
Jenny seguiu-lhe os passos, respondendo instintivamente a cada movimento de seu corpo. Era uma sensao maravilhosa e, envolta pela msica, permitiu-se sorrir e sonhar, por um breve instante. Naquele momento, ela no era a Jenny Benjamim Murphy, cujo marido preocupava-se apenas em manter a prpria filha junto de si. Era uma mulher apaixonada, nos braos de um prncipe encantado... Era a Cinderela em seu baile.
Porm, como aconteceu com Cinderela, nas doze badaladas o seu sonho estaria terminado. E ela teria de preparar-se para retornar  sua antiga vida... sozinha.
	Puxa, que festa!  Miriam exclamou, quando Jenny e Rafe pararam de danar.
	Sim, foi uma festa e tanto  ele concordou.  Mas est na hora de irmos embora.
	Jenny, no se esquea de jogar o buque!  Miriam lembrou, sempre zelosa de seguir as tradies do casamento.
E ela o fez e, quando virou-se para ver quem o apanhara, dentre tantas jovens solteiras e ansiosas, viu que havia sido... Cindy!
Por entre os risos que se seguiram, ela e Rafe comearam a despedir-se. Depois, saram do restaurante sob uma nuvem de ptalas de rosas e arroz, que Spud encarregara-se de distribuir entre os convidados.
Ouvindo o rudo de latas amarradas na traseira do jipe, Jenny virou-se, acenando para Chuck, Spud, Cindy e Miriam. Todas as tradies de um casamento verdadeiro haviam sido respeitadas, pensou. E, agora, restava-lhe descobrir como seria a lua-de-mel.

Captulo VI

Voc entende porque tivemos de reservar um quarto no hotel para onde vamos, no ?  Rafe perguntou. Acabara de retornar ao volante do jipe, depois de uma parada para retirar a ruidosa fileira de latas da traseira.
	Sim, eu entendo  Jenny respondeu.  Sua ex-sogra poderia investigar e, como voc disse, precisamos manter as aparncias para o bem de Cindy.
	Exatamente. Creio que Althea j anda desconfiada. Voc acredita que ela teve a coragem de ligar para alguns dos nossos convidados, fazendo ameaas?
	No foi s isso que ela teve coragem de fazer  Jenny murmurou.
	O que quer dizer?
	Nada. Esquea.

	De jeito nenhum. Ela no... No me diga que ela ligou para voc?
Jenny assentiu, relutante.
	Eu no pretendia lhe contar  falou.
Rafe praguejou por entre os dentes.

	Meter-se em minha vida  uma coisa. Mas no vou permitir que a incomode. O que ela lhe disse?  indagou.
	Nada demais  Jenny mentiu. Na verdade, a mulher dissera que Rafe ainda amava Susan, e que ningum mais a substituiria, na vida dele. Entretanto, isto era algo que ela j sabia, embora o fato de ouvir algum afirmar to claramente foi o bastante para mago-la.  Ah, e eu descobri uma coisa  juntou.  Sua ex-sogra coleciona ursinhos de pelcia.
	Voc deve estar brincando...
	No,  srio.
	E como descobriu?
	Foi ela mesma quem me disse, um pouco antes de cancelar uma encomenda que fizera para a Ursinho Benjamin e Companhia, semanas atrs.
Rafe tornou a praguejar. Ningum, melhor do que ele, sabia o quanto Althea era vingativa.
	Sinto muito  disse.
	Ora, no precisa. Eu no iria querer que ela tivesse qualquer um dos meus ursinhos, afinal. No  uma pessoa capaz de lhes dar um bom lar.
Rafe no conteve o riso, diante daquele comentrio.
	Voc fala de seus ursinhos como se fossem reais  disse.
	E eles so, para mim. So meus bebs, minha criao.
Ele apanhou-se imaginando se Jenny pretendia ter seus prprios bebs, verdadeiros. Mas logo afastou a ideia: este no era o objetivo daquele casamento.
	Meus ursinhos tm vida prpria  ela continuou dizendo.  A partir do momento em que monto seus rostinhos,  como se adquirissem uma personalidade... sempre diferente uns dos outros. Foi por isso que decidi expandir a confeco e contratar as costureiras: assim, terei mais tempo para criar novos modelos. Na verdade, isto  o que me d mais prazer. Assim que a oficina que montei no celeiro estiver funcionando, poderemos fazer de quarenta a cinquenta ursinhos por semana, enquanto que, sozinha, levo este tempo para fazer apenas um.
	Parece muito trabalho para um nico ursinho  ele comentou.
Mesmo no escuro, pde perceber o brilho nos olhos dela, quando retrucou:
	Algumas coisas valem o trabalho que do.
Rafe no discutiu. E, sem saber o que dizer, achou melhor mudar de assunto.
	Creio que todos acreditaram em nossa desculpa de no sairmos para uma longa lua-de-mel por voc estar ocupada demais com a inaugurao de sua empresa.
	Mas no foi uma desculpa  disse Jenny.   a pura verdade. Eu no poderia afastar-me por mais de uma noite, no ponto em que esto as coisas.
	Sim, mas tambm no podamos evitar de fazer ao menos uma pequena viagem. Seria muito estranho se apenas sassemos da festa e subssemos juntos para o quarto.
Jenny sentiu uma ligeira pontada no peito, diante de tal comentrio. Ento, ele achava que estar com ela era algo estranho? Era como se estivesse admitindo o quanto achava difcil aceitar a ideia de viver ao seu lado.
Bem, para ela tambm seria difcil, pensou, tentando afastar a mgoa que ameaava invadi-la. E, para isso, concentrou-se novamente na nica coisa que realmente era sua... a empresa.
	Estou admirada com a rapidez com que o sr. Fadden terminou a reforma no celeiro  disse.  Est quase tudo pronto e, finalmente, poderemos inaugurar a oficina daqui a dois dias.
Rafe assentiu.
	Sim, Fadden  um trabalhador responsvel. Eu poderia t-lo indicado desde o incio, se voc tivesse me perguntado  afirmou, com  um ar de superioridade que deixou Jenny irritada.
Aquilo era to tipicamente masculino..., ela pensou, contendo o impulso de dar vazo  sua raiva. Rafe no falara muito, desde que comearam a viagem. Mas tudo o que dissera fora errado.
	No use esse tom condescendente comigo  disse, ento.
	Que tom condescendente? Eu estava apenas falando a verdade.
	Sim, mas num tom de quem acha que eu sou incapaz de pensar sozinha!
	Ora, voc est exagerando...
	No.  voc quem est me ofendendo.
Ficaram era silncio, de repente. Jenny endireitou-se no assento, olhando fixamente pela janela, imaginando quantos casais iniciariam a lua-de-mel com uma discusso.
Pensativa, girou no dedo a aliana de ouro. No estava acostumada a usar anis, pois a incomodavam, quando fazia seus trabalhos de costura. Porm, pensou, teria de acostumar-se com aquele, que agora parecia arder em sua pele, numa reminiscncia do toque de Rafe, quando o colocara em seu dedo. A lembrana a fez suspirar.
Ouvindo o suspiro, Rafe reletiu que daria qualquer coisa para saber o que ela estava pensando. Jenny agia como um animalzinho arisco: inquieta, insegura, na expectativa de um perigo iminente. Aquela prometia ser uma longa noite...
Quando chegaram ao hotel, e foram para o quarto, as coisas ficaram ainda mais tensas. Jcnny percebeu que Rafe mal pde esperar para deixar a bagagem c descer para o restaurante, e imaginou se ele estaria mais interessado em checar a qualidade de um possvel concorrente do que estar a ss com ela.
O jantar foi uma experincia estressante. Rafe mantinha-se em silncio e, desesperada, Jenny tentou iniciar uma conversa:
	O tempo est agradvel, no acha?
Ele no respondeu. Ela tentou novamente:
	Est quente para o fim de outubro, no ?
Nenhum comentrio. Mais uma tentativa:

	E as folhas nas rvores? Esto to lindas... Ficam sempre assim, coloridas?
	Acho que sim.
Bem, j era o bastante, Jenny pensou, exasperada. Tentou ficar quieta por um instante, mas no conseguiu.
Ambos falaram ao mesmo tempo, ento:
	Voc est...?
	Voc tem...?
	Fale primeiro  disse Rafe.
	Eu s queria saber se voc est gostando do seu fil  ela respondeu.
	 o mesmo que voc est comendo.
	O meu est muito bom. Sabe, uma vez me disseram que se voc tomar um sorvete de limo junto com um fil, o paladar fica ainda mais apurado.  Jenny calou-se, imaginando o quanto seu comentrio parecera tolo.
E, embora Rafe fingisse demonstrar interesse em ouvi-la, era evidente que no estava prestando a menor ateno.
Foi quase um alvio, escapar da tenso do restaurante. Ou, pelo menos, foi o que Jenny pensou, at que chegaram ao quarto. Fez o possvel para ficar longe dele, enquanto retirava suas coisas da valise.
	Quer usar o banheiro primeiro?  ele sugeriu, do outro lado do quarto.
	Sim, obrigada.  Jenny pegou o robe e o pijama e correu para o banheiro, fechando a porta rapidamente.
O rudo da porta sendo trancada ressoou na mente de Rafe. Era bvio que Jenny no confiava nele, a despeito do fato de ele ter se comportado da melhor maneira possvel, durante o curto noivado. Foram dez dias em que mal tivera tempo de falar com ela ao telefone, pois o trabalho no restaurante havia sido frentico, naquela semana, com duas recepes de casamento marcadas, alm da sua prpria.
E Jenny parecia mais tensa e nervosa, a cada minuto que se passava. Talvez estivesse com medo que ele a agarrasse, obrigando-a a fazer o que no desejava.
Bem, teria de lhe provar o quanto estava errada: iria comportar-se como um perfeito cavalheiro, nem que isto o matasse.
Durante o jantar, fora incapaz de concentrar-se na conversa, toda sua ateno voltada para os lbios dela, midos e macios, para a maneira como ela mexia nos cabelos, nos movimentos de seu rosto, no brilho de seus olhos...
Porm, lembrou a si mesmo que prometera a Jenny que no a foraria a nada... Daria tempo ao tempo. Afinal, teriam cinco anos pela frente, no precisariam fazer amor naquela noite.
Porm, mesmo enquanto pensava nisto, seus olhos dirigiram-se para a cama de casal. Imaginou-se ali, beijando-a, acolhendo-a em seus braos, sentindo-lhe o corpo nu contra o seu, ardente, pulsante...
Praguejando baixinho. Rafe afastou-se da eama. Foi at a janela e abriu-a de todo, respirando fundo o ar frio da noite de outono.
	Voc est bem?  Jenny perguntou, saindo do banheiro.
	Sim, tudo bem. S preciso de um pouco de ar fresco. Volto daqui a pouco.  E saiu do quarto, antes que Jenny pudesse pronunciar uma palavra.
timo, ela pensou. Provavelmente Rafe estava pensando na esposa... na esposa verdadeira, aquela a quem ele realmente amara. S isto explicaria a expresso dolorosa que vira em seu rosto.
Parecia-lhe cada vez mais evidente que Rafe no conseguia sequer ficar no mesmo quarto que ela. Jenny sentiu uma dor profunda invadi-la, enquanto lgrimas surgiam em seus olhos. Que maneira maravilhosa de se iniciar um casamento, pensou, com amarga ironia.
Retirou a colcha da cama e ajeitou os travesseiros, numa tentativa de ocupar-se para no pensar. Mas foi em vo. Sua mente fervilhava, imaginando como seria dormir ao lado dele. Entretanto, pensou, no deveria estar to preocupada. Afinal, Rafe deixara bem claro, desde o incio, que s casara com ela por causa da filha.
E, mesmo sabendo que, em algum momento, o relacionamento deles acabaria tornando-se mais ntimo, tinha certeza de que isto no aconteceria da noite para o dia. Afinal, aquele casamento no fora baseado nem no amor, nem na paixo, embora ela pressentisse que Rafe a desejava, pelo menos um pouco. Quando no estava pensando em sua perfeita Susan.
A porta abriu-se, ento, e ele entrou. Num gesto instintivo, Jenny prendeu a gola do robe contra o pescoo, tentando cobrir-se. A atmosfera no quarto era densa, pesada.
	Pode deitar-se  disse ele, indicando a cama com um gesto.  Estou sem sono e vou assistir um filme na tev.
Com estas palavras, pegou o controle remoto e sentou-se numa poltrona, sem mover um msculo enquanto Jenny tirava o robe e enfiava-se sob as cobertas.
	Importa-se se eu apagar a luz?  ela perguntou, com um n na garganta.
	No, tudo bem.
Jenny permaneceu deitada, imvel, por quase uma hora. Lutava para conter as lgrimas, que pareciam prestes a explodir desde o instante que haviam chegado naquele quarto. Porm, a despeito de seus esforos, elas surgiram lentamente, correndo pelo seu rosto, silenciosas. Esperava que, entretido com o filme, Rafe no percebesse, mas estava enganada.
	O que aconteceu?  ele perguntou, aproximando-se da cama.
	Nada  ela respondeu, escondendo o rosto no travesseiro.
	No consegue dormir?
	Estarei bem, num minuto.
	Est certo.
Ela no podia acreditar! O idiota acreditara em sua desculpa, e estava voltando para assistir aquele filme estpido! Sentou-se na cama, subitamente furiosa.
	Escute aqui, eu no me caso todos os dias! E no   toa que estou chorando como uma boba! Eu nunca choro! Nunca! Odeio chorar, especialmente na frente de estranhos!
	Eu no sou um estranho  ele lembrou, secamente.  Sou o seu marido.
	Bem, no estou acostumada a chorar na frente de maridos, tampouco  ela tornou, agora totalmente tomada pelo pranto.
	Est tudo bem...  ele tranquilizou-a, sentando-se ao seu lado e puxando-a para si.
	Vou molhar sua camisa...
	No faz mal.
	Estou muito cansada  Jenny tentou justificar, entre soluos e lgrimas.  No tenho dormido muito bem, ultimamente.
	Eu sei.  Rafe recostou-se nos travesseiros, e ergueu as pernas para cima da cama, movendo-se devagar, como se temesse assust-la.
 Feche os olhos, agora, e relaxe.  Passou a acariciar-lhe os cabelos, num gesto suave e calmante.  Pode confiar em mim e tudo ficar  melhor, depois que voc descansar um pouco.
Jenny sentiu os olhos pesados. Depois do desabafo, o peito ficou mais leve, a respirao mais fcil. Aos poucos, seu corpo foi relaxando e ela fechou os olhos, pensando que iria descansar apenas por uns minutinhos... Quando tornou a abri-los j era dia claro, e ela continuava com a cabea recostada no peito de Rafe. Ele tambm adormecera, embora em algum momento, durante a noite, tivesse puxado as cobertas sobre ambos. Continuava vestido, com a camisa branca toda amassada, c no parecia muito confortvel.
Como se sentisse o olhar dela sobre si, ele acordou. Fitou-a por um instante, focalizando seus lbios entreabertos. Quando Jenny reconheceu suas intenes, ele j estava inclinando o rosto, aproximando-se para beij-la. Porm, antes que o beijo se concretizasse, ele emitiu um gemido rouco e endireitou-se, massageando a nuca dolorida.
	Acho que estou velho demais para estas coisas  murmurou.
Sentindo-se responsvel pelo seu desconforto, ela disse:
	Desculpe-me por ter chorado em seu ombro, Rafe. Mas voc no precisava ter me abraado a noite inteira.
	Voc estava se sentindo to solitria...
	O qu?  Jenny esquivou-se dele, indignada.  Voc achou que eu estava solitria, e por isso sentiu pena de mim e decidiu ser bonzinho?
	No foi isto que eu disse...
	Mas foi o que quis dizer!
	No coloque palavras em minha boca, Jenny. Eu sei muito bem o que quis dizer.
	Ento, diga!
	Ora, isto  ridculo.
	Concordo plenamente  ela disparou.  E posso assegurar-lhe que no preciso de sua piedade!
	Eu no estava sentindo pena de voc  ele disse, baixinho.
	O que estava sentindo, ento?
	Isto...  Rafe tomou-a nos braos, pressionando-a contra si, fazendo-a sentir sua excitao.  Acha que isto  piedade?
Mas Jenny estava decidida a no ceder to facilmente, desta vez.
	No pense que basta abraar-me, toda vez que estiver sem argumentos  retrucou.
	Eu desisto...  ele suspirou, exasperado.
	E no se atreva a me beijar, antes de esclarecermos tudo!
	Por que no? Afinal, esta parece ser a maneira que melhor nos entendemos.
	No consigo pensar, quando voc faz isto.
	Ento no pense.
	Voc disse que no iria me apressar  ela lembrou.
Rafe afastou-se um pouco e franziu a testa, encarando-a. 
	Mas no posso impedir-me de corresponder, quanto sinto que voc est disposta  disse.
	Ah, agora  tudo minha culpa!  Jenny pulou para fora da cama, pousando as mos nos quadris e fitando-o com raiva.  Voc sabe ser ofensivo quando deseja, no c, Murphy?
	Voc tambm  uma Murphy, agora. No se esquea disto.
	No tenho tempo de ficar aqui discutindo com voc.
	Foi o que voc disse, na primeira vez que nos encontramos  ele lembrou, recordando-se de que cia tambm estava com as mos na cintura, e que cada curva de seu corpo o deixava enlouquecido.
	E  por isso que quero esperar, antes de irmos mais longe...  ela dizia.  Porque s no discutimos quando estamos...  Deixou a frase no ar. Algo no olhar dele fez com que seus braos se erguessem at a altura dos seios, num gesto instintivo de proteo.  O que quero dizer  que devemos aprender a conviver juntos.
	Acho isto um pouco difcil, j que voc interpreta mal tudo o que eu digo  ele defendeu-se, irritado pelo tom repreensivo com que ela falara.
E  irritao dele contagiou-a.
	Se voc me dissesse o que est pensando, em vez de mergulhar num silncio depressivo, talvez fosse mais fcil conversarmos  disparou.  Provavelmente sua preciosa Susan era capaz de ler seus pensamentos, mas eu no possuo o mesmo dom!
Jenny soube que cometera um grave erro quando a expresso dele fechou-se, endurecendo subitamente.
	Precisamos de mais tempo para nos conhecer melhor  juntou, num tom conciliador, tentando consertar o estrago.
Mas no adiantou.
	Tudo bem  ele disse, breve e seco.  Tenha o tempo que quiser.  Foi para o banheiro c bateu a porta. Segundos depois, Jenny ouviu a gua do chuveiro correndo.
Ela tambm queria correr... direto para a sada mais prxima! Havia posto tudo a perder, cometera o pecado mais grave, ao mencionar Susan. Porm, no estava disposta a ir para a cama com ele e sentir-se como um paliativo para sua dor, como uma mera substituta daquela a quem ele realmente amava.
O caf da manh transcorreu sob a mesma atmosfera pesada do jantar na noite anterior. Jenny mal conseguiu comer, sentindo um n no estmago.
	Ser que no pode relaxar um pouco?  Rafe resmungou.  No vou atac-la por baixo da mesa, nem estupr-la. Por isso, acalme-se e coma alguma coisa.
	Escute, Rafe, isto no vai dar certo, se continuarmos nos agredindo a todo instante  ela falou, mantendo a voz controlada.  Precisamos ao menos tentar nos entender. Sei que no  fcil aprender a viver com outra pessoa.
	E como pode saber?  ele indagou, desconfiado, sentindo o sangue ferver com a ideia de que ela pudesse ter vivido com um outro homem, no passado.
	Porque foi difcil, quando passei a morar com meus avs, depois que fiquei rf  ela respondeu.  Mas, no final, tudo acabou dando certo. S gostaria que fizssemos uma trgua, neste perodo de ajustamento.
	Uma trgua?
	Sim. Um cessar-fogo temporrio.
	Com cada um de ns retornando ao seu respectivo canto do ringue, no?
Ela fez que sim.
	Tudo bem.  Rafe encolheu os ombros. - Se  isto o que voc quer.
Jenny no sabia mais o que queria, e isto a deixava perturbada. Porm, nada a perturbava mais do que saber que iria conviver com Rafe, compartilhar a mesma cama com ele, nos prximos cinco anos. Porque, quando voltassem para casa, seria exatamente isto que fariam.

Captulo VII

Papai, voc voltou! Senti tanta saudade!  Cindy exclamou, correndo para encontr-los assim que estacionaram diante do Murphy's.
Abaixando-se, Rafe abraou a filha e ergueu-a no colo.
	Tambm senti saudades, princesa.
	Tenho uma pergunta, papai.
Ele riu.
	Voc sempre tem milhes de perguntas. Mas v em frente, o que quer saber, agora?  ele disse, rezando para que ela no viesse com aquela histria dos bebes novamente.
	Eu devo chamar Jenny de mame?  a garotinha indagou.
Rafe sabia que a pergunta viria, mais cedo ou mais tarde, e at preparara-se mentalmente para ela. Contudo, no pde evitar uma pontada de culpa, pela memria de Susan. Para sua surpresa, Jenny veio em seu socorro.
	Voc pode continuar me chamando de Jenny, se quiser  ela disse.  Mas, se algum dia tiver vontade de chamar-me de mame, tambm estar timo. Serei sua segunda mame.
	Que bom. Sabe por qu?  Cindy estendeu as mozinhas, mostrando que o esmalte que Jenny passara em suas unhas poucos dias atrs j estava todo descascado.  Preciso pintar as unhas de novo.
	Ei, princesa, d um tempo para Jenny acomodar-se e descansar um pouco, antes de comear a pedir para que ela brinque de manicure, certo?  Rafe intercedeu, deixando a menina no cho.
	A "lua-de-cu" foi interessante?  Cindy perguntou.
	 "lua-de-mel" que se diz. E, sim, foi tudo bem  Rafe respondeu, pegando as valises.
Jenny acompanhou-o para dentro do restaurante, que ainda estava fechado para o pblico. Passou pelo salo de refeies vazio e subiu as escadas para o andar de cima, dando-se conta, subitamente, de que agora percorria aquele trajeto como esposa de Rafe.
Ela j estivera no quarto dele, antes, quando trouxera algumas de suas coisas, guardadas em caixas. O cmodo ocupava todo o terceiro pavimento da casa, que antigamente servia de sto. Era amplo, espaoso, com um banheiro anexo e dois closets, um deles vazio, que Rafe lhe reservara.
Jenny parou na soleira da porta, estremecendo ligeiramente, como se estivesse com medo de entrar. Naquele momento, sentiu a presena de Susan; era como se invadisse um espao alheio.
Percebendo sua hesitao, Rafe aproximou-se por trs e disse, num tom suave:
	Susan nunca dormiu aqui. Mandei reformar o sto s depois
que ela morreu. Antes, ocupvamos o quarto maior, no andar de baixo.
Jenny mantcve-se em silncio, olhando para o cmodo amplo e quase vazio. O carpete era azul escuro, as paredes brancas, sem nenhum quadro ou enfeite. E havia apenas a cama de casal, duas mesas de cabeceira e uma poltrona.
	Esta  sua casa, agora  ele juntou.  Quero que se sinta  vontade para mudar qualquer coisa que quiser.
Porm, ela no se sentia em casa. Na verdade, mal acabara de acomodar-se na casa que comprara, e j estava mudando-se.
	Creio que devemos discutir qual seria a melhor maneira de dormirmos juntos, aqui  Rafe continuou dizendo.  Tenho uma cama dobrvel que posso armar todas as noites, at que tudo se ajeite.
Ela assentiu.
	Para mim est timo  concordou.
	Mas no ser para voc. Eu vou dormir na cama extra.
	Ora, isto  tolice  ela falou.  Voc j tem sua cama.
	A cama dobrvel no  muito confortvel...
	No faz mal. Eu durmo em qualquer lugar.
Rafe encolheu os ombros.
	Voc  quem sabe. Mas devo lembr-la de que minha cama  grande o suficiente para ns dois dormirmos sem problemas.
Sem problemas?, ela pensou. Ento era assim que ele a classificava? Engolindo o ressentimento, afirmou:
	Vou ficar na cama extra, e ponto final.
	Como quiser.
A cama dobrvel realmente era muito desconfortvel, Jenny descobriu, enquanto tentava dormir, naquela noite. Estreita demais, dura demais... Ela suspirou, desejando estar em sua casa, em sua cama, entre seus lenis macios e perfumados. Suspirou novamente.
	Isto  ridculo!  Rafe exclamou, sentando-se na cama de casal e acendendo a luz.  Voc no vai conseguir dormir nesta coisa.  Puxou as cobertas do lado oposto ao que estava.  Venha para c.
Jenny hesitou.
	Escute, voc no tem nada a temer de mim, esta noite  ele afirmou, juntando em seguida, num tom de desafio:  A no ser que no confie em si mesma.
Ela encarou-o, desconfiada.
	Como tem tanta certeza de que no tenho nada a temer?  perguntou.
	Porque estou de mau humor. Agora, voc vem, ou prefere ficar nesta cama de pregos?
Jenny concluiu que seria melhor ter o orgulho ferido do que uma insuportvel dor nas costas, no dia seguinte. Assim, fez o que ele dizia e deitou-se na beirada do colcho, cobrindo-se rapidamente.
Desta vez, foi ele quem suspirou.
	Deite-se direito, ou vai acabar caindo da cama durante a noite  disse.  No se preocupe, h bastante espao e no vou sequer encostar em voc.
Ela acomodou-se melhor, sentindo-se uma idiota por ter tanto medo da presena dele. Aos poucos, no entanto, conseguiu relaxar. Seu ltimo pensamento foi uma anotao mental para comprar lenis novos, to macios quanto os que tinha em casa.
Rafe ficou observando-a, admirado com a rapidez com que ela adormecera. Um plido raio de luar penetrava pela janela, iluminando-lhe o perfil... os contornos suaves da face, a curva de seus lbios, os longos clios.
Inclinando-se um pouco, afastou uma mecha de cabelos que lhe caa no rosto, contendo um impulso de acariciar a pele clara e sedosa. Ali, imerso na escurido, admitiu a si mesmo que seus sentimentos em relao  sua nova esposa eram muito maiores e mais fortes do que desejaria. E, francamente, isto o assustava.
Na noite anterior, Jenny dissera que precisava de tempo. E, agora, ele estava pronto para concordar com ela. Tambm precisava de tempo para lutar contra o sentimento que ameaava transformar-se de simples atrao fsica, em algo muito mais poderoso.
Jenny acordou sentindo-se abrigada e protegida. Precisou de dois segundos at perceber que estava envolta pelos braos de Rafe, pela segunda vez, em dois dias. Estava comeando a habituar-se a isto, o que no era nada bom.
Ou melhor, era bom demais, corrigiu-se, decidindo ficar ali s mais um pouquinho, enquanto ele ainda estava dormindo.
Permaneceu imvel, sentindo o calor e o perfume de sua pele, vendo a mo, pousada no peito dele, subir e descer, a cada vez que ele respirava. Podia at ouvir-lhe as batidas do corao, lentas, compassadas.
Sim, pensou, eu poderia acostumar-me a isto. E este era o problema. No podia permitir-se a depender demais de Rafe. Sua situao era temporria e suas emoes... completamcnte descontroladas.
Jcnny admitia que sentia-se atrada por Rafe, e muito. Mas isto no era tudo. Ele tambm inspirava-lhe outros sentimentos, como a admirao, afeio, amizade, raiva, irritao... a lista era imensa.
E quanto ao amor?, uma vozinha dentro de si indagou. No gostaria que ele a amasse? Tanto quanto amara Susan? Que a considerasse o centro do universo, a luz do sol, o ar que respirava?
Voc no deve desejar o que no pode ter, seu av sempre lhe dizia, quando ela chorava pedindo-lhe um gatinho.  pura perda de tempo.
Porm, ela mudara muito, desde ento. Aprendera que, quando se deseja alguma coisa, deve-se lutar por isto, at conseguir.
Apoiando-se num cotovelo, ergueu-se e ficou observando o rosto adormecido de Rafe. Ele era to bonito... Ficou tentada a acarici-lo, passar a ponta dos dedos em sua pele, no contorno de seus lbios. Porm, temendo acord-lo, apenas afastou os cabelos que lhe caam na testa. Ele moveu a cabea em sua direo, como se esperasse por mais um carinho. E, ento, sussurrou um nome:
	Susan...
Jenny pulou da cama como se esta estivesse em chamas, sem importar-se se o acordava ou no.
	O q-qu...?  Rafe abriu os olhos, a tempo de v-la correr para
o banheiro e bater a porta, com toda fora.
Sentou-se na cama, franzindo a testa, desorientado pelo sonho que acabara de ter com Susan. Tentava segui-la, mas sempre que estava prestes a alcan-la ela se virava, balanando a cabea e fazendo um gesto para que voltasse. Mas, voltar para quem?, perguntou-se. Para Jenny?
Jenny demorou-se no banho, esperando que a gua quente lhe devolvesse um pouco de juzo. A quem estava tentando enganar?, pensava.
De nada adianta querer algo que no podia ter. Seria pura perda de tempo. E de energia.
Saiu do chuveiro, enxugou-se e s ento percebeu que no pegara nenhuma pea de roupa, antes de entrar no banheiro. No tinha outra escolha, portanto, seno enrolar-se na toalha e voltar para o quarto. No podia dar-se ao luxo de se atrasar, pois aquele era o grande dia da inaugurao de sua empresa, e no permitiria que nada, nem ningum, a atrapalhasse. -Nem mesmo Rafe.
Endireitando os ombros, abriu a porta do banheiro e foi direto para o closet, sem olhar para Rafe, que continuava na cama.
	Sabe de uma coisa?  ele disse.  Sempre fiquei imaginando como as mulheres conseguem prender a toalha, sem deixar que ela caia... J tentei muitas vezes, mas ela nunca fica presa na cintura. Basta dar um passo e pronto... cai direto no cho.
Por um breve instante. Jenny fez uma imagem mental de Rafe parado, com a toalha de banho aos seus ps, sem nada no corpo alm das gotas de gua... Porm, afastou a figura ertica da mente, pegou um conjunto de cala comprida verde escuro, calcinha, suti, e voltou para o banheiro, sem dignar-se a lhe responder.
	Por que tenho a impresso de que voc est zangada comigo?
 ele tornou a indagar, atravs da porta fechada.
	Talvez porque eu esteja mesmo zangada com voc  ela respondeu.
	Ser que posso saber o motivo?   
	No.
	Ah, j sei. Tenho de ler seus pensamentos, no ?  disse Rafe, quando ela abriu a porta.
Enviando-lhe um rpido olhar, Jenny limitou-se a dizer:
	At logo, Rafe. Tenha um bom dia.
	Ei, espere um pouco! Onde voc vai?
	Trabalhar. A inaugurao da minha empresa  hoje, caso voc tenha esquecido.
	Eu no me esqueci.  Dias atrs, ele se oferecera para acompanh-la na inaugurao, mas Jenny declinara, dizendo que j estaria nervosa demais sem a presena dele. Assim, encomendara algumas flores.
Obscrvando-a, Rafe reparou em como ela estava bonita e atraente, com aquele conjunto de seda verde. Os contornos do corpo eram apenas sugeridos e, fechando os olhos, imaginou-lhe a curva da cintura, as pernas, os seios macios...
Chocada pela maneira como ele fechara os olhos e, conseqiiente-mente, a dispensara, Jenny explodiu:
No, voc nunca se esquece de nada, no ? Agarra-se como um louco ao passado, no permite que ele se v!
Rafe fitou-a, com a expresso sria.
	Acho que posso dizer o mesmo de voc  afirmou.
	O que significa isto?
	Significa que no sou o nico que carrega cicatrizes por aqui, Jenny.
	Talvez no. Mas 6 o nico que pronuncia o nome de outra pessoa, quando estamos juntos na cama!  ela disparou, saindo em seguida.
	Voc chegou muito cedo  Miriam queixou-se, quando Jenny entrou no celeiro.  Ainda no estou pronta para voc. Volte para fora.
	O que est fazendo em cima desta escada?
	Pintando as unhas  Miriam retrucou, impaciente.  O que acha que estou fazendo? Tentando colocar uma faixa, aqui, mas ela no est cooperando. E nem voc. Isto era para ser uma surpresa.
	No posso entrar em meu escritrio, Miriam.
	Exatamente. E nem  para entrar, enquanto no chegar a hora da cerimnia.
	Que cerimnia?
	De cortar a fita,  claro  Miriam respondeu, exasperada. Afinal, isto  ou no  uma inaugurao?
	De onde vieram todas estas flores?  Jenny indagou.
	Da floricultura  a amiga resmungou.  Agora, chega de perguntas e arrume alguma coisa para fazer.
	Sim, senhora.
	E fique sabendo que estragou minha surpresa. Deveria estar se remoendo de remorsos.
Jenny apagou o sorriso do rosto e fingiu uma expresso de tristeza.
	Assim est melhor?  perguntou.
	Sim, bem melhor. D-me aquele martelo, por favor.
	No quer que eu faa isto?  Jenny ofereceu-se.
E no precisou falar duas vezes. Miriam desceu da escada e entregou-lhe um punhado de pregos, para que ela acabasse de prender a faixa.
Percebendo que Jenny batia no prego com um pouco mais de fora do que o necessrio, Miriam indagou:
	Como foi a lua-de-mel?
	Tudo bem.  Jenny bateu ainda mais forte.
	Por acaso voc e Rale brigaram?
	Por que pergunta?
	Bem, da maneira como est martelando este prego,  capaz de mand-lo at a China.
	Os homens so impossveis  Jenny afirmou.
Est se referindo a, todos os homens, ou a apenas um, em particular?
Jenny suspirou.
	No ligue para o que estou dizendo. S quero que tudo corra bem, hoje.
	Ahj vai dar tudo certo  a amiga assegurou-lhe.  Vamos ter uma grande festa e...
	Mas no to grande quanto a do meu casamento  Jenny interrompeu.  Gostaria que nossa comemorao fosse numa escala menor.
	No gostou do seu casamento?
	No foi isto que eu quis dizer.
	O que quis dizer, ento?  Miriam insistiu.
	Nada. Acho que estou um pouco nervosa.
	Ora, Jenny, no se preocupe. Voc  uma mulher forte, destinada para o sucesso. E ter tudo o que merece, acredite.
Jenny desceu da escada e abraou a amiga.
	O que fiz para merecer algum como voc?  perguntou, afetuosamente.
	Deve ter sido algo muito bom  Miriam brincou.
	Sim, tem razo  Jenny riu.
	Fiz um chapu especial, para hoje  disse Miriam, colocando o novo modelo na cabea.  Est vendo? E todo prpura, e tem este ursinho aqui, que apliquei no lado. O que acha?
	E lindo. E Max, gostou?
	Ele disse que  uma obra de arte. Depois de trinta anos de casamento, finalmente ele est aprendendo.
	 porque voc  uma tima professora, Miriam.
	Esta  uma das razes porque gosto tanto de voc, Jenny: o seu bom gosto. Quem imaginaria, cinco anos atrs, quando nos conhecemos, que acabaramos inaugurando uma verdadeira confeco de ursinhos de pelcia? Olhe s para eles...  Miriam fez um gesto na direo do grande mostrurio que haviam arrumado numa das reas do celeiro.
Benjamim e Bonita ocupavam o lugar de honra, sentados juntos numa rplica de um banco de jardim, cercados de flores. Os vrios modelos de ursinhos Bambino, vestidos com roupas diversas, encontravam-se logo atrs, bem como o Vov-Urso, muito srio e compenetrado com seus novos culos.
Num conjunto  parte, estavam os modelos exclusivos de Jenny, aqueles que ela fazia sob encomenda e, dos quais no haviam cpias. Numa estante envidraada, ela arrumara os ursinhos artsticos de sua coleo particular, a maioria deles muito antigos e raros.
Jenny olhou em torno do estdio, certificando-se de que tudo estava perfeitamente arrumado. Ali estavam as bancadas de trabalho, as mquinas de costura, estantes com todo o material necessrio para a confeco, separado por cores e texturas. Sim, tudo parecia em seu lugar...
	J chega de conferir, Jenny  Miriam falou, despertando-a. Chegou a hora de abrirmos a confeco, pela primeira vez. Seus clientes e suas funcionrias esto l fora, esperando. E Max tambm, com a vdeo-filmadora.  Aproximou-sc da amiga e deu-lhe um abrao apertado.  Voc conseguiu, Jenny. Transformou seu sonho em realidade.
Jenny s voltou para a casa de Rafe por volta das oito da noite. Fora um dia longo e cansativo, mas muito proveitoso. A inaugurao fora um sucesso e at reprteres do jornal local haviam aparecido, tirando fotos da oficina e dela prpria, cercada pelos seus ursinhos, o que seria uma tima publicidade.
Embora cansada, Jenny sentia-se satisfeita pelo bom dia de trabalho, no qual tivera o prazer de ver seus sonhos transformados numa fileira de novos ursinhos, confeccionados pelas costureiras: enquanto uma cortava os moldes, a outra montava e, uma terceira, costurava.
Ela continuava dando os retoques finais, costurando o nariz, os olhi-nhos e orelhas, levando, s vezes, horas a fio at conseguir o efeito desejado.
Na verdade, naquele dia estivera to agitada que picara o dedo com a agulha. Olhando para o pequeno ferimento, agora, lembrou-se da ltima vez que isto acontecera: ela fora com Rafe e Cindy no piquenique, no dia seguinte, e fora a primeira vez que sentira os lbios dele em sua pele. Deveria ter adivinhado, ento, que o breve arrepio que sentira acabaria se transformando em algo muito mais poderoso e incontrolvel.
Rafe guardara-lhe o jantar e, quando ela chegou, a fez sentar-se na cozinha da famlia e colocou o prato  sua frente.
	Humm...  disse Jenny, aspirando o aroma.  Parece delicioso. O que ?
	Nas palavras de Hugo, tournedos de veau  1'oseille. Mas  mais fcil dizer que  vitela com molho de ervas frescas. Ah, e Cindy est esperando que voc v lhe dizer boa-noite.
Quando acabou de comer, encerrando a refeio com um delicioso pudim de caramelo, Jenny acompanhou Rafe para o andar de cima.
Encontrou Chuck tentando, sem sucesso, interessar a neta na leitura de Moby Dick.
	Quero ouvir a histria da Bela Adormecida  a menina pediu.  S que, desta vez, papai tem de beijar Jenny, como o prncipe do livro.
	Ordens superiores  Chuck brincou, saindo do quarto e deixando os trs a ss.
Enquanto Jenny lia as partes da princesa Aurora, sua mente prenunciava o momento da histria em que seria despertada com um beijo do prncipe. No fundo, esperava que Rafe pulasse aquele pedao, como fizera da outra vez.
Porm, j devia saber que Rafe raramente agia como se esperava. Quando o momento chegou, inclinou-se em sua direo, imobilizando-a com a fora de seu olhar. Pousou os lbios sobre os seus, ento, sutil-mente, embora houvesse um fogo ardente, sob a superfcie. Podia ser um beijo inocente, para quem olhasse, mas Jenny sentiu uma fora ertica oculta, capaz de deix-la em brasas.
	E eles viveram felizes para sempre  cie murmurou, com os
lbios quase colados aos dela.
Cindy aplaudiu entusiasmada, antes de pular na cama, reunindo-se a eles num abrao apertado.
	Eu prefiro as histrias com final feliz!  exclamou.
Jenny pensou que ela tambm preferia, mas deixara de acreditar nelas desde que tivera a idade de Cindy.
	Tenho boas notcias  Rafe anunciou  Jenny, entrando no quarto, horas mais tarde.  Acabei de receber um telefonema do advogado de Althea.
	No  muito tarde para um advogado estar ligando?  ela comentou, com um rpido olhar para o relgio da cabeceira.
	No quando recebe a fortuna que Althea deve estar pagando  Rafe respondeu.  De qualquer forma, ele disse que com o nosso casamento, e graas  sua excelente reputao, ele aconselhou Althea a desistir do processo de custdia de Cindy, limitando-se a uma garantia de direitos de visita.

	Mas isto ela j tem, no ?  Jenny indagou.  Alguma vez voc a impediu de visitar a neta?
	 claro que no. Mas Althea  paranica. Quer os direitos garantidos, e eu concordei. Nunca quis afast-la de Cindy, apenas no podia permitir que ela tirasse minha filha de mim.
	E isto ela no pode mais fazer, certo?
	Certo.
	Bem, ento as notcias so timas  ela concordou, com um sorriso.
Pelo menos alguma coisa boa decorrera daquele casamento, pensou.
Na verdade, tudo correra como planejado: Rafe pudera manter Cindy consigo, e ela acabara de inaugurar sua empresa. Se pelo menos seus sentimentos estivessem to bem organizados...
	O que  isso, no meio da cama?  Rafe perguntou, sentando-se para tirar os sapatos.
	E uma antiga tradio da Nova Inglaterra  ela respondeu.  Uma tbua de separao, para assegurar que fiquemos em nossos prprios limites da cama.
	E acha que um cobertor enrolado ir cumprir esta funo?  ele tornou, irnico.
	Acho, sim. Antigamente, eles usavam uma tbua de madeira macia, que ia desde a cabeceira at os ps da cama. Mas creio que podemos nos contentar com um cobertor grosso.
Rafe sentia-se confuso e irritado. Embora dissesse a si mesmo que precisava ir com calma, seu corpo parecia no concordar com a deciso. E, quanto s suas emoes... eram mais desencontradas ainda.
	Tudo bem  resmungou, subitamente mau-humorado.  Se isto a faz sentir-se melhor... Mas ainda vai chegar o dia em que iremos partilhar desta cama como marido e mulher.
Porm, Jenny j decidira que, quando este dia chegasse, seria ela quem estaria na cama, e no a lembrana de Susan.
	Est tudo calmo, por aqui  disse Jenny  sua advogada, pelo telefone, dias depois.  E devo lhe agradecer pela rapidez com que voc conseguiu a liberao do dinheiro.
	Ora, apenas fiz o meu trabalho  Miranda respondeu.  E, embora voc no precisasse mandar-me aquele adorvel ursinho de pelcia, quero lhe dizer que adorei! Principalmente da roupinha de juiz!
Na verdade, gostaria de encomendar alguns para meus amigos.
	Posso aceitar as encomendas, mas vai demorar um pouco. Estamos com tanto trabalho, ultimamente, que mal damos conta!
	Acha que ficaro prontos at o Natal?
	Ah, sim, sem dvida. Nem que seja preciso trabalharmos em dobro.
	Deve ser uma poca agitada, para voc, no ?
	Sim, com a proximidade das festas, no outono  quando mais recebemos pedidos e encomendas. Graas a Deus  Jenny acrescentou, rindo.
	E  por isso que a MegaToys estava to interessada em seu trabalho...
	S espero que o sr. Peter Vanborne finalmente tenha percebido que no  capaz de me assustar. No tivemos mais nenhum incidente, desde que mandei instalar o sistema de alarme.
	E quanto a aquele empreiteiro, o sr. Gardner? Gostaria que eu tomasse alguma providncia legal?
	No, Miranda. Mandei suspender o cheque de pagamento que havia dado a ele, dois dias antes do vazamento no telhado. Creio que j foi um castigo suficiente.
	Mas se ele voltar a lhe criar problemas voc me avisa, est bem?
	Obrigada, Miranda.
Jenny desligou e tornou a concentrar-se no trabalho. Estava desenvolvendo uma nova ideia que tivera, baseando os ursinhos nas diversas profisses, como mdico, engenheiro, banqueiro... Conforme a pilha de esboos ia crescendo  sua frente, o tempo ia passando, sem que ela sequer percebesse.
De repente, ouviu um rudo l fora, mas imaginou que fosse o vento, fazendo com que os galhos das rvores batessem contra a parede de madeira do celeiro. Olhou no relgio, e viu que passavam das dez da noite. Seria melhor voltar para casa e dar o dia por encerrado.
O rudo repetiu-se e, desta vez, ela levantou e espiou pela janela. No havia vento... apenas a lua cheia, que tornou-lhe possvel divisar a figura de um homem. Rafe?
No era Rafe!, ela percebeu, comeando a ficar realmente assustada. Era bem mais baixo que ele, e seus movimentos pareciam furtivos e suspeitos.
Jenny correu de volta para a mesa e apertou o boto do alarme silencioso, que avisaria o departamento de polcia.
E se o homem fosse embora antes que a polcia chegasse? Se tornasse a olhar pela janela, talvez pudesse reconhec-lo. Devagar, fez a volta pela mesa e estava quase chegando  janela, quando ouviu gritarem seu nome. Um segundo depois, Rafe entrava na oficina, surgindo do nada.
	Voc o viu?  ela perguntou.
	Quem?
	Ah, que timo... Veja s que voc fez: assustou o sujeito, com toda esta gritaria!
Rafe deu dois passos e segurou-a pelos braos, como se temesse que ela sasse correndo atrs do suspeito.
	O que est fazendo aqui sozinha, a esta hora da noite?  perguntou, irritado.  E com a porta aberta! Como posso proteg-la, se age como uma irresponsvel?
Jenny abriu a boca para protestar, mas antes que pudesse dizer uma palavra, Rale cobriu-a com um beijo.
No houve qualquer carinho preliminar, nenhuma antecipao. A paixo simplesmente explodiu, quando ele fez penetrar a lngua entre seus lbios, explorando-a avidamente, fazendo-a estremecer em seus braos.
Jenny no lutou, embora fosse pega de surpresa. Aos poucos foi cedendo aos movimentos erticos do corpo dele, aos beijos que incendiavam-lhe a nuca e o pescoo, aos carinhos que as mos geis faziam em seus seios.
Sentia cada nervo de seu corpo vivo, latejando, tornando-a pronta para responder a cada sensao. As mos de Rafe deslizavam sob sua blusa, que se soltara da cintura, acariciando-lhe os mamilos, formando uma trilha ardente por onde passavam.
E ele continuava beijando-a, por todo o rosto, por toda parte, como se quisesse absorver-lhe a essncia e mescl-la com a sua prpria. E, cada vez mais, Jcnny sentia-se inundar por percepes sensuais. Haviam tantas texturas a se descobrir... Enlaou-lhe o pescoo com os braos e, colando o corpo contra o dele, passou a acariciar-lhe os cabelos, sentindo entre os dedos a maciez deliciosa.
Vagamente consciente, percebeu que Rafe a levava para o sof ao lado da escrivaninha. Todos os pensamentos coerentes j haviam desaparecido de sua mente, dando lugar apenas  paixo, por isso pareceu-lhe muito natural quando ele a fez deitar-se, posicionando o prprio corpo sobre o seu.
Rafe dobrou o joelho entre suas pernas, tornando o abrao mais ntimo e ertico. Jenny sentia cada msculo do corpo dele pulsar e, ofegante pela excitao, comeou a abrir os botes de sua blusa, ansiando por sentir-lhe a pele quente e macia. Rafe levou apenas um segundo para tirar o pulver e a camisa, antes de voltar a beij-la, deslizando o rosto at seus seios. Desvencilhando-a do suti, colou a lngua em sua pele, provocando-lhe um arrepio enquanto sugava-lhe os mamilos.
Jenny jamais sentira prazer to grande. Porm, algo dentro de si lhe dizia que aquele prazer no era simplesmente fsico e, tampouco, fugaz; era algo muito maior.
Era amor.
Entretanto, no teve tempo de refletir sobre tal descoberta, pois novamente viu-se mergulhada numa nova onda de sensaes maravilhosas. Rafe ergueu a cabea por um instante e seus olhos se encontraram, ardentes, silenciosos. Um novo e profundo beijo veio selar a confirmao do que ambos j sabiam: a paixo era grande demais, poderosa demais para ser negada.
Jenny perdeu totalmente a conscincia de onde se encontrava. A nica coisa que importava era estar nos braos dele, envolvida no xtase que ele lhe prometia. As mos dele passaram a acariciar-lhe as pernas e...
 Polcia de North Dunway!  uma voz gritou, de repente.  Fiquem parados, os dois!

Captulo VIII

Vamos, levante-se bem devagar  a policial ordenou a Rafe.  Sem movimentos sbitos. Coloque as mos acima da cabea.
Praguejando baixinho, Rafe enviou um olhar para Jenny, que no deixava dvidas quanto a responsabilidade que ela tinha naquele incidente constrangedor. Por enquanto no havia outra escolha seno fazer o que o policial dizia, roas sua expresso prometia que, mais tarde, Jenny ouviria poucas e boas.
	Por que no me avisou que havia ligado o alarme?  sussurrou, ofegante e exasperado.
	Levante-se, agora!  o guarda exigiu.
	Escute, eu sou marido dela  Rafe comeou a explicar, enquanto obedecia.
Mas o policial disse apenas:
	Mantenha as mos onde eu possa v-las!
	No foi por minha causa que ela o chamou, diabos!
	Acalme-se, Rafe  Jenny pediu, erguendo-se do sof e abotoando a blusa, desajeitadamente.  Eu sou Jenny Benjamin  juntou, dirigindo-se ao policial.
	Murphy  Rafe acrescentou.  Jenny Benjamin Murphy.
	Certo,  isso mesmo. Mas o mais importante  que fui eu quem tocou o alarme  ela disse.  Havia algum l fora, um intruso. No pude v-lo claramente, pois o meu marido chegou e assustou-o, antes que ele se aproximasse mais.
	Otimo, ponha toda a culpa em mim  Rafe tornou, sarcstico.

	O senhor tem alguma identificao?  o policial indagou.
Rafe assentiu.
Sou o proprietrio do Restaurante Murphy's, aqui ao lado  falou No costumo comer fora de casa  o homem retrucou.  Quero
ver sua identidade, E a sua tambm, senhora.
Rafe tirou a carteira do bolso traseiro, tomando cuidado para mover-se lentamente, e mostrou-lhe a carteira de motorista.
	Eu no tenho nenhum documento aqui  disse Jenny.  Deixei minha bolsa em casa.
	Eu me responsabilizo por cia  Rafe afirmou, com um ar de ligeira superioridade, que fez o sangue subir ao rosto de Jenny.
	Tudo bem.  O policial recolocou a arma no coldre e devolveu o documento a Rafe. Fez um sinal ao seu companheiro, que ficara vigiando a porta durante todo aquele tempo.  Bert, cheque os arredores e verifique se h algo anormal.  Em seguida, virou-se para falar com a central, no walkie-talkie.
Enquanto os policiais se ocupavam, Rafe aproveitou para trocar uma palavrinha com Jenny, em particular.
	No posso acreditar que voc fez isto!  sussurrou, com uma raiva mal contida.  Por que no me avisou sobre o alarme?
	Voc nem me deu chance de falar nada!  ela defendeu-se.  Estava ocupado demais em gritar comigo, por eu estar trabalhando at tarde.
	Isto tambm foi uma grande tolice.
	No creio que trabalhar em meu prprio escritrio, com o alarme ligado, seja tolice. Agora, ser apanhado pela polcia enquanto agarra a prpria esposa... pode ser  ela ironizou.
	Ento por que no esclareceu logo quem eu era?  Sem deix-la responder, Rafe juntou:  Voc fez de propsito, no ?
	Ah, sim, sem dvida, Rafe  ela retrucou, num tom repleto de sarcasmo.  Depois de tocar o alarme, decidi nos colocar numa situao terrivelmente embaraosa. Seduzi voc, ento, atirei-o no sof e fiquei esperando a polcia chegar. Pronto, a est minha confisso. Espero que fique satisfeito.
Era evidente que seu tom zombeteiro o deixava ainda mais irritado, mas Jenny no se importou. Ela tambm no estava muito contente com o comportamento dele.
Ambos encaravam-se em silncio, como numa batalha visual, quando foram interrompidos pelo policial chamado Bert.
	No h nada, l fora  ele informou.  Algumas pegadas, mas no esto muito claras.
	Tenho certeza de que havia algum ali  Jenny insistiu.  Eu o vi.
	E como era ele?  o primeiro guarda indagou, abrindo um caderninho de notas.
	No pude ver-lhe o rosto  ela admitiu,  mas era mais baixo do que Rafe, e estava tentando se esconder. Acho que usava roupas pretas. No era muito gordo, tambm. Peso normal, creio.
	E o que a faz pensar que fosse um homem?
	Pela maneira como ele andava.
	Daria para calcular a idade?  o policial insistiu.
 Jenny balanou a cabea.
	No... Talvez ele estivesse usando um capuz, ou qualquer coisa assim. Tentei ver melhor, mas meu marido chegou e ele fugiu.
	O senhor viu alguma coisa?  O policial virou-se para Rafe.
	No.
	Importa-se em nos dizer por que chegou aqui de repente?
	Estava preocupado com minha esposa.
	Ah? E por qu?
	Estava ficando tarde e ela ainda no havia voltado para casa Rafe respondeu, com visvel m-vontade.
	J ouviu falar em telefone?  Jenny intrometeu-se.
Rafe fitou-a, sem querer admitir que estava to preocupado com seu atraso que sequer pensara em usar o telefone.
	E o senhor tem algum motivo especial para estar preocupado com sua esposa?  o guarda indagou.
	Ela j passou por alguns problemas, aqui, antes.
O guarda encarregado do interrogatrio voltou sua ateno para Jenny.  Quer dizer que esta no  a primeira vez que tem um problema como este?
	No  ela respondeu.  Houveram outros incidentes, mas apenas hoje eu tive a chance de realmente ver algum.
	Que tipo de incidentes?
	Coisas pequenas, no incio  ela disse.  O mais grave foi um buraco que fizeram no telhado, que causou-me alguns danos, depois de uma chuva forte. O sr. Faddcn, o empreiteiro que consertou o telhado, afirmou que tal estrago fora feito deliberadamente. De qualquer forma, eu no suspeitava de nada, at aquele incidente com o banco. Foi s ento que descobri que a MegaToys estava por trs de tudo.
	MegaToys?  o policial repetiu, confuso.
	Exatamente.  o seguinte: eu fao ursinhos de pelcia e, quando me recusei a vend-los para esta fbrica de brinquedos, eles ficaram muito zangados. E comearam uma campanha para acabar com meu negcio.
O policial parecia um tanto ctico, para dizer o mnimo.
	Escute aqui, sr. Policial, posso assegurar-lhe de que este assunto  muito srio  Jenny afirmou.
Rafe observava a cena ligeiramente divertido, reparando que ela colocara as mos na cintura, um sinal de que estava perdendo a calma.
	Tudo bem, senhora. Tem alguma prova de que esta MegaToys est querendo prejudic-la? Alguma testemunha de que algum danificou seu telhado?
	No  ela respondeu, irritada.  E ningum viu o sujeito que invadiu minha casa e roubou meus desenhos, tambm.
	Quer dizer que sua casa foi invadida, e a senhora no nos comunicou?
	No  ela admitiu.
	A porta do celeiro estava aberta, quando cheguei  Rafe intercedeu, lembrando-se de repente.
	Oficina  Jenny corrigiu-o.  Isto aqui  a minha oficina, agora.
E tenho certeza de que tranquei a porta, depois que Miriam saiu, por volta das seis horas.
	Ei, acho que encontrei alguma coisa!  Bert chamou, do interior da oficina. Estava no lado oposto da rea onde ficava o escritrio de Jenny e, mesmo em meio  escurido, ela soube que era o lugar onde guardavam os ursinhos prontos, que seriam enviados pelo correio.
Rafe adiantou-se primeiro.
	No, Jenny,  melhor voc no...  ele disse, segurando-a pelos ombros e tentando impedi-la de aproximar-se.
Mas ela tinha de ver. E o que viu foram trs, dos cinco ursinhos que haviam sido feitos no dia anterior, totalmente destrudos. Algum os rasgara ao meio, com um objeto cortante.
Sentiu lgrimas nos olhos e, com um grande esforo, impediu-se de chorar. Como algum tivera coragem de fazer uma coisa daquelas? Destruir ursinhos de pelcia, um smbolo universal de amor e amizade?
Rafe passou o brao em seus ombros, pressionando-a contra si, tentando proteg-la. O choque inicial de Jenny transformou-se rapidamente em fria, fazendo-a estremecer. Danificar seu telhado, ou mesmo invadir sua casa, era uma coisa. Porm, destruir seus preciosos ursinhos, sua criao, nos quais ela colocava tanto de si, era algo muito diferente. Desta vez, os canalhas haviam ido longe demais.
Rafe sentiu-a estremecer e tentou acalm-la, acariciando-lhe as costas levemente. Mas ele prprio estava nervoso: aquele incidente no tinha nada a ver com sabotagem industrial, pensava. Era evidente que estavam lidando com algum tipo de maluco, um manaco... que estivera sozinho com Jenny, na oficina. O dano causado aos ursinhos fora um ato de vandalismo, mas ele no podia evitar de pensar que a prpria Jenny poderia ter sido igualmente atacada.
Para ela, a hora seguinte passou-se como num pesadelo. Outros policiais chegaram, entrando e saindo em meio a perguntas, tirando impresses digitais, entregando-lhe formulrios para ser preenchidos.
Tambm chamaram um chaveiro, que trocou todas as fechaduras e mudou o cdigo do sistema de alarme. Enquanto observava o homem trabalhar, Rafe refletia sobre os acontecimentos daquela noite. E uma coisa ficou bem clara, em sua mente: Jenny tornara-se importante demais para ele. Muito mais do que ousava acreditar.
	No h mais nada que possamos fazer, aqui  disse a ela, depois que o chaveiro foi embora. Pousou ambas as mos sobre a escrivaninha, encarando-a com extrema seriedade.  Espero que nunca mais voc faa uma coisa destas. Como posso proteg-la, se voc simplesmente faz o que lhe d na cabea?
	Eu estava trabalhando  ela defendeu-se.
	Tarde da noite. Sozinha.
	Sim, mas num lugar trancado e equipado com alarme de segurana.
E que, por acaso, fica bem ao lado do seu restaurante.
	O que est querendo dizer?  ele indagou, estranhando seu tom de voz.  Est acusando-me de ter algo a ver com isto?
	No. E voc no precisa ficar todo ofendido, cada vez que toco neste assunto. Apenas quis dizer que estava perto de voc, no estava totalmente isolada. Alm disso, se voc no tivesse aparecido de repente, gritando meu nome, talvez eu pudesse ter visto o intruso.
	E, talvez, acabasse sendo atacada... da mesma maneira que seus ursinhos  ele retrucou.  J parou para pensar nisto?
	No vou permitir que estas pessoas me amedrontem  Jenny afirmou, baixinho.  No vou deixar que me venam.
	Isto no tem nada a ver com ganhar ou perder, Jenny. Estamos falando de sua segurana.
	Mas foi exatamente por isso que mandei instalar o alarme. S que no adiantou nada...  Ela mordeu o lbio, decidida a no chorar na frente dele.
	Eu j vi voc chorar, antes, Jenny  ele lembrou.
Porm, ela no gostou muito de ser lembrada deste fato.
	Queria saber como ele conseguiu entrar aqui  disse, com raiva.
	Voc deve ter esquecido de trancar a porta, depois que Miriam saiu.
	Eu no esqueci!
	Como pode ter tanta certeza?
Ela no tinha, naturalmente. E isto a deixava ainda mais irritada e nervosa. No podia simplesmente ficar sentada ali, sem fazer nada. E nem voltar para casa e fingir que tudo aquilo no acontecera. Tinha de agir, ou ficaria louca.
	Vou levar o restante dos ursinhos para a minha casa e ficar l, protegendo-os  decidiu.
	No vai, no. Os policiais nos prometeram que haver um carro de patrulha rondando o quarteiro, durante toda a noite.
	Mas no sero capazes de impedir o sujeito, se ele decidir voltar.
	Tampouco voc.
	No posso deixar meus ursinhos desprotegidos  ela falou.
	No esto desprotegidos. E voc tem o sistema de alarme.
	Que no funcionou, quando era necessrio.
	Ora, Jenny, no seja ridcula!  Rafe exclamou, perdendo a pacincia,  No vou permitir que voc arrisque sua vida por causa de alguns brinquedos estpidos!
Aquilo era demais! Jenny perdeu o controle:
	Quem  voc, para saber o que  ou no importante, em minha vida?  disparou.
	Eu me preocupo com sua vida!  Rafe tornou, no mesmo tom.  De que adianta um punhado de ursinhos de pelcia, se voc estiver morta?
Jenny ignorou-o e comeou a guardar os ursinhos, que estavam dispostos no mostrurio, numa grande caixa de papelo. Rafe aproximou-se e, pegando um deles, viu o preo marcado numa etiqueta. Assoviou baixinho, perplexo.
	So caros porque so feitos artesanalmente, com material da me lhor qualidade  Jenny explicou, ao ver o motivo de sua admirao.  Voc nem imagina quanto custa o metro deste tecido felpudo.
	E as pessoas compram, mesmo com este preo absurdo?
	Bem, estou aqui, no estou?  ela retrucou, irritada.  Com um negcio que vai muito bem, quando no est sendo sabotado. Alm disso, eu nunca lhe disse que voc cobra demais pelos seus jantares, no ?
	No.
	Ento no venha me falar sobre "preos absurdos". Estas so peas de colecionadores. Creio que voc precisa ser um colecionador de ursinhos, para entender.
	Posso entender muito bem o desejo de possuir alguma coisa de que se gosta, sem importar-se com o preo  ele disse, enviando-lhe um olhar repleto de emoo e mensagens ocultas.
Incapaz de decifrar o que quer que fosse que ele tentava lhe dizer, Jenny desviou os olhos e continuou com sua tarefa. Sentindo o olhar dele sobre si, insistente, perguntou, nervosa:
	Vai ficar a olhando, ou vai me ajudar?
Resmungando uma imprecao, Rafe pegou a caixa que ela acabara de encher.
	Consegue lev-la sozinho?  ela perguntou.
	O que acha?  ele retrucou, ignorando sua tentativa de ajud-lo.
	Tudo bem. No vou impedi-lo de demonstrar suas habilidades machistas  Jenny falou, sarcstica. Trancou a oficina, ligou o alarme e foi correndo at a casa. Depois que Rafe deixou a caixa na sala de jantar, acompanhou-o at a porta dos fundos.  Obrigada  disse.  Vejo voc amanh.

	Nada disso. Vai continuar me vendo, esta noite.
Jenny encarou-o, surpresa.
	No h necessidade de voc ficar aqui, Rafe.
	Concordo. E voc tambm no vai ficar aqui  ele afirmou, categrico.
Naquele momento, Jenny deu-se conta de que um crculo havia se completado: ali estavam eles, discutindo na soleira da porta dos fundos, exatamente como acontecera da primeira vez que se encontraram. Porm, tanta coisa havia mudado... Seus sentimentos por Rafe, o fato de que, agora, estavam casados... At os degraus de madeira haviam sido consertados pelo eficiente sr. Fadden.
Porm, afastando tais pensamentos, concentrou-se na batalha que tinha pela frente.
	Vou ficar aqui esta noite, Rafe  insistiu.
	De jeito nenhum.
Ela odiava que lhe dessem ordens. Uma fria onda de raiva invadiu-a.
	O que foi que disse?
	De jeito nenhum  ele repetiu, devagar.  E estou falando srio.
Sem qualquer aviso, Rafe ergueu-a nos braos, posicionando-a sobre o ombro, como se fosse uma boneca de pano. Sem dar ateno aos seus gritos de protesto, trancou a porta e afastou-se da casa, caminhando to depressa que ela teve de agarrar-se cm sua cintura para no cair.
Temendo acordar Cindy, Jenny baixou a voz, embora continuasse reclamando, enquanto Rafe entrava no restaurante pelos fundos e passava por Spud, que terminava a limpeza na cozinha e fitou-os, perplexo, e subia as escadas em direo ao quarto. Porm, ao cruzarem a soleira da porta da sala, Jenny teve a presena de esprito de agarr-la com as duas mos, obrigando-o a parar.
Surgindo no corredor, Cindy perguntou:
	O que vocs esto fazendo? Aconteceu alguma coisa?
Percebendo a expresso preocupada da menina, Jenny parou de lutar, mas sem largar o batente da porta. Obrigou-se a esboar um sorriso confiante. 
	No h nada errado, querida  disse.  Seu pai e eu estamos apenas brincando. Ele est fingindo ser um homem das cavernas.
	E Jenny est fingindo ser uma mulher voadora  Rafe acrescentou, num resmungo.
	Posso brincar tambm? Posso?  Cindy pediu, alegremente.
	 claro que sim  Jenny respondeu.  Seu pai j ia me colocar no cho, no , Rafe?
Com sua filha presenciando a cena, ele no tinha outra opo seno obedecer. Emitindo uma imprecao por entre os dentes, a fez deslizar de seu ombro e recostou-a contra o batente, onde Jenny ficou por um instante, reajustando-se  posio vertical.
	O que est fazendo acordada a esta hora, princesa?  ele indagou, voltando-se para a menina.  J  muito tarde, sabia?
	Eu no conseguia dormir.
	Teve um pesadelo?  ele juntou, preocupado.
	No. Fiquei acordada porque esqueci de perguntar uma coisa para Jenny. Esperei voc vir para o jantar, mas voc no veio...
	Sinto muito, querida  Jenny desculpou-se, num tom suave.  Mas meus ursinhos me deram um pouco de trabalho, hoje, e eu me atrasei. O que queria perguntar?
	Posso levar voc na minha escola, amanh?  a garotinha pediu.  A professora disse que poderamos levar qualquer coisa que quisssemos mostrar aos nossos colegas, e eu quero mostrar a minha nova mame.
Jenny engoliu em seco, tentando desfazer o n que formara-se em sua garganta. Lanou um rpido olhar em direo de Rafe, querendo saber qual seria sua reao, mas ele mantinha-se inescrutvel, sem permitir que ela enxergasse qualquer emoo.
	Ento, Jenny?  Cindy insistiu, esperando uma resposta.  Voc poderia levar alguns dos ursinhos... Seria muito... interessante.
	Amanh?  ela perguntou, pensativa.  Est um pouco em cima da hora, no ?
	Eu ia lhe pedir antes, mas esqueci. Mas no faz mal, no ? Voc ir, assim mesmo? No precisa ficar nervosa, nem com medo. A srta. Kent  muito boazinha. Ela no vai gritar com voc.
Jenny sorriu, totalmente convencida.
	Est bem. Irei com voc  escola, Cindy.
	Agora, volte para a cama, princesa.
Enquanto Rafe ocupava-se em colocar a filha na cama, Jenny subiu para o quarto. Embora estivesse tentada a fazer meia-volta e retornar para sua casa, sabia que ele iria busc-la, tantas vezes quanto fosse preciso, at acordar a vizinhana inteira.
Vestiu o pijama e deitou-se, preparando-se mentalmente para uma nova rodada de discusses, assim que Rafe entrasse no quarto. No iria permitir que ele continuasse tratando-a daquela maneira, como se fosse um objeto, sem vontade ou poder de deciso.
O nico problema, em seus planos, foi que Rafe no apareceu. E Jenny acabou adormecendo, enquanto esperava por ele.

Captulo IX

Jenny acordou com um rudo abafado ressoando em seus ouvidos e a sensao de estar sendo observada. Rafe? Abriu os olhos e deparou com um par de olhinhos amarelados fitando-a.
	Botinha? O que est fazendo aqui?  perguntou, sonolenta.
E, ento, lembrou-se de tudo. Acordara por volta das trs da madrugada, devido a um pesadelo envolvendo ursinhos de pelcia machucados e Rafe afastando-se dela. Abalada demais, no conseguira voltar a dormir, e descera at a cozinha para tomar um copo de leite quente. Ao retornar para o quarto, viu que Botinha a estava seguindo, com um ar to carente que ela no.resistiu e pegou-a no colo, levando-a para a cama consigo.
Porm, em sua excurso noturna, no vira o menor sinal de Rafe. Imaginou se ele fora dormir no quarto do andar de baixo... aquele que partilhara com Susan.
	Obrigada por me fazer companhia esta noite, Botinha  murmurou, afagando o pelo macio do animalzinho.
Entrecerrou os olhos, lembrando-se do breve instante de paixo descontrolada, em sua oficina, na noite anterior. E da sbita percepo de que sentia algo mais do que simples atrao fsica por Rale.
Do fundo de seu corao, Jenny temia estar se apaixonando por Rafe, a despeito de todos os seus esforos em contrrio. Sim, ela o amava, admitiu. Mas tinha certeza de que no era correspondida. E como ele poderia am-la, se seu corao fora enterrado juntamente com Susan?
Rafe podia sentir-se atrado por ela, mas era s isso. E o que ela poderia fazer? Lutar por ele, disse a si mesma, com todas as suas foras. Porm, sentia-se incapaz disto. Estava cansada, frgil e derrotada.
Depois de tomar um banho e lavar os cabelos, sentiu-se um pouco melhor. Lembrando-se da promessa que fizera  Cindy, de acompanh-la  escola, vestiu uma de suas roupas preferidas: o conjunto de cala comprida e suter que usara naquele primeiro passeio com Rafe... quando ele a beijara pela primeira vez.
Olhou-se no espelho, deu um toque final na maquiagem e respirou fundo, decidida a encarar de frente mais um dia de lutas.
A sala de estar estava vazia e ela emitiu um leve suspiro de alvio. Pelo menos teria algum tempo, antes de deparar-se com Rafe. Foi para a cozinha, comeu duas torradas com uma xcara de caf e olhou em torno,  procura de Botinha. Voltou para a sala e encontrou a gatinha enroscada no sof, dormindo tranquilamente.
Sentou-se ao lado dela e passou a mo por entre o pelo macio, ouvindo-a ronronar, satisfeita. Observou o animalzinho por um instante, encantada com a perfeio de seus contornos, considerando a possibilidade de acrescentar gatinhos de pelcia  sua coleo. Mentalmente, fez alguns esboos de modelos, at que foi interrompida pelo som de uma voz masculina.
	No acredito que esta gata est dormindo novamente!  Chuck comentou, entrando na sala.
Jenny riu, baixinho.
	Lembro-me de ter lido, em algum lugar, que os gatos passam dois teros da vida dormindo  disse.
	Ah, ento est explicado. Na prxima encarnao, acho que quero voltar como gato.
Ela sorriu e, tentando disfarar, ergueu a cabea a fim de ver se Rafe no estava logo atrs do pai. Porm, no disfarou muito bem, pois Chuck lhe disse:
	Rafe no est aqui. Teve de sair para... resolver alguns problemas com a entrega de mercadorias para o restaurante.
	No precisa mentir para lhe dar cobertura, Chuck.
O velho suspirou, resignado.
	Bem, creio que no adianta fingir que no sei que vocs brigaram, no ?
	Rafe comentou alguma coisa com voc?  Jenny indagou.
	 claro que no. Mas ouvi vocs chegando, ontem  noite, e via maneira como ele a carregava nos ombros. Voc no parecia muito contente.
	No estava, mesmo. E nem estou, agora.
	Foi por isso que Rafe dormiu no quarto do andar de baixo?
Ento suas suspeitas estavam corretas, Jenny pensou, com amargura. Ele fora mesmo dormir no antigo quarto, aquele que dividira com Susan...
	Isto voc ter de perguntar a ele  respondeu.  Eu nem sonharia tentar adivinhar o que se passa na mente de Rafe.
	Mas ser que no v?  disse Chuck.  Rafe est agindo desta maneira porque realmente gosta de voc. E se no tivesse tanto medo dos prprios sentimentos, certamente estaria feliz e animado, em vez de comportar-se como um urso com dor de dente.
	Est dizendo que Rafe anda agindo como um luntico por minha causa?  Jenny indagou, surpresa.  Que eu o estou tornando infeliz?
	Bem, no  exatamente isto... embora ele ande perdendo algumas noites de sono, por sua causa...  Chuck admitiu, ruborizando como um rapazinho embaraado.  Mas, sem querer intrometer-me cm seus assuntos, Jenny, pensei que poderia lhe dar algumas diretrizes, algumas pistas sobre a melhor maneira de lidar com Rafe. Afinal, reconheo que meu filho no  uma pessoa fcil de se entender.
	Pode apostar que no  Jenny concordou.  E eu ficaria muito agradecida, se voc me ajudasse a compreend-lo um pouco mais.
	Espero que no me entenda mal, Jenny. Eu amo meu filho, criei-o da melhor maneira que pude. Ele trabalhou duro, para chegar onde est. Nunca ningum lhe deu nada de graa, teve de batalhar muito para conquistar seu espao. Porm, no h como negar que a morte de Susan mexeu muito com ele, deixou-o frio, insensvel.
	Eu j sei que ele a amava muito  Jenny falou, num sussurro, como se as palavras ferissem sua garganta.
	Meu filho ficou pssimo, quando Susan morreu. Foi uma poca difcil, Jenny, muito difcil mesmo... A morte dela quase o destruiu.
Jenny desviou o rosto, tentando esconder as lgrimas. No queria ouvir nada daquilo...
	Rafe no queria apaixonar-se novamente  o velho prosseguiu dizendo.  Porm,  bvio que apaixonou-se. Por voc.
Jenny virou-se para encar-lo, surpresa.
	Pois para mim no parece assim to bvio  disse.
	Ele casou com voc, no foi?
Jenny assentiu. Sim, o casamento poderia ser a prova maior do amor de um homem, de seu desejo de dedicar-se. Mas este no era o caso, com Rafe, e se dependesse dela, Chuck jamais ficaria sabendo.
	E isto no  tudo  Chuck acrescentou, com um sorrisinho maroto.  J reparei na maneira como ele olha para voc.
	De que maneira?  Jenny no resistiu  curiosidade.
	Digamos que  do mesmo jeito que Hugo olha para os catlogos da parafern1ia de cozinha que chegam da Europa... Com fome, nsia de possuir.
Isto apenas  provava que Rafe a desejava, mas no queria dizer que a amava, Jenny pensou.
	E ainda  h a questo do comportamento dele  Chuck prosseguiu. -- Rafe esr contrariado porque apaixonou-se por voc, mesmo sem querer Sempre teve medo de passar novamente pela experincia que sofreu, com 3 morte de Susan-
Uma parte de Jenny no podia culp-lo por isto. Ela prpria evitara apaixonar-se Pe' mesmo motivo: temia perd-lo, ser abandonada da mesma forma que seu Pai a abandonara. Porm, no estava certa da interpretao de Chuck sobre o comportamento de Rafe. Para ela, ele agia "como um urso com dor de dente" porque arrependia-se de ter se casado; ou, pior  ainda, porque sentia-se culpado por desej-la, quando seu corao ainda pertencia  Susan.
	Apenas tente analisar a possibilidade de Rafe estar agindo assim porque gosta de voc. Ser que consegue?  Chuck indagou.  E procure ter pacincia com ele.
	Quanto a ter pacincia, no sei...  Jenny respondeu.  Rafe  capaz de tirar at um santo do srio, e eu no sou santa. Mas vou pensar em tudo o quc voc disse, Chuck. E lhe agradeo por perder seu tempo conversando comigo.
	Ora que bobagem!  Chuck fez um gesto, afastando o agradecimento, antes de lhe dar um abrao.  Voc faz parte da famlia, agora e todos ternos de nos ajudar, uns aos outros. S no conte nada para Rafe, que andei bisbilhotando, est bem?
	Eu  nem sonharia com isto  ela assegurou-lhe.
		Hank, voc pode ir primeiro. Depois,  a vez de Ci ndy  disse a srta. Kent, professora do jardim de infncia.
	Eu trouxe Ben, para mostrar  classe  disse o menino, colocando-se de frente para seus coleguinhas.
Sentada no fundo da sala, Jenny preparou-se para ver um ratinho ou pior ainda, uma cobra. Em vez disto, Hank mostrou que Ben era um boneco. Ela olhou em volta, percebendo que ningum parecia chocado com isto, nem prestes a fazer brincadeiras a respeito.
	Ben vai me ajudar a ser um bom pai, quando eu crescer  Hank afirmou, com orgulho.  Eu costumava treinar com a minhia irmzinha, mas um dia quase a derrubei no cho. Ento, mame me deu o Ben. Agora, quando rneu pai troca a fralda da minha irm, eu fao o mesmo com Ben, s que as fraldas dele esto sempre limpas. Eu vou lhes mostrar como se troca fralda de beb. Vocs precisam prestar bastante ateno, pois no  nada fcil.
Jenny ouvia a explanao do garoto, pensando cm como era bom que alguns dos esteretipos sexistas estavam sendo totalmente suprimidos, nas novas geraes. Era realmente admirvel que aquele menininho de seis anos estivesse interessado em aprender, e a ensinar, depois, como se troca fralda de um beb. Talvez, se seu prprio pai tivesse sido ensinado sobre a importncia da paternidade, as coisas no fossem to difceis, para ela.
Seu olhar pousou em Cindy. Rafe sabia da importncia de ser um bom pai, pensou. Tanto que casara-se sem amor, apenas para continuar com a filha. E, embora ela ainda resistisse  ideia de amar Rafe, j entregara seu corao  Cindy, incondicionalmente, apesar de sentir um certo receio de cometer erros involuntrios.
Finalmente chegou a vez de Cindy apresentar-se:
	Jenny era minha amiga  a menina comeou.  Mas, agora,  a minha nova me. Ela faz ursinhos de pelcia, e  muito famosa. Estou contente por ela ser minha mame, e quero apresent-la a vocs. Agora, ela vai falar sobre os ursinhos de pelcia.
Depois da introduo, Jenny tomou-lhe o lugar, na frente da classe. Abrindo a caixa de papelo que trouxera, retirou os ursinhos, um de cada vez, sentindo-se como um mgico que tira coelhos da cartola. Iniciou com o menor deles, quase do tamanho de sua mo.
	Como as pessoas, os ursinhos tm vrias cores, formatos e tamanhos  disse.  Podem ser pequenos, como este aqui, ou grandes, como este outro.
Jenny estivera em dvida se falava um pouco sobre a histria dos ursinhos e do interesse que exerciam sobre colccionadores. Porm, decidiu que crianas de cinco e seis anos gostariam mais que ela focalizasse um aspecto mais humano. Assim, prosseguiu:
	Como vocs devem saber, os ursinhos de pelcia so grandes companheiros. Podemos lhes falar sobre todos os nossos segredos, com a certeza de que no vo contar a ningum. Tudo o que eles precisam, em troca,  de muito amor... pelo menos dois abraos por dia,  o bastante.
Jenny trouxera apenas alguns de seus modelos, mesmo porque a maioria deles no era feita para crianas. E o mais popular, e talvez mais simptico, era o Vov-Urso, que ela mostrou agora.
	O Vov-Urso est ficando velhinho, por isso precisa usar estes culos. S que reclama deles o tempo todo.
	Meu av tambm reclama  um garotinho intercedeu.  E est sempre perdendo os culos.
Em seguida, Jenny passou a mostrar as fotos dos outros modelos.
	Estes so alguns dos ursinhos que eu fao  explicou.  Eles no puderam vir, hoje, mas o Vov-Urso fez questo que vocs os conhecessem, mesmo por fotografia.  As crianas passaram o mostrurio de mo em mo, olhando com interesse e admirao.
	Vocs sabiam que os mdicos tambm gostam muito de ursinhos?
 ela prosseguiu.  Muitos deles sempre deixam um ursinho no consultrio, para que seus pacientes se sintam melhor.
Na verdade, Jenny j fizera muitas doaes a hospitais e a servios de atendimento de emergncia, pois sabia das vantagens psicolgicas que um ursinho de pelcia proporcionava.
	Bem  finalizou,  todos vocs podero levar o Vov-Urso para casa, por um dia, se quiserem. J conversei com a srta. Kcnt e ela concordou, contanto que escrevam uma histria sobre ele, e tragam no dia seguinte. Depois, todas as histrias sero reunidas num livro, que contar a vida do Vov-Urso.
A ideia foi recebida com total aprovao, por parte das crianas.
	Voc tem sorte em ter uma mame como esta  Jenny ouviu uma das meninas dizer  Cindy, que sorriu, concordando.
Agora, ela pensou, s faltava Rafe sentir-se da mesma maneira, e passar a consider-la como esposa, e no apenas como me para sua filha.
	Ento, como foi a apresentao na escola?  Miriam perguntou, quando Jenny chegou na oficina, naquela tarde.  Pelo jeito, parece que sobreviveu. Eles no lhe deram uma medalha?
	No foi to ruim assim, Miriam.
	Ora,  claro que no. Afinal, uma sala cheia de crianas barulhentas  um local bastante agradvel para se passar uma tarde  a amiga brincou.
	Foi muito agradvel, mesmo. E elas no so barulhentas. Miriam, voc devia ver como as coisas mudaram, desde a poca em que ns frequentvamos o jardim de infncia.
	Mudaram como?
	Bem, por exemplo: um dos meninos levou um boneco, para sua apresentao  classe. E ningum sequer piscou um olho. Depois, ele ensinou aos coleguinhas como trocar as fraldas do boneco, pois aprendera com o pai.
	Deve haver alguma esperana para as futuras geraes, afinal de contas  Miriam concluiu.
	Sim, mas enquanto isso, vamos nos concentrar no presente. O representante da agncia de seguros apareceu, conforme havia prometido?
Miriam fez que sim.
	Ele ficou um pouco desconfiado, com duas queixas praticamente seguidas. Primeiro, o vazamento no telhado. E, agora, isto.
	O que posso fazer, Miriam? Ningum gosta disto menos do que eu. No posso acreditar que a polcia levou meus ursinhos, como evidncia.
	E eu no acredito como algum tenha conseguido entrar aqui disse a amiga.
	Eu tranquei a porta, depois que voc saiu, ontem. Tenho certeza.
	Eu sei. Ouvi o rudo da chave na fechadura.
	Graas a Deus!  Jenny exclamou, abraando-a.  Pelo menos tenho uma testemunha de que no estou ficando maluca!
	Sobre o que est falando, Jenny?
	Eu estava certa de que trancara a porta, mas Rafe afirmou que estava aberta, quando ele entrou. Comecei a pensar que havia me enganado, e que de fato esquecera de trancar. Mas, de qualquer maneira, sempre fico um pouco confusa, quando ele est por perto...  murmurou.
	Foi o que ouvi dizer. Max veio me contar que ficou sabendo, no se sabe como, que quando a polcia chegou voc e Rafe estavam...bem, um pouco ntimos, em seu escritrio.
	Ah, que timo  Jenny suspirou.  E a cidade inteira j sabe?
	Creio que ainda no.
Jenny gemeu baixinho.
Miriam balanou a cabea, concordando.
	Eu sei,  muito triste. Para onde vai este mundo, quando uma pessoa no pode nem fazer amor com o marido, sem que a polcia aparea para atrapalhar?  O sorriso malicioso de Miriam destoava de seu tom solene.
	A polcia apareceu porque eu havia tocado o alarme  Jenny esclareceu.
	Antes ou depois de voc e Rafe irem para o sof?
	Antes. Ele fez com que eu esquecesse complctamente...
	Ah, eu sei como so estas coisas! Mesmo depois de trinta anos. 
	Max ainda faz com que eu me esquea de tudo  Miriam comentou, com um brilho satisfeito no olhar.
Diante do silncio de Jenny, continuou falando:
	Ento, querida, por que est to aborrecida? Foi porque a polcia apanhou-os em flagrante?
	No.
	H alguma coisa errada com voc, Jenny. E no venha me dizer que  pelo que aconteceu com os ursinhos, pois sei que  algo mais grave. Voc e Rafe brigaram?
	Estvamos em minha casa, ontem  noite, e ele me pegou no colo e carregou-me de volta para a casa dele  fora  Jenny confessou.
 Acho que isto  um pouco mais do que uma simples briga.
	Meu Deus, que coisa mais excitante!
	Aquele homem  um brutamontes. Ele no entende a importncia que os ursinhos tm para mim. No entende que no gosto que me dem ordens. Enfim, ele no entende nada, a meu respeito!
	J pensou que ele agiu assim por estar preocupado com voc? Sabe que os homens ficam meio estranhos, quando esto com medo.
	Sim, j me disseram.
	Se Rafe no lhe desse a mnima importncia, se a deixasse sozinha em sua casa, a sim voc deveria ficar preocupada. Mas, por falar nisto, o que estavam fazendo em sua casa?
Jenny fez um resumo dos acontecimentos da noite anterior, depois que os policiais foram embora.
Miriam balanou a cabea, incrdula.
	Que tipo de gente iria querer destruir ursinhos de pelcia?  murmurou.
	A MegaToys mandou-me um recado muito claro, Miriam. Mas no vou desistir. Seja l quem for o responsvel, vai acabar pagando caro por isto.
A primeira vez que Jenny viu Rafe, depois da briga, foi no jantar daquela noite. E ele estava mais calado e sisudo do que nunca. Cindy, ao contrrio, tagarelava sem parar, excitada com a repercusso da apresentao de Jenny na escola. Rafe ouvia a menina, pacientemente, a cada vez que ela repetia o assunto.
Jenny observava-os, em silncio. Sim, pensou, Rafe era mesmo um pai excelente. E esta era uma das qualidades que mais admirava nele, desde o incio, quando ainda tentava evitar que seus sentimentos se tornassem mais profundos. E no conseguira... Ou ser que teria se enganado, todo aquele tempo? No teria se apaixonado por ele desde o primeiro instante, dizendo a si mesma que era apenas uma atrao fsica quando, na realidade, j era amor?
Ela no sabia... S tinha certeza de uma coisa: estava em pnico, pois Rafe no dava o menor sinal de estar sentindo o mesmo que ela.
Entretanto, devia estar se sentindo feliz com o que tinha, recriminou-se. Fora recebida de braos abertos por Cindy e Chuck e, agora, fazia parte daquela famlia. Tinha um teto onde abrigar-se... na verdade, trs tetos: sua prpria casa, a oficina e a casa de Rafe. Tinha comida na mesa, e no qualquer comida, mas sim pratos finos e elaborados, que vinham com os nomes de boeuf bourguignon, coq au vin, fileis de sole, e assim por diante. E tudo isto no lhe bastaria? Ser que no poderia olhar para o lado agradvel das coisas, em vez de ficar se queixando?
Porm, sua auto-crtica no foi o suficiente para anim-la, pois Rafe continuou ignorando-a. Depois do jantar, retirou-se para seu escritrio, um cmodo que Jenny ainda no conhecia e sequer sabia a localizao, tendo sido informada apenas que ficava no primeiro andar.
Jenny ocupou-se de Cindy. pintando-lhe as unhas pela centsima vez, ajudando-a a tomar banho e lendo a histria da Bela Adormecida. Rafe permaneceu trancado no escritrio, trabalhando no fechamento da contabilidade do restaurante, ou, pelo menos, fora o que Chuck lhe dissera.
Por volta da meia noite, Jenny j estava na cama, mas a tenso impedia que o sono chegasse. Levantou-se, ento, e vestiu sua cala jeans mais velha e uma camisa de flanela. Precisava sair dali, pensava, respirar um pouco de ar puro. Percebendo que estava frio, l fora, colocou tambm uma jaqueta jeans.
Passou pelo quarto do andar de baixo e viu que no havia luz sob a fresta. Ou Rafe j estava dormindo, ou continuava no escritrio, concluiu. Porm, de qualquer maneira, ela no queria mesmo encontr-lo. Estava precisando acalmar-se, e no ficar ainda mais nervosa. Uma boa caminhada a ajudaria relaxar, pensou. E no iria muito longe, apenas em torno da casa.
Embora a lua no estivesse cheia, havia claridade suficiente para que Jenny enxergasse a trilha que seguia da porta dos fundos at a frente do restaurante. As folhas secas, cadas em profuso, estalavam sob seus ps. Os galhos nus das rvores provocavam um efeito um tanto assustador, contra o cu estrelado, e ela estremeceu de leve, sentindo uma sbita solido envolv-la.
Enfiando as mos nos bolsos da jaqueta, decidiu que, j que estava ali fora, poderia dar uma espiada na oficina. Depois de verificar que tudo estava em ordem, tomou o caminho de volta mas, de repente, ouviu um rudo. Algum pisando nas folhas secas...
Jenny congelou, percebendo, tarde demais, que a ideia de caminhar durante a noite, com o intruso ainda  solta, no fora das melhores. Estava prestes a gritar, quando um quati surgiu por trs do celeiro. Graas a Deus!, suspirou, aliviada.
Porm, o fluxo de adrenalina a deixara mais desperta e nervosa do que antes e sabia que, agora, seria ainda mais difcil dormir. Resolveu entrar na oficina e pegar o vestidinho de rendas que comeara a costurar para a nova ursinha Bambino. No ficaria ali, naturalmente, mas se levasse o trabalho manual para casa teria algo com que se distrair, at que o sono chegasse.
Dcsativou o sistema de alarme e, mal deu dois passos para dentro da oficina, percebeu que cometera um grande erro. Havia algum alL.e no era Rafe! Instintivamente, pressentiu perigo. Um grande perigo!
Enquanto imagens aterradoras brotavam-lhe na mente, ela girou o corpo, pronta para comear a correr. Mas antes que fizesse um s movimento, foi agarrada por trs e algum tapou-lhe a boca, violentamente, impedindo-a de gritar.

Captulo X
Jenny sara sozinha novamente. E, desta vez, Rafe prometeu a si mesmo que faria algo mais do que apenas atir-la sobre o ombro. Cruzando com passos largos a curta distncia entre sua casa e a oficina, planejava ensinar-lhe uma lio que ela jamais esqueceria.
Mas, em vez disto, deparou-se com uma cena que ele nunca iria esquecer: Jenny lutando com um homem, cujo rosto estava coberto por uma mscara de esquiar.
Jenny sequer soube o que aconteceu: num minuto, lutava para desvencilhar-se da forte presso dos braos do intruso em torno de si. No instante seguinte, Rafe estava ali, desfechando um soco certeiro no rosto do sujeito, usando as tcnicas que, certamente, aprendera durante a adolescncia.
O estranho mascarado no era preo para Rafe e a luta terminou antes mesmo de comear, com o homem cado como um saco de ossos aos ps dele.
	Voc est bem?  Rafe perguntou, correndo na direo de Jenny.
Afastou os cabelos que lhe caam pelo rosto e examinou-a, ansiosamente,  procura de algum ferimento.
	Estou bem  ela assegurou-lhe, trmula e agradecida pelo calor de seus braos.  Ele no me machucou.
Quando o intruso gemeu, dando sinais de estar recobrando a conscincia, Rafe soltou-a e inclinou-se para retirar a mscara com que ele se escondia.
	Sr. Gardner!  Jenny exclamou. Por um instante, imaginou se no haviam cometido um engano, atacando o empreiteiro.  O que est fazendo aqui?
	Voc ainda me deve dinheiro  o homem respondeu, balanando a cabea numa tentativa de recuperar os sentidos.
	E foi por isso que o senhor invadiu minha oficina?  ela indagou, incrdula.
	Jenny,- chame a polcia  Rafe ordenou, rapidamente.  Gardner dar todas as explicaes a eles.
	No  necessrio envolver a polcia nisto  o sr. Gardner protestou.
Erguendo o homem pela camisa, Rafe enviou-lhe um olhar gelado.
	E claro que temos de envolver a polcia, Gardner. Voc atacou minha esposa e tentou roubar este local. E considere-se com sorte, por no ter levado mais do que um simples soco nesta sua cara feia.
Quando o homem fez meno de lutar contra a presso de Rafe, este imobilizou-o no mesmo instante e disse  Jenny, que acabara de ligar para a polcia, para encontrar algo com que pudessem amarr-lo. Mais que depressa, ela pegou um fio de extenso na parede e entregou-o a Rafe.
Assim que viu-se amarrado e impotente, o homem comeou a choramingar suas explicaes:
	Escutem, nada disto foi ideia minha. Rafe, voc me conhece, no sou um criminoso. Posso ter trapaceado um pouco, mas...
	Voc atacou minha esposa  Rafe repetiu, determinado.
	Eu no sabia que era ela! Ela me assustou. Eu no estava pensando com clareza...
	Disto eu estou bem certo, Gardner  Rafe concordou.  Voc ir arrepender-se deste dia pelo resto da vida.
	Eu precisava do dinheiro.
	E quem lhe pagou? A MegaToys']  Jane inquiriu.
	Posso me complicar, se responder.
	E no acha que j est bastante complicado?  Rafe indagou, enquanto ouvia o som das sirenes aproximando-se.
Gardner ficou mais plido, os olhos arregalados indo de um lado para o outro.
	Ningum avisou-me sobre a possibilidade de ser preso!  exclamou, em pnico.  Os homens da MegaToys disseram que tudo
seria muito simples: eu teria apenas de assust-la, para impedi-la de ir adiante com a empresa!
Jenny aproximou-se mais, baixando os olhos para ele.
	Ento voc admite que fez aqueles telefonemas, que atrasou a entrega dos materiais e... pior de tudo, que destruiu os meus ursinhos?
Jenny estava to furiosa que parecia capaz de destruir o homem com as prprias mos, Rafe percebeu, num misto de admirao e divertimento. E tambm reparou que Gardner mostrou-se sinceramente surpreso com a ltima acusao.
	Fiz algumas coisas erradas  disse o homem,  mas tenho certeza de que no destru ursinho nenhum. Eu no faria uma coisa destas...
	Se no foi voc, quem foi, ento?  Jenny insistiu.
	No fao a menor ideia  Gardner respondeu.
Os policiais que atenderam ao chamado eram os mesmos da noite anterior.
	Ser que vocs dois nunca ficam em casa, dormindo tranquila mente?  Bert foi dizendo, enquanto entrava.
	Apanhei este homem em flagrante, atacando minha esposa  Rafe informou.  Ele estava usando uma mscara de esquiar e acabara de invadir a oficina. E j confessou quem est por trs dos atos de sabotagem;
	Com exceo dos ursinhos  Gardner intercedeu.  Eu nunca toquei neles.
	Ento o que estava fazendo aqui, esta noite?  Jenny perguntou.
	Mandaram-me inutilizar alguns ursinhos com tinta spray...  o homem admitiu.
Rafe teve de segurar Jenny, pois ela parecia prestes a atirar-se cm cima do empreiteiro e fazer justia com as prprias mos.
	Mas isto no  o mesmo que destru-los!  Gardner defendeu-se.
	Vamos, levante-se  o policial ordenou, segurando-o pelo brao. Em poucos segundos, o fio com que Rafe o amarrara foi substitudo por um par de algemas.
Enquanto estavam a caminho da porta, Rafe ouviu Bert dizer:
	Voc no  aquele empreiteiro que colocou a porta de tela em minha casa, no ltimo vero? Sim, achei mesmo que o conhecia... Bem, amigo, voc fez um servicinho bem ruim, ali. J est tudo caindo aos pedaos...
	Voc entende o que isto significa, no ?  Rafe perguntou  Jenny, depois que os policiais saram, levando Gardner.  O luntico que estragou seus ursinhos ainda deve estar por a.
	Mas talvez o sr. Gardner estivesse mentindo. Acho um pouco impossvel que a MegaToys esteja pagando duas pessoas diferentes para me assustar.
	Nada  impossvel, para este tipo de gente  Rafe retrucou.  E vo pagar caro por isto, tenha certeza.
	J esto pagando. Ouvi no noticirio da tev, h pouco, que a MegaToys est sendo investigada pelas autoridades, por ter se envolvido num esquema de suborno. Creio que tero de lidar com problemas bem maiores do que eu, ou meus ursinhos, daqui em diante.
	E se no foi mesmo Gardner quem entrou aqui, ontem  noite? Rafe sugeriu.
	Bem, se voc est tentando me amedrontar, saiba que est conseguindo.
	No quero assust-la, Jenny. Mas ser que faz ideia de como me senti, quando descobri que voc havia sado de casa, sem me avisar? E, depois, quando cheguei aqui e encontrei-a sendo agarrada por aquele canalha...  Rafe tomou-lhe o rosto entre as mos, como se quisesse assegurar-se de que ela estava bem.  Voc correu um grande risco, Jenny.
	Eu sei. Mas no planejava vir at aqui. Apenas fui caminhar um pouco e, j que estava to perto, decidi pegar algo para fazer, pois sabia que no conseguiria dormir, esta noite...  Calou-se, erguendo os olhos para ele.  Faa-me apenas um favor, Rafe. No brigue comigo, nem faa-me cobranas. J passei por momentos terrveis, por um dia.
Ela parecia to frgil e desamparada que Rafe no teve coragem de recrimin-la. Jenny tinha conscincia de que cometera um erro, e de nada adiantaria tortur-la por isto. Por enquanto, bastava-lhe o alvio de saber que ela estava s e salva.
Assim, cm vez de fazer-lhe uma preleo sobre os perigos que correra, Rafe simplesmente ajudou-a a trancar a oficina e, abraando-a proteto-ramente, levou-a de volta para sua casa. Queria apenas proteg-la, fazer com que se sentisse segura.
Acompanhou-a at o quarto e s faltou vestir-lhe o pijama, antes de coloc-la na cama.
Jenny hesitou, sem saber como lidar com aquele "novo" Rafe. Ele estaria somente tentando ser gentil, como fizera na noite da lua-de-mel, quando ela tivera aquela crise de choro? Ou havia algo mais?
Ele, por sua vez, percebeu-lhe a hesitao e atribuiu-a a um choque retardado, pelo susto que passara. Estava disposto a no for-la a nada, pois apenas um monstro insensvel se aproveitaria de uma mulher em tais circunstncias. Desta forma, precisou de todo seu auto-controle para manter-se distante, limitando-se a conversar com ela e, quando a tocava, sem demonstrar qualquer conotao sensual. Depois que ela acomodou-se na cama, deitou-se ao seu lado, fazendo o possvel para no se mover.
Apenas depois que Jenny dormiu, Rafe afastou o cobertor divisrio e tomou-a em seus braos. Com um murmrio sonolento, ela aconchegou-se melhor, escolhendo uma posio confortvel contra o corpo dele, antes de mergulhar no sono novamente.
Mas ele ficou acordado, durante um longo tempo, enquanto a perspectiva de perd-la despertava antigos temores e reabria as feridas que ainda no haviam sido totalmente cicatrizadas.
Quando Jenny acordou e, erguendo a cabea, deu uma espiada no despertador, ficou surpresa ao ver que eram onze horas da manh. Porm, em seguida lembrou-se que era sbado e que no teria de abrir a oficina.
Espreguiou-se, sem saber como conseguira dormir tanto, algo que no tinha hbito, e foi apenas ento que reparou que o cobertor divisrio havia sido atirado para fora da cama. Franziu a testa, tentando recordar-se de quando isto acontecera, at que avistou um bilhete que Rafe lhe deixara na mesinha-de-cabeceira.
"Tente descansar bastante, esta manh", dizia o recado. "Papai levou Cindy  biblioteca, por isso aproveite o sossego enquanto pode. Rafe."
Era a primeira vez que Jenny via a caligrafia dele, com exceo da assinatura, que j conhecia. Observou-a por alguns instantes, como se quisesse descobrir os segredos de sua alma atravs das letras firmes e bem delineadas. Passou a ponta do dedo sobre o nome dele,, concluindo que o formato do R revelava sua natureza apaixonada e explosiva.
Quase levou o bilhete at os seios, querendo pression-lo contra o corao, quando deu-se conta de que estava agindo como uma adolescente apaixonada que acabara de receber o primeiro bilhete do namoradinho.
O rudo do telefone interrompeu-lhe os devaneios.
	Jenny, voc est bem?  Miriam foi logo perguntando.  Fiquei sabendo do que aconteceu ontem  noite. Conseguiram pegar o intruso?
	Sim, estou bem, Miriam. E descobrimos quem era nosso invasor: o sr. Gardner.
	O empreiteiro?! Ah, mas eu devia ter adivinhado! Ele nunca me inspirou confiana. E quanto aos ursinhos? Ele teve chance de estragar mais algum?
	No, felizmente. Mas o sr. Gardner jura que no foi ele quem destruiu aqueles outros, embora estivesse com uma lata de tinta spray, quando foi apanhado, para inutilizar os que ficaram na oficina.
Miriam murmurou uma imprecao em diche que, mesmo no entendendo, Jenny pde perceber o significado. Depois que acalmou-se, voltou a falar:
	E voc acreditou nele?
	No sei...  Jenny admitiu.
	No estou gostando disto, Jenny.
	Eu tambm no, Miriam. Nem um pouco.
	O que Rafe diz?
	No muita coisa. Na verdade, ele foi muito gentil e atencioso. Sequer me recriminou por eu ter ido  oficina sozinha, no meio da noite.
	Mas ele acha que o canalha do Gardner est dizendo a verdade?
	Ele acredita que  bem possvel que o luntico que destruiu os ursinhos ainda esteja nos rondando.
	E quanto ao alarme de segurana? No funcionou?
	Acho que isto, em parte, foi por minha culpa  Jenny admitiu.  Usei a data do meu nascimento como cdigo para o alarme, e no deve ter sido difcil para o sr. Gardner descobrir. Ele fez uma tentativa, e funcionou.
	Mas pensei que voc havia mudado o cdigo.
	E mudei, mesmo. Antes, o cdigo era formado pelas letras do meu nome. No foi uma boa ideia, reconheo. Rafe at me fez uma preleo a respeito, quando estvamos nos preparando para ir para a cama, ontem  noite. Da prxima vez, vou inventar uma senha impossvel de algum decifrar.
	Quando estavam se preparando para ir para a cama?  Miriam repetiu, num tom malicioso.  Ao que parece, nem tudo correu mal, na noite passada.
	Ele apenas foi gentil comigo.
	Ah, sim,  claro  Miriam ironizou.  Escute, querida, voc e Rafe ainda esto tendo problemas? Se acha que estou sendo bisbilhotera, pode dizer-me para cuidar da minha vida, mas...
	No acho que seja bisbilhoteira, Miriam  Jenny interrompeu, num tom afetuoso.
	Bem, na minha opinio, voc deveria parar de lutar e apenas seguir seu corao  a amiga afirmou.
Pouco depois, quando desligou o telefone, Jenny apanhou-se pensando no conselho de Miriam. Porm, as coisas no eram assim to simples. Mesmo tendo se mostrado genuinamente preocupado com ela, e aliviado em saber que ela estava bem, Rafe a tratara mais como a um irm, na noite anterior. Seria aquele o comportamento de um homem apaixonado?, perguntou-se. E como ela poderia saber? Nunca tivera um homem apaixonado ao seu lado e, portanto, no tinha a menor experincia no assunto. Na verdade, estava completamcnte no escuro, naquela situao.
Quando Rafe entrara na oficina e a salvara do ataque do sr. Gardner, abraando-a depois, Jenny percebera algo diferente... como um novo estgio de emoo. Poderia ter sido amor?
Ela no sabia. Porm, de uma coisa tinha certeza: no poderia tlcar o resto do dia sentada ali na cama, imersa em perguntas e devaneios.
Tomou um banho e vestiu uma tnica cor de cereja, de malha aveludada, e cala comprida preta, antes de descer para a cozinha. Tomou uma xcara de caf e decidiu ir  procura de Rafe, no restaurante. Chuck e Cindy haviam acabado de chegar da biblioteca.
	Escolhemos um livro que tem figuras de drages e princesas  Cindy dizia.  Papai, voc est escutando?
	 claro que sim  ele respondeu, distrado.  Mas voc pode acabar de me contar sobre o livro mais tarde. Agora, corra para lavar as mos, pois vamos almoar.
Cindy obedeceu e, virando-se na direo da escada que ligava o apartamento  cozinha do restaurante, Rafe viu Jenny recostada no balastre.
	Ah, j levantou? Pois chegou bem na hora. Hugo preparou um almoo especial, hoje.
	H alguma comemorao?  ela indagou.
	 claro que sim!  Spud intercedeu.  A captura do canalha que andou aterrorizando-a todo este tempo!
	Sim, mas no se esquea de que ainda temos um outro canalha  solta  Rafe lembrou, com ar grave.  Gardner afirmou que no foi ele quem desmembrou aqueles ursinhos, que tal vandalismo s poderia ter sido feito por um pervertido.
	No gosto destes assuntos em minha cozinha  Hugo declarou, agitando a colher no ar, nervosamente.
	Que tipo de sujeito teria coragem de arrancar os braos e rasgar unsinhos de pelcia?  Spud perguntou, revoltado.
Jenny balanou a cabea.
	No sei. Mas quando encontrarmos este sujeito, gostaria de quebrar o brao dele, para ver se ele gosta!  afirmou, com um brilho de raiva nos olhos.
	Ento ter de esperar na fila  disse Rafe.  Pois eu quero ser o primeiro a desferir um belo soco no nariz dele!
Disfaradamente, Jenny olhou em direo de Hugo e reparou que ele mexia na panela com tanta fora que a sopa que estava preparando escorria pelos lados, caindo no fogo.
	Ento voc quebra os braos dele, que eu quebro as pernas!  Spud concordou.  Ei, Huguinho, o que est acontecendo? Voc parece prestes a ter um ataque, a na beira deste fogo!
	Toda esta conversa sobre violncia  revoltante, para uma pessoa sensvel como eu  o cozinheiro respondeu, claramente perturbado.
Cindy voltou do banheiro e a conversa tomou outro rumo, enquanto dirigiam-se para a saleta de refeies. Hugo, com a expresso ainda agitada, serviu-lhes a sopa especial que preparara, colocando a terrina na mesa com um floreio.
	Pot-au-feu com alcachofras  anunciou.
	Caarola ao fogo  Spud traduziu.  E parece que est em chamas mesmo, Huguinho  brincou, como de costume.  O que est havendo com voc? Nossa conversa deve t-lo aborrecido mesmo, pois  a primeira vez que deixa a comida queimar... E melhor voltar para a cozinha, antes que estrague mais alguma coisa.
Com o rosto vermelho, Hugo deu-lhes as costas e saiu bufando.
	Acho que eu no deveria provoc-lo tanto  Spud reconheceu, depois que a porta bateu atrs do cozinheiro.  Mas no consigo evitar. H alguma coisa neste sujeito que... bem, vocs entendem, no ? Aqui, Jenny  juntou, entregando-lhe o prato de sopa.
Jenny colocou o prato  sua frente e olhou-o por um instante, piscando.
	Acho que estou ficando maluca...  murmurou.  Isto aqui parece...  Pegou a colher e afastou alguns pedaos de cebola, antes de ergu-la.  Meu Deus!  gritou. Na colher, havia o pequeno brao de um de seus ursinhos de pelcia, que ela reconheceu imediatamente.
	Hugo, volte aqui!  Rafe chamou, tenso. O cozinheiro reapareceu na porta em poucos segundos.  Ser que pode nos explicar como isto foi parar na sopa?
	Fui eu que encontrei  Cindy intrometeu-se.
	Onde o encontrou, querida?  Rafe indagou, virando-se para a menina.
	Na salinha de Hugo  Cindy respondeu, referindo-se ao depsito onde o cozinheiro guardava seus apetrechos de cozinha e livros de culinria.  Eu achei l e coloquei em cima da mesa da cozinha.
	Eu estava distrado...  Hugo apressou-se em dizer.  Acho que pensei que fosse uma linguia... Isto explica tudo.
	No explica, no  Rafe discordou, num tom gelado.  O que este pedao do ursinho de Jenny estava fazendo em seu depsito, Hugo?
Subitamente, o homem pareceu desmoronar.
	Eu fiz tudo pela nossa cozinha!  gritou.  Preciso de uma cozinha maior, sou um artista, mereo o que h de melhor!  Seus olhos brilhavam, com um fervor fantico.  Fiz apenas o que tinha de fazer, agi com justia!
	O qu, exatamente, voc fez, Hugo?  Rafe inquiriu, sem perder a calma.
	O que precisava ser feito. Eu tinha certeza de que, depois de casada, Jenny iria lhe entregar o celeiro. Mas ela no desistiu de abrir aquela maldita oficina! Percebi que algum estava me ajudando a sabot-la, porm, estavam agindo devagar demais... Sei o quanto ela ama seus ursinhos, talvez tanto quanto eu ame minhas panelas importadas da Frana. E foi por isso que os destru. Para que ela sasse do celeiro e lhe vendesse a propriedade, Rafe.  Hugo encarou-o, como se implorasse sua compreenso.  S assim voc poderia aumentar a cozinha do restaurante, Rafe. Fiz isto por ns!
	Rafe, precisamos conversar  disse Jenny, entrando no escritrio dele que, com a ajuda de Chuck, finalmente localizara.
J haviam se passado algumas horas, desde que os policiais chegaram e levaram Hugo para a delegacia e, desde ento, Rafe permanecera isolado em sua sala.
Fechando a porta atrs de si, Jenny reparou em como ele parecia abatido e deprimido. Imaginou se a estaria culpando por tudo o que acontecera... Afinal, sua recusa em vender-lhe a propriedade aparentemente fora a causa do acesso de loucura de Hugo c, agora, Rafe teria de encontrar outro cozinheiro. Apesar de tudo, Hugo havia sido um chef inigualvel, e sua perda significaria grandes problemas para o restaurante.
	No acha que devemos conversar sobre tudo o que aconteceu?
	Jenny insistiu, quando ele permaneceu em silncio.
	No.
	Pois eu acho que sim.  Entretanto, era difcil falar, quando ele recusava-se a participar. Em poucos instantes, o silncio persistente fez com que ela perdesse toda a pacincia.  Vai ficar a sentado, quieto como uma esfinge de pedra?  explodiu.
	Eu no sou feito de pedra!  Rafe gritou, em resposta.
	Ah, finalmente uma frase completa!  ela comentou, sarcstica. 	Ser que isto significa que voc est pronto para abrir-se comigo?
Diga-me por que est to frio e distante, Rafe. Sei que Hugo era um elemento importante para seus negcios e que est aborrecido por t-lo perdido, mas...
	Voc no sabe de nada  ele interrompeu, com raiva.
	Muito bem.  Jenny encarou-o, furiosa.  Ento, por que no tenta me explicar?
	Sinto-me culpado por tudo o que houve.
	Voc? Mas por que motivo?
	Porque Hugo trabalhava para mim. Eu deveria ter notado alguma coisa estranha, deveria ter percebido que ele no estava bem! Sempre considerei Hugo um tanto... instvel. Porm, nunca imaginei que fosse capaz de agir com violncia. E se ele tivesse atacado voc, em vez de destruir os ursinhos de pelcia?
Ento era isso...
	Algum j lhe disse que voc sofre de excesso de responsabilidade?	Jenny indagou.
	Sim, isto j deve ter sido mencionado uma ou duas vezes  ele respondeu, mau-humorado.
Na verdade, a primeira pessoa a acus-lo fora Susan, em seus ltimos estgios da doena. Certo dia, em que fora v-la no hospital, dissera-lhe que ele devia parar de culpar-se pela leucemia que a consumia. Na poca, Rafe pensara que Susan quisera apenas faz-lo sentir-se melhor, mas Jenny no era como Susan. Jenny no mentiria para agrad-lo: ela sempre lhe dizia a verdade, fosse ou no dolorosa.
Agora, ela inclinou-se sobre a escrivaninha e encarou-o de frente.
	Ningum, a no ser o prprio Hugo, tem culpa pelo que aconteceu 	afirmou, categrica.  Se formos um pouco mais longe, talvez voc acabe percebendo que a culpa foi toda minha, desde que recusei-me a lhe vender a propriedade.
	Ora, no seja ridcula.
	Est bem. No serei, se voc tambm no for.
Seus olhos se encontraram e, por um momento, Jenny desejou ser capaz de decifrar as emoes que os dele escondiam. Foram interrompidos por Chuck, que bateu na porta.
	Desculpe, eu no queria incomodar. Mas Cindy est l em cima, esperando por vocs.
Jenny levara a menina para o quarto logo depois da confisso de Hugo, querendo evitar que ela presenciasse a chegada da polcia. Ela e Rafe subiram, agora, encontrando-a na cama, com um livro entre as mos. S que, desta vez, no era a Bela Adormecida.
	Vocs sabem de onde vem os bebs?  Cindy perguntou, muito animada.  Pois eu sei. O vov pegou um livro na biblioteca, hoje, que explica tudo.  Estendeu o exemplar, para que eles vissem.  Quero uma irmzinha de presente de aniversrio, est bem?
Rafe e Jenny trocaram um olhar incerto.
	Ser que vocs esqueceram como se faz bebs?  a menina indagou, ligeiramente desapontada.  Eu j fui beb, um dia. Voc no pode ter esquecido, no , papai?
	No, querida, eu no esqueci  ele respondeu.  Alis, lembro-me que, quando beb, voc no fazia tantas perguntas.
	O livro diz que a mame e o papai tm de se amar bastante. E vocs se amam, no ?  Cindy insistiu, mais uma vez fazendo com que Jenny pensasse que, perto dela, a Inquisio Espanhola no passara de brincadeira.
Porm, Rafe limitou-se a assentir.
	Ainda bem  a garotinha sorriu, num misto de alvio e satisfao.
 Ento, no esqueam: uma irmzinha. Se for um menino, vocs podem devolver.
Quando finalmente conseguiram acalm-la o suficiente para dormir, Jenny e Rafe saram do quarto, dirigindo-se para a sala de estar.
	Entendo que voc concordou com Cindy apenas para tranquiliz-la, mas...  Jenny comeou.
	Eu amo voc  ele interrompeu-a.  E quero tornar nosso ca samento verdadeiro.
Ela encarou-o, completamente surpresa.
	Temos de esquecer o passado, Jenny  Rafe continuou, sem desviar os olhos dos dela.  Ns dois teremos de aprender a confiar novamente. No ser fcil, mas acredito que valer a pena. Ambos sofremos muito, passamos por experincias dolorosas, mas isto no significa que teremos de desistir da felicidade. Talvez devssemos tentar encarar a vida por um outro ngulo.
	Como?
	Precisamos nos convencer de que j sofremos o bastante e que, agora, chegou a hora de sermos felizes. Afinal, fizemos por merecer, no acha? No temos culpa, por nada do que nos aconteceu, no passado.
	Eu sempre me senti culpada  ela admitiu, num sussurro.  Sempre achei que meu pai havia nos abandonado por minha causa.
	E eu achava que Susan morrera por minha culpa.
	Ela morreu de leucemia, Rafe. No havia nada que voc pudesse fazer para evitar.
	Assim como voc no pde evitar que seu pai sasse de casa. Na minha opinio, ele era um homem egosta e sem conscincia, do contrrio jamais teria abandonado a nica filha. E isto no teve nada a ver com voc, entende?
Jenny sequer percebia que as lgrimas lhe corriam pelo rosto. Tudo o que lhe importava eram as palavras de Rafe, a sinceridade com que ele as proferia: ela no tinha culpa. E isto queria dizer que, apesar de tudo, era digna de ser amada.
Aproximando-se para enxugar-lhe as lgrimas, ele prosseguiu:
	Em vez de continuarmos com medo de sofrer mais, ns deveramos nos convencer de que o pior j passou. Que, de agora em diante, s nos acontecero coisas boas. O que voc me diz disto?
	S posso dizer que amo voc, Rafe Murphy...
	Fico contente em ouvi-la, sra. Murphy  ele tornou, sorrindo. Segurando-lhe a mo, juntou:  Venha comigo...
	Para onde?
	Comear nossa lua-de-mel. Acho que j adiamos bastante, no concorda?
Ela fez que sim, sorrindo tambm.
Quando chegaram na porta do quarto, ele a pegou no colo.
	O que est fazendo?  Jenny indagou, surpresa.
	Carregando voc at a cama. Temos de cumprir todas as tradies.
Deitaram-se lado a lado, unindo os corpos num abrao quente e apertado. Depois, comearam a despir-se mutuamente, devagar, como se saboreassem cada toque, cada carcia. Trocavam beijos longos e apaixonados e, aos poucos, a intensidade dos carinhos foi aumentando, o fogo do desejo consumindo-os por inteiro.
	Voc  linda...  Rafe murmurou, admirando-lhe o corpo nu. 	A primeira vez em que a vi, pensei que...
	Eu fosse uma maluca, tentando atac-lo com um urso de pelcia 	Jenny completou, em tom de brincadeira.
	No.  Ele tornou a beij-la, longamente.  Pensei que voc parecia uma deusa, um anjo vestindo cala jcans...
Ela riu.
	E verdade?
	A mais pura verdade. S que, agora, em vez de lhe dizer o quanto a amo, eu vou lhe provar...
Rafe retomou as carcias, levando-a ao clmax do prazer, longo, prolongado. Com os corpos unidos, como se fossem apenas um, provaram um ao outro que a felicidade era possvel, e que, juntos, a haviam encontrado.
Mais tarde, aconchegada entre os braos dele, Jenny beijou-lhe o pescoo, suspirando de satisfao.
	Sabe de uma coisa?  disse, baixinho.  Eu ainda no lhe dei nenhum presente de casamento...
	O que acabamos de ter foi o melhor presente da minha vida  ele respondeu, sorrindo maliciosamente.
	Estou falando srio.
	Eu tambm.
Jenny cobriu-lhe os lbios com a mo, para impedi-lo de recomear a beij-la, e tentou concentrar-se no que iria dizer.
	Rafe, quero lhe dar a minha casa, como presente de casamento, para que voc possa expandir o restaurante. Afinal, estou usando apenas o celeiro e no vou mais precisar da casa. Poderemos contratar um arquiteto que, com certeza, descobrir a melhor maneira de unir as duas construes.
	Jenny, eu no posso aceitar...
	Shh... Considere como um presente para nossos filhos  ela disse, baixinho.
	Nossos filhos, hein? Ora, at que no  m ideia...
	No  mesmo.  Ela sorriu, abraando-o.  Ah, mais uma coisa: ao contrrio do que Cindy pediu, se for um menino, ns ficaremos com ele.
	Sim, do mesmo jeito que ficarei com voc para sempre, juntinho assim... Agora, ainda tem algo a dizer, antes de comearmos a providenciar o irmozinho de Cindy?
	No... Apenas que amo voc, Rafe. De todo meu corao.
	E eu amo voc, Jenny  ele sussurrou, antes de beij-la novamente, numa prova concreta de suas palavras.

FIM
